Dom Joaquim José Vieira

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Material Information

Title:
Dom Joaquim José Vieira segundo bispo do Ceará : aspectos de sua vida
Physical Description:
97 p., 4 leaves of plates : ports. ; 18 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Quinderé, José
Publisher:
Instituto do Ceará
Place of Publication:
Ceará
Publication Date:

Subjects

Genre:
non-fiction   ( marcgt )
individual biography   ( marcgt )

Notes

General Note:
"Separata da Revista do Instituto do Ceará, de 1947"--colophon.
Statement of Responsibility:
José Quinderé.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 434042561
Classification:
lcc - BX4705 .V54 1948
System ID:
AA00000240:00001

Full Text



SMons, JOSE' QUINDERE'










DM JO OAQUIM JOSE VIEIRlA



I.I


*'' *4^


Editor INSTlI'"TIT DO CEARA. Lirfl d.-.i
1 S948


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NIHIL OBSTAT

FORTALEZA, 3 DE NOVEM1RO DE 1948

PE. JONAS BARROS














Doin JOAQUIM JOSE VIEIRA






MONS. JOSE QUINDER


DOM JOAQUIM JOSE VIEIRA

SEGUNDO BISPO DO CEARA


ASPECTS


DA SUA VIDA


Editora INSTITUTE DO CEARA, Llmltada
1948

























Pode imprimir-se

CURIA METROPOLITAN DE FORTALEZA

5 DE NOVEMBRO DE 1948.

Pe. EXPEDITO EDUARDO DE OLIVEIRA,
PRO VIG. GERAL











INTRODU AO


A entrevista que concedi ao jornalista Hugo Vi-
tor, a respeito de Dom Joaquim, para ser publicada
em "0 Povo", didrio que circula em Fortaleza, dada
de surpresa, sem nenhuma preparato privia e, por
isto, cheia de falhas e imperfeig6es, como tudo o que se
faz as pressas, despertou em mim o prop6sito de dar
aos leitores um trabalho mais ou menos perfeito, de
maneira a criar-lhes no espirito uma just ideia da
personalidade do grande prelado que foi Dom Joaquim
Jose Vieira, segundo bispo desta diocese.
Este insigne vardo nasceu na cidade de Itapeti-
ninga, aos 17 de Janeiro do ano de 1836, tendo fale-
cido em Campinas, a 8 de Julho de 1917, depois de ha-
ver dirigido, por quake seis lustros, os destinos espiri-
tuais do entio bispado do Ceard. Dom Joaquim ndo
era natural de Campinas, como se pensava: foi vigd-
rio desta par6quia e, depois que dela se afastou, por
.injung5es political, fixou ali a sua residencia para
se dedicar a construCdo da Santa Casa de. Miseric6r-
dia, que a sua caridade idealizou, obra concretizada
num grande hospital cujas proporc6es e linhas arqui-
tect6nicas ainda hoje lhe ddo desttcado lugar entire os
melhores do Estado de Sdo Paulo.







Apesar de decorridos trinta e quatro anos que
Dom Joaquim deixou o Ceard, terra que tanto amou,
e, jd desaparecido pela morte, seu nome aureoladd
permanece inesquecivel na lembranga do rebanho que
apascentou. Mas isto nao basta: as essencias raras
tambem guardam por muito. tempo, nas paredes dos
vasos que as 4ontiveram, aquele seu odor antigo, e
trescalante, mas, por fim, este perde o vigor e desa-
parece.
Dom Joaquim tinha direito a homenagens espe-
ciais e concretas, que fossem uma especie de fonte
onde todos pudessem beber as li6ges de fe e de ci-
vismo que nos legou.
Alem dessas magnificas lig5es, Dom Joaquim se-
meou a terra cearense de beneficios reais de toda a
ordem e a edificou cor os exemplos das suas excel-
sas virtudes e com o esplendor dos seus atributos
pessoais.
Pondo de lado os seus inestimdveis servigos ao
Ceard, s6 a sua missdo episcopal bastaria para a glo-
rifica~go de sua mem6ria: Dom Joaquim foi um au-
t&ntico ap6stolo corn todos os carismas e as suas
caracteristicas inconfundiveis. 0 que havia de ser, no
future, o humilde Pe. Vieira, todos os seus contem-
poraneos o adivinharam: a construgao do hospital de
Campinas, por sua iniciativa, foi, a um tempo, a da
pr6pria estdtua que, sem o pensar, modeldra, pois, ali
se lhe firmaram os cr6ditos de home de agao e de
governor.












f 4


* -.


