Padre Cicero

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Material Information

Title:
Padre Cicero Joaseiro visto de perto : o padre Cicero Romão Baptista : sua vida e sua obra
Physical Description:
166 p., 20 leaves of plates : ill., ports. ; 19 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Vidal, Reis
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Rio de Janeiro
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
History -- Juazeiro do Norte (Brazil)   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Notes

Statement of Responsibility:
Reis Vidal.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 31166113
Classification:
lcc - F2651.J83 V5
System ID:
AA00000241:00001

Full Text

REISS VIAL
Kh.S


;3 `'


e.JOAZlEIRO VISTO
DE P ETO
O PADR E CICERO
ROMAO EAPTISTA
5UA VIDA E SUA OBQA


i 1_
















PADRE


CICERO



























































Autographo de S. Revma. para o auctor deste livro,
em 14 de novembro de 1931


**^e;























Capa do artist alagoano
Jos6 Paulino de Albuquerque Lins





REIS VIDAL








PADRE CICERO


JOASEIRO VISTO DE PERTO
O PADRE CICERO ROMAO BAPTISTA
SUA VIDA E SUA OBRA


RIO DE JANEIRO
1936



















Ao Sertanejo do nordeste, forca viva de
nossa formagao ethnic, que os sociolo-
gos patricios desprezaram, para estu-
dar e enaltecer a raga brasileira, em
climas onde ella soffre a influencia re-
sultante do entrelagamento cor filhos
de outras nag6es. Ao home rustico
dos campos, cerne da nacionalidade, sa-
crario onde repouzam as legitimas re-
servas morales da patria, a homenagem

do auctor.










O PADRE CICERO E 0 LIVRO DO
SR. REIS VIDAL
Jayme d'Altavilla

Ninguem corn mais autoridade do que
o sr. Reis Vidal, para escrever um livro
sobre a vida e a obra do Patriarcha do Joa-
seiro.
Brasileiro, apaixonado pela poesia
mystica que se tergava no Nordeste em
torno do padre, foi ao sertao cearense como
jornalista.
Aconteceu o que seria de esperar num
espirito curioso e honest: a saciedade
do homein de imprensa foi substituida pela
admiragfo do intellectual.
0 sr. Reis Vidal nio somente viu o
Joaseiro, mais viveu no Joaseiro e por isso
a sua narrative ter um friso de verdade
bonita e sincera.
Dahi o prazer que sentimos lendo as
suas conversag~es cor o Padre Cicero, o






REIS VIDAL


ambiente mistico do Ceard e as conclusJes
psychological feitas cor serenidade e jus-
tiga.
Pelas paginas do livro andam homes
e factos remotos, desde o dia em que o Pa-
dre Cicero, recentemente ordenado, f6dra
desbrenhar aquella regiao que hoje o san-
tifica.
O sr. Reis Vidal nao se limita a nar-
rar a obra humanitarian do grande padre,
como nos convince de sua cultural classic,
o que constitute uma feiaio interessante
para os que imaginam, no sacerdote ,beati-
co de Joaseiro, apenas a suggestio de um
home bom, dotado de profundos senti-
mentos christaos, por6m inculto.
No livro, aprecia-se o Padre Cicero
como politico decent, sacerdote virtuoso,
cidadao digno e brasileiro patriota.
0 sr. Reis Vidal fez muito bem dedi-
cando um de seus capitulos dquella histo-
ria errada de que o Padre Cicero havia ho-
misiado o bandoleiro Lampedo.
Nao houve tal.
0 padre valeu-se do moment em que
o here do saque e da emboscada entrava
no Joaseiro acobertado por uma amnistia
irregular, afim de procurar despertar no
seu animo algum restinho de sentiment






PADRE CICERO


christao que por ventura ainda aI existisse.
Ninguem negara ao Padre Cicero o
poder spiritual que exercia sobre milhoes
de brasileiros, espalhados principalmente
pelo Nordeste.
Nao ha uma acgao ma na sua vida que
possa servir de borrao na pagina branca de
sua biographia.
0 seu testamento e o desmentido de
sua avareza: em vida distribuiu todo ouro
de seu espirito altruistico; depois de mor-
to deixou para realisagoes nobres tudo que
Ihe deram e tudo que ajuntou cor o seu
trabalho.
Ninguem prova na obra missionaria do
Padre Cicero a existencia de ur gesto
fdra das leis humans.
Sempre amou o Brasil na pessoa in-
genua do sertanejo, capaz de todos os sa-
crificios, desde que seja tratado cor sua-
vidade.
E si os sertanejos o amavam, e que
viam nelle um advogado desinteressado,
uma voz que estava sempre vibrando na
defeza de seus direitos.
Conhego grande parte do sertio nor-
destino: dezenas de vezes tenho visto so-
bre as paredes rebocadas das casas serta-
nejas.'o retrato do famoso Thaumaturge e










REIS VIDAL


a fM inclusa de que aquella efigie ali estan-
do nada acontecerd ao pobre lar sem con-
forto.
Sou um louvador da obra do Padre Ci-
cero, porque o seu nome, s6 o seu nome,
foi a consolagao para milhares de doentes
que se curavam apenas corn a suggestio.
Os milagres que se Ihe attribuiram,
nao foram feitos propriamente por seu po-
der miraculoso: foram feitos pelos pro-
prios necessitados, que tiveram fe e remo-
veram aquellas montanhas de que falava o
meigo Jesus Christo.
Privando da vida evangelica do padre,
o sr. Reis Vidal escreve um livro muito
documentado e interessante.
Jose de Anchieta, que por uma injus-
tiga ainda nao foi canonisado, foi o apos-
tolo do litoral do Brasil.
Faltava um novo Anchieta para o ser-
tao e esse foi, sem duvida, o Padre Cicero,
padrinho inesquecivel dos nossos irm~os
das caatingas.








A PALAVRA DO ESCRIPTOR
AFFONSO DE CARVALHO

Meu caro Reis Vidal.
,Saudagoes.
Acabo de ler o seu trabalho sobre o
Padre Cicero e apresso-me em apresentar-
Ihe os meus mais effusivos parabens pela
maneira cor que soube V. apresentar a fi-
gura do Patriarcha de Joaseiro nos seus
aspects multiples e na sua tao discutida
personalidade.
Ainda por muito tempo se analysara a
vida do Padre Cicero Romao Baptista. E
a Historia certamente nao deixard de apre-
sental-o como uma das expresses mais ca-
racteristicas do mysticismo barbaro do
Nordeste e cujo advento assignala uma
phase nitida da nossa evolugao social.
0 seu livro traz preciosa contribuigio
para o melhor conhecimento da "Padri-
nho" do nosso sertIo.
E isso V. o fez de modo habil e intel-
ligente, cor penetrante visgo de jornalista
e em linguagem clara, singela, e simple
como a alma do nosso sertanejo.
Nio se esqueceu V. de accentuar na
complex individualidade do "thaumatur-








12 REIS VIDAL

go do sertio", o politico, de tao decisive
influencia na historic da sua terra e, em
epoca tormentosa, na propria historic po-
litica do Norte; e o administrator, orien-
tador de massas humans para o labor dos
campos, semeador de nucleos de regenera-
g5o e de trabalho.
Joaseiro! De um arraial fez uma ci-
dade, dctando-a, sobretudo, de obras de as-
sistencia social, que tanto enaltecem o seu
sentiment christgo.
0 Padre Cicero sera para muitos o
Beato, e talvez seja este o character predo-
minante corn que se fixou na imaginacao
do povo.
E, entretanto, melhor lhe ficaria o ti-
tulo de "O Semeador" pois toda a sua vida
d um apostolado, em cujo desempenho ou-
tra cousa nao fez senao espalhar a semen-
te do Ber e dos campos; a fd e a confian-
9a; o nome da Patria e o nome de Deus;
a palavra da ordem e da regenerag~o.
0 episodio de "Lampeao" vis, como
fera domesticada, recebeu a sua bencao e
obedeceu aos seus conselhos, corn toda a
sua alcateia, tingida pelo sangue das caa-
tingas, faz lembrar "O Lobo de S. Fran-
cisco" de que nos falam os versos rutilan-
tes de Ruben Dario.