Ecce sacerdos magnus qui in diebus suis placuit Deo
Este 6 o grande sacerdote que, nos dias do seu apostolado,
agradou a Deus.
Eccli 44-16








INCIDENT COM 0 IMPERADOR


Foi nesse hospital, em construcgo, que se deu o famo-
so encontro do padre Vieirinha, como Ihe chamavam, cor
D. Pedro II. 0 Imperador notou a aiu'sncia do impulsiona-
dor daquela obra magnifica e rara, naquele tempo. Nao
faltou quem se apressasse em ir avisar ao padre Vieira a
estranheza do Monarca.
O humilde sacerdote, ja na presence do chefe da Na-
cgo, declarou que, de prop6sito, fugira As homenagens que
]he eram prestadas, porque a ele, padre cat6lico, repugna-
va apertar a mdo de quem assinara decretos de prisao con-
tra dois bispos brasileiros D. Frei Vital Maria Gongal-
ves e D. Ant6nio de Macedo Costa, respectivamente bispos
de Olinda e de Bel6m do Para. Estes dois intr6pidos con-
fessores da f6 foam envolvidos num iniquo process civil e,
depois, condenados a quatro anos de prisao com trabalhos
forgados, *elo suposto crime de haverem expurgado das
irmandades religiosas das suas dioceses os magons que dela
faziam parte. Essa pena foi comutada em prisao simples.
Recolhidos As fortalezas de Sgo Jogo e Santa Cruz, ali per-
maneceram apenas dois anos, pois a 17 de Setembro de
1875 foram amnistiados, na vigencia do Gabinete a que pre-
sidiu o egr6gio Duque de Caxias.
No ImpBrio, a Igreja era unida ao Estado, e este, por
direito de padroado, podia interferir nos neg6cios ecfesiis-
ticos. Este acontecimento, que constituiu nma n6doa inde-
level na tinica da Monarquia, tomou o nome de "Questio







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MONS. JOSE QUINDERi


Religiosa", facto in6dito na hist6ria, que agitou a alma ca-
t6lica e a consciencia de todo o pais.
No incident entire o padre Vieira e D. Pedro, houve
uma coisa notivel: o Imperador nao perdeu a serenidade.
Voltando A Corte, conferiu ao sacerdote em quem viu en-
carnadas a coragem e a dignidade, virtudes que forjam
os her6is e os martires, o titulo de Conselheiro da Coroa,
honra que s6 era concedida aos bispos diocesanos, e, vaga
a diocese do Ceara, pela ascensdo de D. Luis A sede pri-
rrmacial da Baia, indicou A Santa S6, para preenchimento da
mesma, o nome daquele sacerdote, no qual descobriu, num
i pido lance de vista, todas as qualidades para a elevada in-
vestidura de pastor de almas. E nao se iludiu o magng-
nimo Imperador: D. Joaquim foi um bispo a altura da
dignidade de que se investira e do prestigio do episcopado
de sua 6poca.
E' de notar-se e de justiga proclamar-se, para honra da
sua imorredoura mem6ria, que o Imperador nunca errou
na escolha dos nomes que indicava a Santa Se para a pleni-
tude sacerdotal, tendo, por isto, dado ao Brasil'um episco-
pado dos mais notiveis do mundo cristgo. Sabe-se ainda,
por tradicgo, que, nos primeiros anos da Repfiblica, sacer-
dotes que ocuparam, cor brilho invulgar, as mais impor-
tantes sedes epiacopais do pais, na Monarquia nunca seriam
indicados para o elevado posto, nao porque Ihes faltassem
mxritos, mas pelo rigor de seleccio cor que o Imperador
agia na escolha dos bispos.
E, a prop6sito da prudent intransigencia do Impera-
dor, nesse particular, conta-se um epis6dio interessante, que
revela nitidamente a sua preocupacgo em colocar a escolha







DOM JOSe JOAQUIM VIEIRA


dos bispos acima das suas afeig~es pessoais. Certa
tarde, para uma carruagem no portgo do jardim do pago
imperial. A Princesa, que por ali passeava, apressa-se no
empenho de abrir a portinhola do carro. Ao reconhecer,
por6m; no passageiro a pessoa do Intermincio Apost6lico,
embaixador do Vaticano, recua, balbuciando: pensei que
fosse o monsenhor...
Quem iperecia tao singular defer8ncia da future impe-
ratriz do Brasil era, al6m de capelao da Corte, Vigirio
Geral do Rio de Janeiro e director do Col6gio Pedro II.
E, no entanto, apesar de titulos tao recomendiveis, s6 foi
bispo no regime republican, e o foi com tal esplendor pelo
saber, virtudes e notiveis qualidades de home de governor
e de sociedade, que dele se afirmava: "parece que a auto-
ridade foi feita para encarnar-se na sua pessoa".



NA PLENITUDE DO SACERD6CIO

Esbocando, em tragos ligeiros, a figure inconfundivel
de Dom Joaquim, nio intent escrever-lhe a biografia.
Tomo' para mim e aplico ao caso o que li algures: para se
falar de um grande home, ou basta um s6 pensamento, ou
nio bastam alentados discursos. Nem ouso resumir num s6
pensamento, nem se ajusta nas estreitezas das piginas de
uma monografia a vida desse eminente eclesiastico, gl6ria
aut8ntica do clero brasileiro.
O empenho que me conduz neste trabalho 6 o de fixar
alguns instantineos da vida do preclaro Antistite, apanha-


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dos no period iureo de sua actuacgo como palinuro dos
destinos espirituais da nossa terra, factos que falam da
sua energia, da sua magnanimidade e da delicadeza dos
seus sentiments.
O nome do entgo padre Vieira foi apresentado A Santa
S6, para bispo do Ceari, pelo decreto imperial de 3 de
Fevereiro de 1883 e, preconizado pelo imortal Pontifice
Lego XIII, foi sagrado a 9 de Dezembro do, mesmo ano.
A cerim6nia da sua sagrago realizou-se na matriz de Cam-
pinas, send oficiante o bispo de Sgo Paulo, Dom Lino
Adeodato Rodrigues de Carvalho, cearense, natural da ci-
dade de Russas, que teve por auxiliares os reverendissimos
padres doutores Francisco de Paula Rodrigues.e Jogo Ja-
cinto Gon.alves Andrade. Estiveram presents A soleni-
dade, como paraninfos, o Bargo de Guaraja, president da
Provincia, e o Conselheiro Rodrigues finior, Ministro da
Guerra, uma gloriosa tradicgo dos homes de valor do
Ceara.

POSSE E ADMINISTRAgAO

Dom Joaquim tomou posse da diocese a 29 de Novem.
bro, antes mesmo de sagrar-se, por intermedio do Governa-
dor do Bispado, Monsenhor Hip6lito Gomes Brasil, mas
as fung6es do cargo ele assumiu, realmente, a 24 de Feve-
reiro do ano seguinte, no mesmo dia em que aportou as
plagas cearenses.
Dom Joaquim foi um perfeito continuador da obra ma-
ravilhosa do primeiro bispo, D. Luis Ant6nioos Santos,


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MoNS. JOSA QUINDERe









que desbravou o caminho e preparou o campo para o culti-
vo da vinha do Senhor.
Tudo assim preparado, o nooo Semeador saiu a se-/"6"
mear. E foram tao longas as suas viagens pelo interior da
vasta diocese que se contam por centenas as 16guas venci-
das e tao penosas A sua pessoa afeita a clima frio que, As
vezes, por nao suportar o inc6modo que Ihe causava a mon-
taria, palmilhou o arisco das nossas estradas, sob os raios
de um sol inclemente.