PADRE CICERO


0 Padre Cicero merece, indiscutviel-
mente, as atteng6es dos estudiosos da nos-
sa terra e da nossa gente. Foi grande pelo
que fez e maior ainda pelo que deixou de
fazer...
Que seria do sertao, se esse home,
que exercia irresistivel fascinagio sobre
as multidoes do Nordeste, em vez de ori-
ental-as para o Bem se convencesse do seu
proprio messianismo e assumisse attitudes
aggressivas de resistencia a ordem e a lei
como Antonio Conselheiro em Canudos e
Jose Maria no Contestado ?
Seu livro, meu caro Reis Vidal, foca-
lisa e document, cor invulgar conheci-
mento do assumpto e judiciosas observa-
g5es de quem in loco apreciou os factos,
todas essas curiosas particularidades da
vida interesantissima do Patriarcha.
Renovo-lhe os meus mais effusivos
parabens.
"Padre Cicero" ficarg, certamente,
como um dos mais preciosos contos do ro-
sario azul de obras que, ainda por muito
tempo, se escreverao sobre a vida e ; obra
do Santo de Joaseiro.

Rio, 26 10 34.
(a) AFFONSO DE CARVALHO.













EM CONTACT COM 0 JOASEIRO

MECA DO NORDESTE

0 RETIRO DO PATRIARCH













EM CONTACT COM 0 JOASEIRO
MECA DO NORDESTE
0 RETIRO DO PATRIARCHA

'Por mais discutida que tenha sido
ou que seja a individualidade do Padre
Cicero Romio Baptista, ella avulta ainda
nos dias que correm, na sua incomparavel
singularidade, cor um irresistivel poder
de atracgio, tal o prestigio que aureola o
seu nome, atraves da successio dos an-
nos, em que a lendaria figure do veneran-
do patriarcha se projectou em todos os
quadrantes do Brasil.
Realmente, para se fixar os tragos
predominantes dessa interessante perso-
nalidade, em torno da qual se tnm decan-
tado, corn profusao, histories e lendas dos






REIS VIDAL


mais impressionantes matizes, e necessa-
rio estudal-a inteiramente f6ra do alcan-
ce das suggestoes do meio ambiente.
E assim se poderio assignalar-lhe as
linhas marcantes do admiravel espirito,
que e um complex de conhecimentos
humans, dando-lhe ainda mais autori-
dade e maior forga persuasive, quando o
venerando sacerdote discorre sobre pro-
blemas de indiscutivel transcendencia, re-
lacionados cor a vida brasileira nos seus
variados e multiples aspects.
NMo era o Padre Cicero apenas bri-
lhante conversador. Neste particular a
prodigiosa memorial do bondoso Padre
retinha nitidamente todo aquelle emma-
ranhado de episodios e factos que cons-
tituem a preciosa narrasio da vida dos
povos.
Que magnificos ensinamentos sua
privilegiada cultural ministrava a quantos
delle se acercavam, nos assumptos perti-
nentes A sociologia, A philosophia, A theo-
logia, ao direito canonico, e emfim a todas







PADRE CICERO


as sciencias devassadas pela sabedoria
humana !
Encaramol-o, portanto, como uma
intelligencia polymorpha que, argamas-
sando various e pacientes estudos no de-
curso de uma laboriosa existencia dedi-
cada aos livros, se irradiava exhuberante-
mente e se affirmava como robusta ex-
pressao mental.
No seu manso retire de Joaseiro, que
a. imaginagio de escriptores e jornalistas
ter pintado cor tonalidades differences,
ora procurando apontal-o como nucleo de
fanatismo grosseiro, ora como um redu-
cto de cangaceirismo, o Padre Cicero Ro-
mio Baptista, na simplicidade encanta-
dora de seus habitos, passava tranquilla-
mente os dias entregue apenas a nobili-
tante missAo de evangelisador das almas,
semeando o bem e a cordura, espalhando
o amor entire os homes, num verdadei-
ro apostolado.
Mas, se altamente nobre foi sua ta-
refa na piedosa missao de pastor de al-















































Joaseiro, 1917 0 president Jojo ThomB de
Saboya e Silva em visit ao Pe. CICERO

















it.











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Joaseiro, 1917 O Pe. CICERO cercado da comitiva official do entio governador do
Ceara, Sr. Jo-o Thomi de Saboya e Silva






PADRE CICERO


passou a ser um dos pontos de conver-
gencia das atteng6es dos paredros poli-
ticos de todos os matizes. Tres presiden-
tes de Estado que foram os Srs. Joao
Thome de Saboya e Silva, Jose Moreira
da Rocha e Jose de Mattos Peixoto, nao
poderam resistir ao desejo de se por em
contact cor o respeitavel sacerdote.
Antes de se revestirem de mero character
de cortezia, taes visits envolviam uma
elevada significagio political que bem Ihe
attestava o prestigio pessoal. Por outro
lado, a Joaseiro chegavam mensagens de
vultos nacionaes exprimindo protests
de congratulag~es ao eminente cearense,
por este ou aquelle advento em que seu
nome estivesse em evidencia.
Na excursgo presidential do desem-
bargador Jose Moreira da Rocha foram
apanhados films cinematographicos em
que se via o Padre Cicero e a sua Meca
em festival commemorag~es.
Abrilhantou essa visit a ida do cor-
po da Escola de Aprendizes Marinheiros,






REIS VIDAL


commandada pelo capitio-tenente Pedro
Bittencourt, que tambem Ihe prestou
suas homenagens, quando da inaugura-
gdo do monument erigido a sua pess8a
e offerecido pelos homes do sertio, mo-
numento esse levantado na praga recem-
construida e denominada Almirante Ale-
xandrino, entao ministry da Marinha.
Estamos certos de que de maneira
mais cathegorica nio se poderia desfazer
a impressio que por ahi subsiste, dando
Joaseiro como um meio infenso a evolu-
cio natural das sociedades hodiernas e
vendo no seu patriarcha um factor desse
supposto retardamento na vida political
e social da tranquilla cidade cariryense.
Afigura-se-nos um dever de consci-
encia affirmar que s6 sera licito commen-
tar, discutir, elogiar ou deprimir o Joa-
seiro e seu povo, Aquelle que, como n6s,
f6r de perto, sentir-lhe as pulsag~es, aus-
cultar-lhe os sentiments e os beneficos
effeitos da santa crusada emprehendida
pelo bondoso levita em prol de seus me-

















PADRE CICERO 23

Ihoramentos e do alevantamento moral de
seus habitantes. Nunca, porem, fallar por
informago, para que taes arguments, de-
rivantes de fontes inseguras, nio venham
a peccar por falta do principio basico da
verdade; expondo um home, sua terra
e sua gente a um ambiente de duvidas e
de falsas apreciaq6es.





















A ORIGEM DO THAUMATURGO

O CAPELLAO DO JOASEIRO

ARRAIAL QUE SE FEZ CIDADE











A ORIGEM DO THAUMATURGO
O CAPELLAO DO JOASEIRO
ARRAIAL QUE SE FEZ CIDADE
SSem preoccupagio de minudencias,
abstrahindo-nos de detalhes, quasi sem-
pre pittorescos, dirigimo-nos certa vez a
residencia do Anchieta sertanejo, onde ti-
vemos ingresso, cercados da consideraggo
do costume.
Dona Mocinha, a senhora que des-
empenhava as funcg6es inherentes a mor-
domia da casa do Padre Cicero, recebeu-
nos corn a mais captivante gentileza,
franqueando-nos a entrada para o gabi-
nete.
Lembramo-nos bem que, no momen-
to, o Padre Cicero se encontrava acom-
panhado dos seus amigos Dr. Juvencio







REIS VIDAL


de Santanna e Srs. Jose Fausto, Pedro
Silvino de Alencar, Jose Ferreira e Joio
Bernardo.
Exposto em trapos rapidos o fim da
nossa visit, o Padre Cicero iniciou com-
nosco palestra fluente, entrecortada de
commentaries palpitantes, sobre os as-
sumptos por n6s ventilados. E quando
Ihe fallamos da nossa primeira visit a
Joaseiro, quando, havia cinco annos, em
1926, como figure da comitiva official,
fomos assistir a inauguragio da estagao
ferroviaria, abriu-se-lhe o semblante num
sorriso, e o Padre nos mostrou que ainda
conservava na retentiva todas as festas
entZo realisadas, sem esquecer as meno-
res passagens.
Desviando-nos do caminho quasi
sempre seguido por quantos iam a Joa-
seiro entrevistar o Padre Cicero, resolve-
mos ouvil-o sobre sua vida, desde a epoca
de seu nascimento, em 24 de margo de
1844, na cidade do Crato, ate os dias pre-
sentes.