SINODO DIOCESANO

Depois de conhecer todos os recantos mais recuados
da diocese e sentir de perto as necessidades do rebanho,
que fora confiado A sua solicitude, resolve elaborar um
c6digo de leis eclesiAsticas que servisse de norma A sua
administracgo, ao exercicio do paroquiato e aos demais mis-
teres da vida sacerdotal, pois as Constituig6es do Arcebispado
da Baia, por que se regiam as dioceses do Norte, estavam
obsoletas em grande parte dos seus artigos.
Cor essa finalidade, convocou o clero para um Sino-
do diocesano, o que se verificou a 31 de Janeiro de 1888.
Tres dias durou essa memorAvel assembleia, tendo S. Excia.
a satisfacio de sancionar e promulgar as Disposig6es Sino-
dais do Ceara, um perfeito c6digo de leis eclesiAsticas, pela
sua organizagao, dentro dos mais rigidos principios can6-
nicos e tao ajustado aos mesmos que mereceu os maiores
elogios de todo o episcopado e da Cdria Romana, tamb6m.
Aqui 6 oportuno referir o grau de cultural de Dom Joa-


'DoM JOSE JOAQUIM VIEIRA


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quim. Talvez nao fosse ele uri luminar; era, por6m, dotado
de rara inteligencia aplicada a coisas priticas, reais, objec-
tivas, aliada a um admirivel bom senso.
Era um estudioso. JA provecto em idade, quando tive
a ventura de gozar de sua intimidade, muitas vezes o sur-
preendi As voltas com quest6es de portugu8s, compulsando
os tratados de Candido.de Figueiredo, de quem era grande
apreciador. As suas luminosas pastorals, escritas em puro
vernAculo, nas quais versava assuntos diversos de doutrina
e de discipline eclesiistica, revelam-lhe a grande sabedoria,
o tacto de um consumado mestre na exposigio das suas
ideas.

QUESTAO DO JUAZEIRO

Foi na famosa questgo de Juazeiro que mais avultou
a pessoa veneranda de Dom Joaquim, em sabedoria, forta-
leza de animo e inquebrantAvel energia. Naquela cidade,
entgo pequenino lugarejo plantado na zona do Cariri, uma
pobre moga, mui devotada aos exercicios espirituais, mas
certamente presa de qualquer psicose, toda ,vez que comun-
gava, logo apreseritava a sagrada h6stia transformada em
sangue. O padre Cicero, capelho na localidade, um vargo
probo e culto, mas profundamente mistico, logo acreditou
que aquilo seria o sangue de Jesus Cristo. Espalhada a
noticia do estranho fen6meno que ali se verificava, nao hou-
ve mais forga humana que contivesse a multidao que de
toda a parte demandava aquele povoado, Avida de ver o
suposto milagre que se operava, diAriamente, A vista dos


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MONS. JOSe QUINDERA








DOM JOSE JOAQUIM VIEIRA


circunstantes. O facto ia tomando proporg6es imprevisiveis:
os fnimos estavam perplexos. Nao se Ihe podiam medir
as consequ8ncias, pois todos os enviados especiais do vigi-
lante Pastor, sacerdotes cultos e respeitiveis, clinics ilus-
tres e conceituados, depois de observag6es a que se entre-
gavam, concluiram por admitir sobrenaturais os fen6menos
que Ihes caiam sob os olhos.
Dom Joaquim nao podia assistir, sem sofrer amarga-
mente, a cegueira com que tantas almas se obstinavam em
crer, como milagre, numa coisa que nio passava de gros-
seiro embuste. E o pior era que o mal se propagava entire
os fi6is, com a violencia de um incendio, enquanto ali, e
em outros pontos da diocese, novas beatas iam surgindo,
tocadas do mesmo falso misticismo.
A attitude da comissdo especial enviada ao teatro dos
acontecimentos, para verificar os factos e dar ao Prelado
o testemunho da verdade, concorreu, em parte, para aumen-
tar a confusgo dos espiritos, pois, ao inv6s do que era de
esperar, tornou-se conivente com o erro e a ardorosa adepta
da mistificacgo. E alguns sacerdotes que dela faziam parte,
admoestados, revoltam-se e, num pasmoso movimento de re-
beldia, levam a questio A imprensa, discutem-na com con-
tumicia, A maneira de toda heresia, e terminam por co-
brir de insultos a pessoa por todos os titulos respeitivel e
intangivel de Dom Joaquim, que a outro intuito nao visava
senao o de defender o dep6sito sagrado da f6, de que todo -
bispo 6 guard, por dever de oficio, como successor dos
ap6stolos.
Nao se pode medir o grau de afligo que torturous a
alma sensivel do magnanimo Pastor, ao encontrar-se na


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MONs. JOSE QUINDERE


dificil situacgo de, para manter inviolavel o principio de
autoridade, ser obrigado a privar das prerrogativas ecle-
siasticas padres at6 entgo dignos de toda a estima, respeito
e consideracgo pelo saber e proclamadas virtudes que tan-
to os distinguiam.
Convidados, ainda uma vez, a praticar qualquer acto de
submissgo que traduzisse um desagravo pelo escAndalo dado
c uma renfincia aos erros do passado, negam-se a faz6-lo
corn um desembarago de causar espanto!
Nessa altura, o Prelado, colocando o dever de consci-
8ncia acima do coragco, aplica-lhes as penas can6nicas.
E'-lhes proibido o exercicio pleno das fung6es sacerdotais.
Dom Joaquim teve a alma alanceada, na luta em que
se empenhou, para fazer voltar ao aprisco ovelhas que se dis-
persaram, at6nitas, sem destino e sem pastor. Sofrendo, mas
de p6, indomivel na convicggo da sua f6, haurida da s5 dou-
trina teol6gica, que nao admit embustes, profliga o erro,
desmascara a farsa. E, suportando, embora, injirias e in-
justigas, que Ihe feriram cruelmente a sensibilidade, por
partirem de pessoas que Ihe deviam obediencia e gozavam
da sua particular estima, repete a mesma siplica do divino
Mirtir do CalvArio: "Perdoai-lhes, Pai..."

Na sua memoravel carta pastoral, publicada aos 25
de Julho de 1894, aqui transcrita, ad perpetuam rei memo-
riam, em que da conhecimento ao clero e aos fi6is da deci-
sgo da Santa S6, profligando e condenando os abuses prati-
cados no Juazeiro, contra a f6, revelam-se a prud6ncia, a
sabedoria e a fortaleza de Animo com que o eminente Pre-
lado se conduziu na momentosa questgo.


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DoM JOAQUIM JOSE VIEIRA


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Dom JOAQUIM JOSE VIEIRA

Por Merc: de Deus e da Santa S6 Apostolica, Bispo da Fortaleza

Ao Revd. Clero e Fieis d'esta Diocese da Fortaleza, safde, paz e
benqo em Jesus Christo Nosso Adoravel Salvador


Veneraveis Irmdos e Amados Diocesanos.