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Joaseiro, 1929 Governador Jose Carlos de Mattos
Peixoto. Ao lado esta um cartio corn dedicatoria ao
Pe. CICERO


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Joaseiro, 1929 0 Pe. CICERO ladeado pelo president jos6 Carlos de Mattos
Peixoto e Madame Violeta Mattos Peixoto


V






PADRE CICERO


Filho, legitimo de Joaquim Romao
Baptista e de D. Joaquina Vicencia Ro-
mana, tendo por av8 paterno Romio Jose
Baptista, um dos decendentes do primei-
ro colonisador do Cariry Jos6 Pe-
reira Lima, de nacionalidade portu-
gueza, o nosso entrevistado, desde a es-
cola primaria, revelou tendencia para o
sacerdocio, vindo para o Seminario do
Ceara, onde se ordenou em 30 de novem-
bro de 1870. Essa cerimonia foi presidi-
da pelo primeiro bispo de Fortaleza, D.
Luiz Antonio dos Santos.
0 novo ministry catholico cantou
sua primeira missa na cidade natal, o
Crato, onde permaneceu por espago de
mais de um anno.
Apesar de nio se achar a frente dos
destinos da igreja cratense, o jovem sa-
cerdote trabalhava cor todo o enthusias-
mo pela fundagio de um seminario na-
quella cidade sul-cearense, vindo a ver
realisada sua aspiraSio no anno de 1875,
quando foi fundado o segundo educanda-
rio ecclesiastico no Estado e de onde ter






REIS VIDAL


sahido as figures mais illustres do sacer-
docio cearense.
Ap6s aquella curta estadia no Crato,
o Padre Cicero retornou a Fortaleza, on-
de lhe foi commettida important mis-
sio religiosa no norte do Estado, pelo
mesmo bispo que o ordenara havia pouco
mais de dois annos.
Tendo desempenhado cabalmente
aquella incumbencia, recebeu como pre-
mio dos seus services a nomeacgo para
o honroso cargo de capel.o do Joaseiro,
onde chegou a 11 de abril de 1872.
Nessa epoca, Joaseiro ainda era um
pequeno arraial. Erguiam-se, alli, apenas
seis casas, cobertas de telhas e trinta
choupanas habitadas pela pobreza, af6ra
a capellinha construida pelo primeiro pa-
dre que por l1 passara havia poucos an-
nos, reverendo Pedro Ribeiro da Silva,
cujos paes residiam naquella povoagio.
Agora, entretanto, Joaseiro, gragas a
poderosa irradiagao spiritual do seu Pa-
triarcha, num verdadeiro milagre de ex-










PADRE CICERO


pansao urbana, unica nos sert6es brasi-
leiros, se nos apresenta com ares de uma
b6a cidade, com populacao superior a
60.000 habitantes e contando cerca de
8.000 edificag6es mais ou menos novas
e asseiadas, ostentando bellas praSas e
magnificas ruas, e todas, diga-se de pas-
sagem, corn calaamento melhor e mais
elegant que os de algumas arteries de
Fortaleza, a capital do Estado.
E' sempre interessante saber-se a
origem do nome de uma cidade grande
e populosa como a important metropole
cariryense.
Segundo depoimento historic do
Padre Cicero, o nome do ent~io povoado
originou-se do facto de existirem em re-
dor da capellinha que alli se erguia, va-
rios pes de Joaseiro.




































4'YA





Joaseiro, 1926 Expressiva dedicatoria do Com. da
Escola de Aprendizes Marinheiros de Fortaleza,
Capitio Tenente Pedro Bittencourt ao Pe. CICERO
- E'cos da visit daquella unidade da Marinha Bra-
sileira ao JOASEIRO


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Joaseiro, 1926 A Escola de Aprendizes Marinheiros de Fortaleza, em pleno desfile
pelas ruas e pracas de Joaseiro, homenageando o Pe. CICERO


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r, rpsr~D~












0 EVANGELHO DAS CAATINGAS

CULTO RELIGIOSO

0 SYSTEM DA CATECHESE










O EVANGELHO DAS CAATINGAS

CULTO RELIGIOSO

O SYSTEM DA CATECHESE

Ate a present data, ninguem conse-
guiu explicar o verdadeiro motivo por-
que o Padre Cicero se tornara, dentro de
pouco tempo, um nome lendario, um au-
thentico conductor de homes.
Nao se pode dizer que o seu presti-
gio religioso fosse oriundo tdo somente
de sua variada e solida cultural.
Nao se deve tambem julgar o velho
sacerdote como uma destas individuali-
dades que commumente fazem prosely-
tismo em torno de sua pess8a, exploran-
do a ignorancia do povo.







REIS VIDAL


SNo sao, portanto, os motives acima
alludidos os unicos criadores da aureola
que cercj a figure do patriarcha do Joa-
seiro. Vamos transmittir a sua palavra,
deixando ao criteria de cada um a dedu-
gio logica do seu immense poder espiri-
tual sobre uma populagio de mais de ses-
senta mil almas, ascendencia que se irra-
diou por todo o nordeste brasileiro.

"Depois da minha ordenagao, reque-
ri ao bispo do Ceara um exame para que,
julgado com a devida capacidade, pudes-
se praticar a verdadeira confissio au-
ricular, dentro dos dogmas e canones da
igreja, o que alias nao era obrigatorio na-
quella epoca".