Pouco mais de tres annos ha que umas certas novidades, revesti-
das de circunstancias particulares, causaram immensa e profunda sen-
saqAo no animo do public d'esta e das outras Dioceses do Brazil, e
mesmo de algumas de al6m mar.
Foi que na Capella -do Joazeiro, povoado pertecente a fregue-
zia do Crato, d'esta Diocese, deram-se cor Maiia de Aralijo, moca
reconhecidamente doentia, alguns factos, que foram classificados na
ordem sobrenatural por dous .medicos que firmaram do'cumentos
publicos asseverativos de tal proposiCo.
A estes attestados seguiram-se mais alguns no mesmo sentido,
assignados por outras pess6as honradas, mas nao profissionais em
sciencia medical.
Collecionados estes documents em folhetos intitulados Mi-
lagres do Joazeiro foram largamente atirados aos quatro ventos
da publicidade, sem audiencia e auctorisacgo Nossa!
Ergueu-se alterosa a onda da curiosidade e da extrema facilida-
de em acceitar o maravilhoso, sem as devidas cautelas tdo sabiamente
assignaladas pela Santa Egreja.
Ao mesmo tempo, os principles fautores das chamadas maravi-
Ihas comeqaram a introduzir innovaq6es no dogma, no ensino theolo-
gico e na lithurgia catholica!
Como Pastor e Guarda da f6 n'esta Diocese, nao cruzAmos os
braqos, lembrando-Nos sempre do texto Escriptural, que diz: Atten-
dei por v6s e por todo o relanho, sobre que o Espirito Santo vos cons-








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MONS. JOSE QUINDERR


tituiu bispos, para governardes a Egreja de Deus, que elle adquiriu
pelo seu Sangue.. (1)
VigiAmos dia e noite: sustentimos longas e fatigantes conferen-
cias particulares para nao deixar se desgarrassem do redil da Egreja
queridas ovelhas, que Nos oppunham cor tenacidade as qualidades
intellectuaes e moraes dos ardentes propugnadores das taes novidades.
Por considerarmos grandemente injuriosa A Divina Eucharistia,
condemnamos desde logo a proposiqio que affirmavam os innovado-
res, dizendo que o sangue (corruptivel e corrupt) algumas vezes
apparecido nas Sagradas Particulas recebidas por Maria de Araujo
- era o Sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. Custou-Nos isto uma
temerosa tempestade de improperios, invectivas e calunias, levan-
tada em nome da piedade, em nome do Preciosissimo Sangue do Di-
vino Salvador!!!
Nao nos incommodavam esses dizeres apaixonados, pelo que toca
6 Nossa pessoa particular; pois temos sempre de promptidao no es-
pirito a lembranqa d'aquellas memoraveis palavras do Divino Mestre,
quando pregado na Cruz: Pater, dimitte illis: non enim sciunt quid
faciunt. (2)
Criamos, demais d'isto, que nio era o fim de quem usava de tao
reprovados meios offender-Nos pessoalmente, senao o de infirmar
a forqa moral do principio de Autoridade Episcopal, em proveito
dos defensores dos novos mysteries. Era isto que nos affligia sobre-
modo, pelas funestas consequencias que se podiam original de tal
desatino.
Tendo seltpre como pharol as sabias leis da Santa Egreja, man-
dAmos instruir process sobre os taes factos apregoados como mira-
culosos por pessoas qualificadas.
Finalmente, depois de maduro exame, vos endereqimos uma Carta
Pastoral, premunindo-vos contra os vicios oppostos a nossa santissi-
ma e divina ReligiLo.


(1) Act., 20, 28.
(2) Luc., 23, 34.