Investido daquellas prerogativas, o
Padre Cicero iniciou sua obra de evan-
gelisaaio e da mais perfeita catechese.
Dentro de pouco tempo, as ovelhas
confiadas aos cuidados de tio abnegado
pastor propagavam, expontaneamente, a
excelcitude de seus conselhos, formando-


~~~_







PADRE CICERO


se entio uma especie de lendaria admira-
qHo e respeito por tudo quanto partia da
b8cca do novo sacerdote.

Emquanto isto, aquella pequena po-
pulaiio de pouco mais de duzentas pes-
s8as, augmentava na mesma proporgio
em que se irradiava o prestigio spiritual
do virtuoso capellao.

A sua obra religiosa iniciava-se sob
os mais promissores auspicios.
Em vinte annos de evangelisagao,
Joaseiro attrahira habitantes de todos os
Estados visinhos, formando-se uma villa
populosa e de vida commercial bastante
intense.
Commemorando o vigessimo anni-
versario de seu vigariato, em 1892, o Pa-
dre Cicero realizou as festas da semana
santa com solennidades impressionantes
para o sertanejo.
Tendo importado directamente da
Franca, para tal fim, alfaias e imagens







REIS VIDAL


de tamanho natural, e evocando detalhes
em Chateaubriand e outros historiadores
catholicos, procurou reviver, em impo-
nente via sacra, os episodios biblicos de
Jesuralem, que deram origem ao chris-
tianismo, tendo por epilogo a scena an-
gustiante do Calvario.

Foram. extraordinarios os effeitos
produzidos.

E' de calcular-se a massa humana
submissa, ajoelhada na hora da apresen-
taao da agonia do Rabi gallileu, e o pres-
tigio que o Padre Cicero grangeara corn
essa commemoragio da semana santa.
Comegava assim a sua figure a entrela-
var-se cor a vida dos santos e a ganhar
f6ros de Thaumaturgo.

Tambem os jesuitas haviam feito re-
presentagSes da paixio de Christo, cor
proveito admiravel.
No Joaseiro repetia-se a catechese,










PADRE CICERO

e mais uma vez, pelos olhos e pelos ou-
vidos, a religiio entrava na alma simples
daquella gente.

















MUNICIPIO E COMARCA DE
JOASEIRO
A REVOLU4AO DE 1914
POLITICAL SERTANEJA











MUNICIPIO E COMARCA DE
JOASEIRO
A REVOLUQAO DE 1914
POLITICAL SERTANEJA

Emquanto Joaseiro era apenas uma
povoagio progressista, o Padre Cicero,
incontestavelmente factor daquelle con-
sideravel progress, centralisava todos os
poderes locaes.

Portador de tantas credenciaes, o
eminente sacerdote iniciou em 1910, as
"demarches" para a transformaaio de
Joaseiro, ate entUo povoado dependent
do Crato, em municipio autonomo. Esse
gesto mereceu de logo as atteng6es do
governor e da Assemblea Legislativa do
Estado que reconhecendo a Justiga da-







REIS VIDAL


quella pretengSo, providenciaram no sen-
tido de effectival-a.
Entrementes, o Padre travalhava jun-
to aos chefes dos municipios sul-cearen-
ses para que os movimentos armados,
que sempre tinham por finalidade a de-
posigio de um prefeito, fossem relegados
ao esquecimento e pudesse a paz trazer
o progress e o socego ao seio da familiar
cariryense.
De accord cor os seus desejos, o
governor do Estado elevou o povoado de
Joaseiro a categoria de municipio, reali-
sando-se em 4 de outubro de 1911 a festa
em regosijo aquelle acontecimento, o que
levou o Padre Cicero a aproveitar o en-
sejo afim de reunir em um convenio po-
litico os chefes dos municipios pre-allu-
didos, os quaes assignaram um pacto de
paz, cessando assim a desordem, e reto-
mando aquellas localidades a march do
desenvolvimento, entravado por muitos
annos de agitada vida partidaria.
Ahi teve inicio a marcante ascen-







PADRE CICERO


dencia political do Padre na regiio cari-
ryense, tornando-se o chefe inconteste
das mais prestigiosas figures daquella
zona.
Marchando em parelhas com o sa-
cerdote da igreja, seguia o politico ja ex-
perimentado.
O que foi a actuagio do Padre Cice-
ro na revolugio civil de 1914, o Brasil nao
ignora nos seus menores detalhes.
Tal ja era o prestigio do sacerdote
joaseirense, que, depois de as forgas obe-
dientes a sua chefia deporem do gover-
no o coronel Franco Rabello, o poder cen-
tral, tendo a frente o marechal Hermes
da Fonsaca, nomeou o entao coronel Se-
tembrino de Carvalho para desempenhar
as funcgSes de interventor federal no
Ceara.
Cor esta rapida referencia, quere-
mos apenas nao deixar sem allusio o mo-
vimento revolucionario daquella epoca,
afim de que se nao verifique um hyato na







REIS VIDAL


nossa narrative sobre o Padre Cicero Ro-
mio Baptista, a sua vida e a sua obra,
como mentor spiritual do povo de Joa-
seiro.
Criado pelo governor do Dr. Joio
Thome, em 1916, o termo judiciario, foi
em 1923 a cidade de Joaseiro elevada a
comarca por acto do president Justinia-
no da Serpa, sendo nomeado o seu pri-
meiro juiz de direito o Dr. Juvencio Joa-
quim de Santanna, o qual, afim de plei-
tear a sua eleiiio para a representagio
cearense a camera baixa do Paiz, desen-
compatibilisou-se do cargo que honrada-
mente exercera ate 1926.
A reform da magistratura cearense,
feita na administration do Dr. Fernandes
Tavora, transformou Joaseiro em termo
judiciario, provide por juiz togado.
Estudando-se a personalidade do Pa-
dre Cicero, sob os seus aspects multi-
formes, ndo se pode deixar de examinal-a
na sua mais brilhante faceta o home
public.






PADRE CICERO


Realmente, poucos homes no Bra-
sil tem atrahido para si, tanta curiosida-
de e tanta somma de prestigio.
Isolado da vida trepidante das me-
tropoles, entregue cor devotada atten-
go aos estudos geraes e sobretudo ao das
reforms political operadas no seculo, o
patriarcha do Joaseiro, communicando-se
cor o resto do Paiz apenas pelo telegra-
pho, tornou-se, dentro de bem curto
espago de tempo, uma especie de oraculo,
constantemente consultado pelas perso-
nalidades mais destacadas do regimen.
O seu noviciato na vida public, ve-
rificou-se quando, cor o tacto de um con-
sumado diplomat, conseguiu congragar
as correntes political em choque nos de-
zoito municipios cariryenses.
Corn essa promissora iniciagao e for.
temente apoiado pelas phalanges parti-
darias, foi o illustre sacerdote investido
do honroso cargo de vice-presidente do
Estado, no ultimo period administrati-
vo do commendador Nogueira Accioly,







REIS VIDAL


exercendo, simultaneamente, as funcg6es
de chefe da communa joaseirense.
Consolidado o seu prestigio, cor a
fragorosa queda do governor do coronel
Marcos Franco Rabello, como resultante
da revolucgo de 1914, viu novamente o
chefe sul-cearense o seu nome guindado
ao posto de 1 vice-presidente do Ceari,
na gestao governmental do coronel Ben-
jamin Barroso, pelo suffragio unanime
do eleitorado cearense.
Cumpre salientar que, desde a inde-
pendencia do Joaseiro ate o anno de 1926,
foi s. revma. successivamente reeleito
prefeito daquella cidade, contando assim
quinze annos de governor municipal, ad-
ministragSo essa interrompida vinte me-
zes por motivo de ordem political, no ja
fallado governor do coronel Franco Ra-
bello.
Retomando o fio da nossa narrative,
vamos encontrar o Padre Cicero traba-
lhando para eleger, na vaga deixada na
representagao federal do Ceari, cor a







q


A' direita, o Pe. CiCERO Romao Baptista, logo ap6s
sua ordenacio


#n
-,










II


Joaseiro, 1925 Aspecto da affluencia do povo para assistir a inauguragio da
estatua do Pe. CICERO na praca Aim. Alexandrino de Alencar






PADRE CICERO


morte do Dr. Floro Bartholomeu da Cos-
ta, o Dr. Juvencio Joaquim de Santanna,
nio conseguindo ver realisado o seu "de-
sideratum", em vista do accord politico
effectuado, do qual resultou o afastamen-
to do seu candidate, sendo o seu proprio
nome apresentado e eleito para aquella
alta investidura, como element conci-
liador.

Corn o seu ingresso para a represen-
taSgo do Estado na baixa camera do Paiz,
Joaseiro ainda teve prestigio sufficient
para na mesma epoca figurar na alta ad-
ministragko estadual, collocando o Dr.
Juvencio de Santanna a frente da Secre-
taria do Interior e Justiga, nos dois
ultimos annos de governor do desembar-
bargador Moreira da Rocha.

No seguinte period presidential, do
Dr. Jose Carlos de Mattos Peixoto, ain-
da Joaseiro elegeu como seu represen-
tante na Assembl6a Legislativa do Esta-
do, o mesmo Dr. Juvencio de Santanna,
4





50 R- EIS VIDAL

posto em que o veio encontrar a revolu-
gao de outubro de 1930.
Sio estes os principles tragos da vi-
da political do virtuoso e culto Padre Ci-
cero Romio Baptista. E bem se ve que
a sua conduct political sempre foi nor-
teada pela mesma sinceridade da sua fd
apostolica.

















MISSAO DE PAZ .
A CONVERSAO DO BANDITISMO
LAMPEAO "DERROTADO"


















































loaseiro, 1931 Dr. Juvencio de Sant'Anna





I


i/


q 'W .


joaseiro, 1927 0 Pe. CICERO cercado de uma commissio de engenheiros norte-
americanos dos services das obras contra as seccas


T











MISSAO DE PAZ


A CONVERSAO DO BANDITISMO
LAMPEAO "DERROTADO"

A ma fe e as mais das vezes a origem
suspeita de onde promanam as informa-
6es sobre o Joaseiro social, levaram a
imprensa brasileira a espalhar por todos
os quadrantes da nacionalidade os mais
disparatados conceitos a respeito daquel-
la longinqua regiLo, erroneamente tida
por certa parte da populagio como antro
de scelerados de todas as species.
E de tal maneira esta este conceito
radicado no espirito dos outros brasilei-
ros que, nao e sem justificado receio que
o jornalista transpoe os humbraes da po-
pulosa cidade do Cariry, na persuasio de







54 REIS VIDAL

encontrarem seus olhos concretisadas,
nas ruas de Joaseiro, as mais apavorantes
scenas.
Logo ao descer do comboio ferrovia-
rio, ap6s uma enfadonha viagem de vinte
horas, tem-se a impressAo de que a cida-
de, pintada em c6res tdo berrantes, nio
corresponde ao scenario que Ihe empres-
tara nossa imaginacao.
Para onde dirigimos o olhar prescru-
tador, vemos casas modernas, dispostas
symetricamente em arteries movimenta-
das e asseiadas.
A surpresa e immensa.
O "habitat" do patriarcha nio podia
ser um antro de bandidos.
Nem o Padre Cicero era o protector
vulgar de cangaceiros, de que tanto se
ha fallado.
O grande levita era um bom por tem-
peramento e por educacao.
Os seus dominios tem ainda hoje as
portas abertas para quantos, como n6s,







PADRE CICERO 55
no desempenho de uma missio constru-
ctora, nao adulteram a verdade dos fa-
ctos, nem querem fazer, a sua custa, li-
teratura de folhetins de capa e espada.
Dest'arte o grande joaseirense nio
crea obstaculos a quem quer que seja,
maxirin aos estudiosos dos nossos ho-
mens e do complex rendilhado da vida
sertaneja.
Para todos o illustre sacerdote tinha
uma palavra de carinho ou um conselho
para o bem.
Sfo estas qualidades, infelizmente
ate hoje tao mal comprehendidas, que va-
mos resaltar nestas linhas, procurando,
corn o penhor da nossa honra, apagar os
ultimos resquicios daquella mancha ati-
rada a vida public de um dos expoentes
da grandeza moral da nossa terra.
*

Quando em 1911 o vizinho Estado da
Parahyba ameagava conflagrar-se numa
guerra civil, entire o governor do sr. Jodo
Machado e o dr. Augusto Santa Cruz,







REIS VIDAL


juiz de direito de Lag6a do Monteiro, o
ultimo dirigiu um appello ao Padre Ci-
cero, no sentido deste pleitear daquelle
governador a cessagao da luta, para que
o interior voltasse a paz de cuja falta tan-
to se resentia.
0 virtuoso prelado, valendo-se do
prestigio do seu nome, iniciou as "de-
marches" do pacto que viria converter
na mais explendente realidade, dentro de
relativamente curto espago de tempo, a
sua grandiosa obra de pacificagio.
E aquelles espiritos, momentan'ea-
mente separados por uma luta esteril, de
ruinosos effeitos para a future terra que
tZo important papel iria representar na
revolugao de 1930, confraternisaram, gra-
gas a interferencia do Padre Cicero Ro-
mio Baptista !
Sua actuagio ainda se fez sentir no
litigio existente entire as duas numerosas
families Mauricio e Farias, de Salguei-
ros, que de ha muito vinham trazendo em
desassocego aquelles sertbes, theatre de







PADRE CICERO


morticinios e de depredag~es de toda es-
pecie.
Nao foram apenas estas as unicas
vezes em que o bondoso regenerador, na
sua alta missdo de sacerdote catholico,
procurou guiar para o bem os homes
transviados da moral social e devotados
A vida do crime.
Todos ainda conservam, bem vivos
na memorial, os nomes de dois celebres
criminosos que, durante various annos, en-
cheram de pavor e de luto os nossos aban-
donados sertbes, que, de um moment
para outro, desappareceram do scenario
das suas nefastas tropelias, sem que a
policia os pudesse entregar a Justiga.
Foram elles os famosos cangaceiros
Lulu Padre e Sinh8 Pereira.
Munidos de cartas do Padre Cicero
para amigos seus no Estado de Goyaz,
aquelles desviados da lei seguiram para
aquella unidade federativa, onde se en-
contram inteiramente regenerados, dedi-
cados ao trabalho honest, sem causa-


~_






REIS. VIDAL


rem sobresaltos aos seus semelhantes, na
triste pratica de saques e assassinatos.
E neste diapasio poderiamos prose-
guir, historiando cor abundancia de deta-
Ihes o que foi a vida do illustrado minis-
tro catholico, sempre voltada para a pra-
tica de acq5es altruisticas, ate entUo ves-
gamente interpretadas por gratuitos ini-
migos do Joaseiro e da sua laboriosa po-
pulago.
Sobre a estadia, naquella cidade, do
facinora Virgolino da Silva, vulgarmente
conhecido por "Lampeio" o terror das
selvas a imprensa do Paiz fez uma
grande celeuma, na ansia de denegrir a
reputagio e a honra privada do patriar-
cha do Cariry, que apparecia aos olhos
esterrecidos da Nagio, como seu prote-
ctor e por isso mesmo o incentivador do
crime no "hinterland" nordestino.
A respeito dessa passage nio po-
demos deixar de commental-a, formulan-
do, a luz dos factos, irrespondiveis argu-
mentos, e desafiando a contradicta de







PADRE CICERO


quantos queiram acceitar o cartel que
ora atiramos.

Embora nos acoimem de prolixos,
vamos descrevel-a corn abundancia de
pormenores colhidos no local, pormeno-
res esses que nao temos duvida em ca-
talogar entire as informagoes mais pre-
cisas que obtiveramos na nossa nao pe-
quena permanencia alli.
Joaseiro, devido tambem a sua im-
portancia commercial, e uma cidade a que
diariamente chegam varias centenas de
pess8as, entire as quaes, romeiros proce-
dentes de toda parte.

Destes, uns vem receber a bengao do
seu glorioso patrono; outros, os seus sa-
bios conselhos, e muitos aproveitam o en-
sejo para apresentarem queixas contra
constantes incursoes de bandoleiros nas
suas propriedades, bem como contra os
attentados por esses praticados contra a
honra dos lares sertanejos.
Deante daquellas lamurias, o patriar-







60---- REIS VIDAL

cha sentia-se acabrunhado, procurando
pela persuasao encaminhar para o bem
os elements perniciosos a vida honest