DoM JOAQUIM JOSe VIEIRA


N'esse document official e solemne, depois de havermos-expos-
to com clareza a doutrina catholica sobre o augusto e ineffavel nys-
terio da Divina Eucharistia, analysamos os factos succedidos no Jo.-
zeiro com Maria de Araujo, concluindo por declarAl-os puramente
naturaes apenas acompanhados de algumas circunstancias artificiaes,
que Ihes davam apparencias de extraordinarios.
Como corollario natural, declarAmos ser grosseiramente supers-
ticioso todo acto religioso, que de qualquer modo se referisse aos pre-
tensos milagres.
Expuzemos outrosim a doutrina canonica respective ao procedi-
mento que devem ter o Clero e os fieis, na hypothese de qualquer
facto extraordinario que pareqa interessar ao sobrenatural, etc., ter-
minando finalmente por submettermos a Santa S6 Apostolica toda a
cloutrina que haviamos ensinado.
Em Maio de 1893, achando-se n'esta Capital, de passage para
Pernambuco, o Exmo. e Rvmo. Senr. D. Jeronymo Thom6 da Silva.
entio ilustrado Bispo do Para, e hoje Arcebispo da Bahia e Chefe da
Provincia Ecclesiastica do Norte do Brasil, pedimos-lhe Nos dispen-
sasse a especial benevolencia de levar comsigo e. encaminhar para a
Santa S6 Apostolica o process do Joazeiro, que Ihe entregimos em
seu original, tal qtoal Nos foi apresentado pela Commissio que o ins-
truiu, accrescentado apenas de mais alguns poucos documents, e
acompanhado da Nossa precitada Carta Pastoral de 25 de Marqo de
1893, que ja entao constituia parte important do mesmo process,
por center o seu julgamento.
Q Exmo. e Rvmo. Senr. D. Jeronymo bondosamente acceitou a
incumbencia, e no dia 21 do mesmo mez fez seguir para Roma aquelle
instrument, cor destiny ao Eminentissimo Cardeal Monaco, sapien-
tissimo Prefeito da S. Congregagio do Santo Officio. O process
chegou ao seudestino em Junho seguinte.
Tinhamos cumprido o Nosso dever; aguardavamos calmo e se-
reno as decisoes da Santa S6, quaesquer que fossem, protestando
profundo acatamento, inteira obediencia e plena adhesao ao Supremo
Chefe da Egreja, de quem somos, pela graqa de Deus, amante filho.
Nossa voz foi ouvida cor filial attenqao; Nossos ensinamentos


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foram em geral acatados exterior e interiormente pelo Nosso virtuo-
so Clero e pelos Nossos Diocesanos, que melhor comprehendem a
Santa Religiao que professamos.
Dissiparam-se as duvidas que atormentavam algumas conscien-
cias timoratas; e todos em geral prestaram homenagem de obediencia-
A legitima Auctoridade posta pelo Espirito Santo, para reger e go-
vernar esta heroica Diocese.
Nem outro podia ser o procedimento dos Nossos Diocesanos, pois
os catholicos esclarecidos sabem que um Bispo, sobre ter especial
graqa para dirigir a porqao da Pamilia Christi que Ihe 6 divinamente
confiada, 6 o centro para onde se convergem todos os raios da Dio-
cese: vi tudo que interessa a Santa Religiio, reune os factos corn suas
circunstancias, estuda-os com calma e attengAo; e, si-algum caso 6 de
dificil soluqSo, pede conselhos aos competentes, faz todas as diligen-
cias que Ihe dicta a prudencia e pede inspiraqgo a Deus, antes de pro-
nunciar-se definitivamente sobre qualquer assumpto, maxime quando
este diz respeito A doutrina, aos principios fundamentaes da f6 catho-
lica.
Infelizmente nio foi complete a Nossa satisfaqio: houve vozes
dissonantes do c6ro geral; nto se restabeleceu a paz e a caridade em
todos os coraqSes; temos sido desobedecido por gunss Sacerdotes,
que deviam ser os primeiros em dar exemplo de acatamento ao seu
Bispo! Oh! quanto Nos pesa rememorar desvios, que desejiramos
sepultar em eterno olvido!
Mas, 6-Nos de imprescindivel necessidade narrar alguns factos
e declinar alguns nomes, para que nao se continfle no abuso da b6a
f6 e simplicidade do pobre povo.
O Revd. Padre Cicero RomAo Baptista, outr'ora filho obediente
da Egreja, mas hoje infelizmente extraviado d'ella, alguns Sacerdo-
tes piedqsos, porem mal avisados, e alguns sectarios das innovadoras
doutrinas, em vez de acceitarem, como Ihes era dever, a decisao e os
avisos de seu Diocesano, tem continuado, cor escandalosa contuma-
cia, a inculcar a crenga nos pretensos milagres e em novos mysterious
contraribs ao ensino da Santa Madre Egreja; dando dest'arte azo a
torpes especulaq6es.