e simple do nosso caboclo desprotegido.

Desde entio, o velho sacerdote, prin-
cipiou a ver desenrolar-se deante dos
seus olhos, a semelhanga de um kalei-
doscopio, as scenas de vandalism leva-
das a effeito por novo celerado, cogno-
minado de "Lampeio".
Habituado a resolver esses intrinca-
dos problems da vida nordestina, sem
auxilio dos governor que, diga-se cor
sinceridade sempre foram e conti-
nuam impotentes para extinguir o ban-
ditismo, o terrivel cancro que tanto ter
corroido o organismo national o Padre
Cicero deliberou escrever aos seus com-
padres e amigos coroneis Angelo, resi-
dente na fazenda Gia, no municipio per-
nambucano de Floresta, e Joio Novaes,
do Navio, onde o temivel cangaceiro pra-
ticava as suas "razzias" rocambolescas.
Nessas cartas o Padre pedia aquelles


















































joaseiro, 1927 "Ao Padre Cicero, o grande e bom
amigo da Commissio da Febre Amarella no Ceara,
offerece como prova de gratidjo, admira;io e affect
Lucian Conway Smith". (Insp. Nacional)






























X1 .... I- C A"-, _















Engenharia do Rio de Janeiro, em 9 de abril de 1929






PADRE CICERO


seus amigos para acolherem Virgolino
em suas fazendas e dissuadil-o da vida
de cangago.
Essa iniciativa nAo logrou o exito
esperado, por ter a policia do governa-
dor Sergio Loreto, julgando tratar-se de
uma accintosa proteciio ao perigoso ban-
dido, movido several persegui5io aquelles
fazendeiros, Lampeao, deante de taes
circumstancias, teve de foragir-se.
Evidencia-se, portanto, que antes de
o famigerado bandido ir a important ci-
dade sul-cearense, ja o Padre Cicero pro-
curara desvial-o do crime, como fizera
com outros em epocas anteriores.
Cumpre-nos frisar aqui que ate -
entao Virgulino era conhecido daquel-
le sacerdote, apenas atraves das compun-
gentes lamentac5es de seus queridos ro-
meiros.
*

Incumbido pelo entao president da
Republica, sr. Arthur Bernardes, de
combater os revolucionarios que de retor-






62 REIS VIDAL
no da sua march para o norte, ameaga-
vam invadir- o Ceara, o deputado Floro
Bartholomeu da Costa, logo que chegou
a Joaseiro, tratou de organisar um bata-
lhdo, afim de enfrentar a avangada dos
commandados de Luiz Carlos Prestes e
Miguel Costa.
E como aquelle deputado nao exigia
folha corrida dos elements que se enfi-
leiravam a column legalista, a revelia
do Padre Cicero, o dr. Floro mandou
convidar "Lampedo" para incorporar-se
as hostes legaes cor o seu grupo.
Sabedor da attitude do seu amigo, o
velho sacerdote nao p6de esconder sua
franca desapprovagio ao esquisito convi-
te, o que levou o deputado cearense a des-
pachar um positive para dizer a Lam-
peso que nio mais se fazia necessaria a
sua presenga.
Nio foi possivel, porem, o encontro
do portador alludido cor o turbulento
cangaceiro*.
Dias depois, entrava Virgolino em
Joaseiro, acompanhado do seu sequito
sinistro, nio encontrando, todavia, o dr.






PADRE CICERO


Floro, ,por ter o mesmo seguido para o
Rio de Janeiro afim de tratar de sua sau-
de que se achava bastante abalada, vindo
a fallecer pouco tempo depois.
Nao podia o moment ser mais. azado
para effectuar-se a prison do temivel ce-
lerado.
Assim, entretanto, nio pensava o pa-
dre, visto que "Lampeao" alli viera ter,
attendendo ao convite do dr. Floro e,
portanto, os seus brios de home since-
ro e cavalheiresco nao podiam acceitar a
hypothese da prisio do bandido. 0 dr.
Floro o mandara chamar. E o dr. Floro
era seu amigo.
Ao Padre Cicero apresentava-se uma
nova opportunidade para corrigir aquel-
le home atirado a vida do erro e do cri-
me pela incuria dos governor egoistas, so-
miticos de instrucgio e avaros de justiga.
Foi numa dessas purissimas manhas
sertanejas, cheias de luz intense e cantos
de gallo pelos terreiros varridos.
O grupo de Virgolino veio vindo
atraves das ruas de Joaseiro.






REIS VIDAL


Na sua march, tilintavam os metaes
encravados nos correiames e batiam ry-
thmicamente no chdo as alpercatas.
Vinham calmos, satisfeitos, mas sem
um sorriso.
A populagio despertara cor a noti-
cia e os seguia ate a porta da casa do
Santoo padre".
Era grande a curiosidade.
E quando o Padre Cicero assomou
a janella, banhado pelo sol matinal, to-
dos elles retiraram os chapeos de couro,
em signal de respeito.
A v6z do sacerdote era clara como a
luz do dia: Afinal, voces acharam o
caminho do Joaseiro. E tivessem vindo
ha mais tempo, nio estariam com a poli-
cia nos rastos e com a consciencia enne-
grecida. Voces se esquecerar que eram
filhos de Deus e se entregaram ao servi-
go do demonio. Corn que intengio vie-
ram ?
Houve um vozerio entire a malta san-
guinaria.
Ficar aqui, meu padrinho !
























































Sete dos mais expressivos typos de medalhas cor a
esphirge do Pe. CICERO, em circula5io por (todo o
sertio brasileiro


<

















































Egreja de N. S. das D6res (antiga Matriz do Joaseiro, antes da reform)






PADRE CICERO


Aqui, nfo pode ser. Esta cidade
6 um centro de romaria e de devogao.
Aconselho e evito o mal. Nesta terra, to-
dos trabalham. Voces terio que traba-
lhar noutra parte. Na cadeia de Recife
esta Antonio Silvino, quando poderia es-
tar plantando e creando numa fazenda.
Ninguem pode ter um bor fim, fazendo
o mal. Nosso Senhor Jesus Christo fez
o bem e morreu na Cruz, quanto mais
quem pratica o mal. Procurem uma casa
e se hospedem, ate que eu os recommen-
de para bem long do Joaseiro.
E levantou a dextra.
Todos se ajoelharam.
Em nome do Padre, do Filho e do
Espirito Santo.
A multiddo responded unisona-
mente:
Amen...
*.


Cor a firme resolugio de deixar a
vida do cangago, o celebre criminoso re-
tirou-se de Joaseiro munido de uma car-
5






REIS VIDAL


ta do padre para um seu amigo de lon-
ginquo Estado, na qual era solicitada
uma faixa de terra em que o bandido pu-
desse empregar sua actividade, extrahin-
do do solo, com o suor do seu rosto, o
necessario para si e os seus apaniguados.
Abrindo um parenthesis, devemos
elucidar que, por este tempo, quasi una-
nimemente a imprensa do Paiz, vehicula-
va, atraves de suas columns, as mais ab-
surdas noticias sobre este episodio his-
torico de Joaseiro, ora apontado o bene-
merito patriarcha como um protector de
cangaceiros, ora como incentivador do
latrocinio armado. Muitos desses jornaes
pretenderam atiral-o a execragio publi-
ca, como recebedor de avultadas quan-
tias, oriundas de assaltos praticados nos
sert5es, talados pela orda sinistra.
Ao ser informado dos propositos do
bandoleiro, o Padre Cicero mandou inter-
ceptar-lhe os passes, ordenando-lhe pro-
curasse outro rumo.
Este "ultimatum" o scelerado rece-






PADRE CICERO


beu-o ja proximo de Joaseiro, o que Ihe
causou a maior revolta.
"Lampeao" ficou desorientado cor
aquelle imprevisto.
Do seu cerebro rude e incapaz de
comprehender o alcance do gesto do
Padre, deixara escapar esta terrivel
ameaga:
"Entdo nao querem nem que eu veja
mais o meu Padrinho Cicero ? Pois bem,
eu nunca fui bandido. D'agora em dean-
te e que you ser".
O cangaceiro afastou-se do Ceara,
em march vertiginosa, transformado
numa verdadeira besta apocalyptica.
No primeiro contact de "Lampeao"
cor forga policial, os seus fuzis abate-
ram oito homes, o que veio positivar a
promessa antes formulada.
Virgolino se fizera o mais sanguina-
rio cangaceiro, por nao o terem compre-
hendido.
Desde entio, aos nossos dias, o hon-
rado lar sertanejo, os haveres do nosso






68 REIS VIDAL

matuto, tem servido de past para o gru-
po indesejavel, numa aterradora sequen-
cia de crimes.
Ati agora, nem as lagrimas de mies
extremosas, nem supplicas de noivas in-
defezas, conseguiram abrandar a furia
diabolica do coracio empedernido desse
perigoso bandoleiro, que vem desafiando
o poderio dos nossos governantes, para
vergonha da present geragio !
E assim continia a ronda macabra a
espalhar o luto e a levar o sobresalto aos
sert6es bahiano, sergipano, alagoano, e
pernambucano, d'onde "Lampeio" ainda
nao p6de ser desalojado.
Encerrando este capitulo, queremos
seja conhecido do public e dos jornaes
que sempre tiveram as suas baterias as-
sestadas contra a figure veneranda do
Padre Cicero e dos seus dominios, o se-
guinte detalhe:
Ha mais de oito annos o Ceara nao
v6 o seu territorio invadido pelos asseclas
de Virgolino que, a despeito de alimen-






PADRE CICERO


tar um grande pezar por nio .he ter sido
possivel rever o velho patriarcha, nio o
esqueceu ainda, nem desrespeitara todo
aquelle que tiver em casa ou ostentar na
indumentaria o retrato do Padre Cicero.
E agora mesmo o bandido impoz aos
sertanejos do Nordeste o uso de crepes
pela morte do veneravel padre.
GraSas ao prestigio spiritual do
grande e virtuoso levita, acha-se o Esta-
do do Ceara livre da'ultrajante mancha
da nossa civilisaqdo.
Pica consignado nestas linhas o nos-
so depoimento sobre tudo que vimos e
ouvimos no Joaseiro, cor relaaio ao ban-
ditismo, naquella zona do Nordeste bra-
sileiro.
Acreditamos ter feito luz sufficient
a respeito desse malsinado assumpto, de
que faziam taboa rasa os inimigos do Pa-
dre Cicero, tantas vezes injustamente
atacado, quantas apaixonadamente de-
fendido por leigos na material. Resta-
Ihe, depois da morte, a justiSa dos por-
vindouros.









REIS VIDAL


*

Concluindo este capitulo, queremos
deixar aqui a informaao de que o depu-
tado Floro Bartholomeu, ao fallecer, me-
receu as honras de General do Exercito
Brasileiro, porque commandara o Bata-
lhao Patriotico, referido linhas atras,
formado no Cariry, para combater os re-
voltosos commandados por Prestes e Mi-
guel Costa.
E, ainda, essa outra noticia, triste,
degradante mas verdadeira de que "Lam-
peso", incorporado as hostes legaes, tam-
bem, desempenhou-se a favor do quatrie-
nio Bernardes, cor a patente de Capitio
daquella mesma unidade provisoria do
Exercito Nacional.
Dahi o "legalista" ser conhecido por
"Capitao Virgulino".


















ASSISTENCIA SOCIAL
O ESPIRITO DA VIRTUDE
E DA INSTRUCQAO
O TESTEMUNHO DO SR MORAES
E BARROS










ASSISTENCIA SOCIAL


O ESPIRITO DA VIRTUDE
E DA INSTRUCCAO
O TESTEMUNHO DO SR. MORAES
E BARROS
O patriarcha do Joaseiro nao era
apenas o evangelista respeitado e conhe-
cido de todo o Brasil, nem o politico cujo
prestigio transpoz as fronteiras do Esta-
do, estendendo-se por todo o Paiz.
Entre uma e outra dessas invulgares
qualidades que Ihe ornavam a veneranda
personalidade, collocava-se o philanthro-
po de gestos orientados pelo mais ale-
vantado espirito de fraternidade.
Nesse sentido, a individualidade do
virtuoso sacerdote tinha-se mostrado in-
cansavel, ora soccorrendo families intei-






REIS VIDAL


ras, com viveres, ora fundando institutes
de caridade que eram mantidos as suas
expenses.
Antes do tremendo cataclisma de
1915, ja em Joaseiro existia, como indi-
cio eloquente de que as palavras do mei-
go Nazareno alli tiveram um fiel-inter-
prete do seu verdadeiro sentido de assis-
tencia social, um orphanato em que mais
de uma centena de criangas abandona-
das, recebia o conforto que a nunca des-
mentida munificencia do illustre ministry
da Igreja podia proporcionar.
Naquelle anno em que o sol, seme-
lhante, a um novo Moloch, devorava com
os seus raios candentes toda a fertilida-
de do sertdo cearense, o espirito altamen-
te caridoso do Padre Cicero localisou na
Serra de S. Pedro do Cariry, cerca de mil
families, as quaes eram entregues provi-
s6es e pedagos de solo, de onde pudes-
sem retirar o pio quotidiano.
Nio podemos negar que o Padre re-
cebia de abastados romeiros, esportulas







PADRE CICERO


valiosas, representadas em dinheiro ou
bens de toda natureza.
E o seu testamento nio foi mais do
que a restituigio e o bom emprego de
tudo que Ihe deram: beneficiando ins-
tituig6es pias e escolas e semeiando o
conforto a muitos lares sertanejos que
lhe abengoarao a memorial eternamente.
Quando de nossa ultima visit a po-
pulosa cidade do Cariry, tivemos occa-
siao de presenciar a sahida da casa do
respeitavel ancido, de um seu preposto
devidamente provide do numerario exi-
gido para a manutengio de quasi cem fa-
milias.
Segundo nos informaram, isso se re.
produzia diariamente.
AlIm do orphanato a que ja nos re-
ferimos, existem em Joaseiro um patro-
nato e um hospital, achando-se presente-
mente em construcgdo mais um grande
edificio destinado a outro estabelecimen-
to de caridade.
Aquelles como este, desde seus ali-


~~







REIS VIDAL


cerces foram custeados pelo querido e
humanitario brasileiro.
Do Padre Cicero teve sempre a ins-
truccao o mais desvelado carinho.

Emquanto o benemerito patriarcha
esteve A frente dos destinos da progres-
sista metropole sul-cearense, alli existiam
tres grupos escolares municipaes, alim
'de 82 escolas particulares custeadas pela
sua bolsa, no mais perfeito funcciona-
mento.
Para testemunho da nossa imparcia-
lidade, fomos beber estas insuspeitas in-
formag6es no que sobre Joaseiro e sua
vida escreveu um dos maiores inimigos
do Padre Paulo de Moraes e Barros.

Tal e o vulto daquella obra educati-
va que, tudo quanto se tern dito e nesta
entrevista se encerra sobre a impressio-
nante figure do Padre Cicero, offusca-se
deante dessa magestosa realisagao em
prol da alphabetisaqao do nosso povo.


















NACIONALISA(AO DAS MINAS
E DOS TRANSPORTES
ECONOMIC DIRIGIDA
A VOZ DA EXPERIENCIA










NACIONALISAQAO DAS MINAS

E DOS TRANSPORTES

ECONOMIC DIRIGIDA

A VOZ DA EXPERIENCIA


*
*


Por algumas vezes ja o Padre Cice-
ro externava o seu ponto de vista a res-
peito dos homes e das cousas da nova,
Republica.
E como suas ideas se nos afiguras-
sem dignas de attengio, resolvemos in-
terrogal-o sobre o moment brasileiro.






REIS VIDAL


A primeira pergunta, S. Revma. re-
trucou promptamente:
Causou-me o maior enthusiasm
a noticia da victoria revolucionaria, pois
entire os responsaveis momentaneos pe-
los nossos destinos, encontram-se homes
relativamente capacitados para imprimir
ao Paiz uma nova orientaiio impulsiona-
da por um mechanism financeiro e ad-
ministrativo dignos da finalidade histo-
rica do povo brasileiro.
E o velho e experimentado politico,
corn a autoridade que ninguem Ihe des-
conhecia, proseguiu fallando cor vivaci-
dade sobre a actual administration na-
cional.
Como que recalcando o seu enthu-
siasmo, adeantou-nos S. Revma.:
NMo posso deixar de manifestar a
minha extranheza ao convite feito a sir
Otto Niemeyer, que veio ao Brasil como
um salvador das nossas finangas, e cujo
convite me parecia objectivar a realisagao






























Centenas destas cartas eram escriptas pelos secretarios
do Pe. CICERO e assignadas por elle, diariamente
/7/M ^ ^i^ .a
^^~s c ee. f^^a^


., ""p
^ ^^*^ ^S ^-
^^/A'^^2 ^^3p^
Ce ^f^ Pe ICR lsgadspo ledaiaet



































Joaseiro, 1926 Aspecto diario da aglomeracao de pessoas de outros Estados
em visit ao Pe. CICERO






PADRE CICERO 81

de novos emprestimos contra os quaes
sou um eterno revoltado.
O padre nio nos dava tempo de for-
mular qualquer objecgao.
E immediatamente justificou seu
ponto de vista:
Sendo o Brasil um Paiz essencial-
mente agricola e cor uma populagco jd
bastante densa, aos governor bem orien-
tados e patrioticos, e nao aos empresti-
mos onerosos, e que compete sua salva-
gao, dentro deste ou daquelle regimen.
Suas palavras continuam escacho-
antes:
Tenhamos em vista a variedade
dos nossos products entire os quaes se
destacam a borracha, o cacAu, o algodao,
o babassfi, o cafe, o fumo, o trigo, o ar-
roz, o matte, o assucar, o milho, etc., que,
embora mal cuidados, seriam sufficientes
para garantir o lastro de nossa vida eco-
nomica.
E como poderiamos executar tao
elevado piano economic ?






REIS VIDAL


Entendo que o governor deveria
fazer-se comprador natural, por prepos
compensadores, da riqueza do nosso solo,
e transportando-a de conta propria, em
navios da marinha mercante national, di-
rectamente para as pragas estrangeiras
consumidoras, onde trocaria os nossos
products por moeda ouro, servindo o
saldo dessa transagio para o pagamento
de juros e amortisagio de nossa divida,
ate o seu total resgate.
E sem quebrar o fio do seu pensa-
mento, S. Revma. proseguiu:
Parallelamente a isto, penso que
as nossas minas deveriam ser apropria-
das pelo governor, o qual organisaria syn-
dicatos nacionalisados para a sua com-
pensadora exploragio, de maneira que os
nossos direitos em geral, e particularmen-
te a este respeito, nao viessem a ser ce-
didos a estrangeiros.
Quer rios dizer V. Revma. que
as concessbes sio prejudiciaes, mesmo
quando controladas pelo governo?...










PADRE CICERO


Meu amigo, este velho que aqui
Ihe fala, e visceralmente contrario a con-
cess5es de qualquer especie, notadamen-
te as territoriaes, a filhos de outras na-
96es, embora cor estas mantenhamos as
mais amistosas relag6es diplomaticas.
A minha idade e consequente ex-
periencia das cousas, nio vem cor bons
olhos este voluntario captiveiro as arcas
dos argentarios americanos e inglezes,
escravidio essa que para mim e um crime
de lesa-patria, alem de concorrer de modo
tao evidence para apagar a nossa apre-
goada personalidade de nagio indepen-
dente.
Inda hoje, cor saudade, nos recor-
damos do tom amavel daquellas sabias
palavras.








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Documento que prova a autoridade do auctor deste livro, para escrever sobre
a vida e a obra do Pe. CICERO











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joaseiro, 13 de Novembro de 1931 O Pe. CICERO e o jornalista
REIS VIDAL


















A IDeA LEGAL
EMPRESTIMOS E CONCESS6ES
HOME FORTE REGIMEN FORTE
CONTINUIDADE ADMINISTRA-
TIVA











A IDRA LEGAL


EMPRESTIMOS E CONCESSOES
HOME FORTE REGIMEN FORTE
CONTINUIDADE ADMINISTRA-
TIVA
Muitas sdo as opinioes conhecidas a
respeito do retorno do Paiz a sua vida
legal.
N.o podia, portanto, deixar de ser
interessante, auscultar-se o prestigioso
Padre Cicero sobre tio momentoso quan-
to debatido assumpto.
O pensamento do saudoso home
public vamos transmittil-o aos nossos
leitores conforme se vai ler:
Nao posso deixar de ter um justi-
ficado receio de que a vinda premature







88 REIS VIDAL

da Constituinte faSa o nosso Paiz envere-
dar pelos tortuosos caminhos por que vi-
nha seguindo no regimen que passou.
Por isso, acho que o Brasil deve con-
tinuar sob a acgio ditatorial, emquanto
pudermos ter A frente do governor um ho-
mem forte e capaz de encarnar as nossas
aspiragSes, ate que se consiga operar uma
sensivel modifica$go na mentalidade po-
litica dos nossos contemporaneos, por
meio de bem disseminada e immediate
instrucgao do nosso povo.
A digressio girava em redor de um
dos seus assumptos predilectos em que
deixava filtrar-se atraves as scintillagSes
de sua grande intelligencia, todo o seu
sadio patriotism.
Um HOMEM, cor letras mai-
usculas, podera dentro de dez annos res-
taurar o Brasil, political e financeiramen-
te, libertando-o do jugo estrangeiro, mor-
mente no regimen que atravessamos, em
que o governor age discrecionariamente,
isto e, sem peias, nem conveniencias.







PADRE CICERO


E se f6r inevitavel a constituinte
dentro do mais breve espago de tempo,
que se devera fazer ?
Em qualquer epoca em que o
Brasil retorne a legalidade, faz-se mister
a terminante prohibigdo no nosso estatu-
to politico, das pre-falladas concess6es ou
outros quaesquer favors a estrangeiros
bem como dos condenaveis emprestimos,
causa principal da precaria situaSgo em
que nos encontramos.
0 padre estende-se em outras ponde-
radas considerag~es, entire as quaes des-
tacamos as seguintes:
Como complement de imprecin-
diveis reforms, desefo tambem a criago
de um tribunal independent e vitalicio,
eleito pelo congress constituido, tribu-
nal que seria uma sentinella avangada e
que teria por attribuigSes velar pelos in-
teresses brasileiros, garantindo a exe-
cu~go dos programmas governamentaes,
accumulando igualmente as funcqSes de
orgio technico e consultivo, fonte de







REIS VIDAL


onde promanariam as directrizes geraes
dos projects e deliberag6es do poder
constituido.
E o virtuoso sacerdote finalisa a sua
explanagdo apontando como uma das
principles finalidades daquella c6rte, a
obrigatoria continuidade de qualquer pia-
no trapado:
Esse mesmo tribunal teria, final-
mente, poderes para combater os collap-
sos administrativos, evitando assim, as
innovagoes que de governor a governor se
verificam, cor evidence prejuizo para a
Nago e consequentemente entrave ao
seu progress.
Uma vez que 6 improrogavel a con-
stituinte, neste delicado moment da vida
national, dizia o Padre eu muito gos-
taria se fosse escolhida uma commissao
de comprovada idoneidade, que teria o
encargo de elaborar o project da nova
carta political, o qual seria approvado
depois de amplamente discutido pelo
povo brasileiro.
Na opinion de V. Revma. quaes


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PADRE CICERO


seriam as pess6as aptas a former essa
commissao ?
Seriam: o cardeal brasileiro,
dois ministros do Supremo Tribunal Fe-
deral, dois dos mais notaveis causidicos,
indicados pelo Instituto da Ordem dos
Advogados do Rio de Janeiro, um gene-
ral de terra e um general de mar, dois dos
mais eminentes jornalistas, interpretes
da imprensa do Paiz, dois vultos de des-
taque das industries e do commercio e
um representante do nosso proletariado,
perfazendo um total de dez membros.
Ja iamos long cor a entrevista, e a
nossa palestra devorava o tempo.
O illustrado chefe do Joaseiro mos-
trava-se disposto a conversar ainda.
Resolvemos, porem, abordal-o sobre
um dos palpitantes assumptos ligados a
Constituinte, que e a lei eleitoral.


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loaseiro, 1931 Sentados: REIS VIDAL, Jambeiro Filho, Pe. CICERO e j. Laffayete.
De pB Ernestina Ramirez, Miles. Lafayette e Jambeiro e Dra. Josephina Peixoto


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Joaseiro, 1917 Representantes do cl6ro nordestino, em visit ao Joaseiro.
Esta a esquerda do Pe. CICERO, D. Quintino, Bispo do Crato


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