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MONS. JOSI QUINDERI








DoM JOAQUIM JOSE VIEIRA


Sim, algumas pessoas, pouco escrupulosas e demasiadamente
amigas da mammona, exploraram a exaltacio dos animos, procuran-
do attrahir curiosos ao Joazeiro. Os depositarios das esmolas dadas
ao Padre Cicero, negociavam corn o dinheiro, e faziam o papel de
arautos das taes maravilhas; e, para mais animarem o commercio,
canonisaram em vida o Padre Cicero e Maria de Araujo, e estes
(cremos que em b6a fe) se prestaram a photografar-se, e os respecti-
vos retratos eram bem reputados pelos romeiros que desejavam con-
servar as effigies dos novos santos descobridores dos novos mysteries.
Mandaram-se fundir na Europa muitos milheiros de medalhas, ten-
do em uma face, no meio, uma figure semelhando de religioso corn
as palavras Padre Cicero na cercadura, e no reverse uma fi-
gura de mulher tambem vestida de habito religioso, cor uma aureola
na cabera, (o que nem As imagens dos beatificados 6 permitido pela
Egreja,) corn a seguinte inscripqgo na orla Maria de Araujo! E
o Revd. Padre Cicero nunca teve uma palavra de santa indigna-
q~o contra este ultraje atirado A face da purissima Religiao de que 6
ministry!
Foi-Nos necessirio tomar providencias em ordem A impedir tao
grosseira superstiqao e A evitar que fosse defraudado o povo despre-
venido; o que rto obstante, procurou a ganancia commercial derra-
mar pelos sert6es d'esta e das Dioceses circumvisinhas as ridiculas
medalhas; e quem sabe quantos innocentes foram illudidos em sua
boa f6 ?!
Cumpre notar-se que o Rvd. Padre Cicero e os tres Sacerdotes
que o tnm acompanhado n'esta historic, sdo de costumes puros, de
um passado sem mancha, inteiramente desprendidos dos bens d'este
mundo, estimaveis por seus-elevados sentiments, e incapazes de qual-
quer acq~o menos nobre: ndo sio directamente responsaveis pelas mi-
seraveis especulaq6es que se hlo feito; e nem teriam praticado qual-
quer desacerto ou excess, si nao se houvessem entregado A discreqio
de mal inspiradd paredro, que, explorandQ-lhes a excessive suscepti-
bilidade, os enveredou por tortuosos caminhos.
Para justificarem a contumacia, pretextam os recalcitrantes que


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os Bispos nio sao infalliveis, e que haviam appellado do juizo do Dio-
cesano para o da Santa S6.
E' verdade que os Bispos singularmente considerados nao sao
infalliveis, e que se pode appellar de suas decis6es para o Supremo
Tribunal da Egreja; mas, em todo caso, 6 dever do Clero e dos fieis
- aterem-se ao juizo pronunciado pelo seu Diocesano, emquanto o
Poder superior nio mandar o contrario.
Houve cor effeito appellaqao de Nossa sentenqa condemnatoria
da proposiqio versante sobre a natureza do sangue apparecido nas
S. Particulas, recebidas por Maria de Araujo; e os appellantes tive-
ram plena liberdade de acqao.
Os propugnadores dos chamados milagres e dos novos mysterious
anteciparam-se no andamento da causa, enviando A Roma o Revd.
Secretario da Commissao formadora do process do Joazeiro. Este
Sacerdote, para affastar qualquer embaraqo ao desempenho de sua
missao, aproveitou-se da Nossa auzencia d'esta Diocese, e com todas
as cautelas seguiu desassombradamente caminho da Cidade eterna,
levando comsigo uma copia d'aquelle instrument, abusivamente ex-
trahida.
Chegado ao seu destiny, advogou a causa com ardor e habilidade;
verteu em italiano as peas do process, que mais lhe pareciam com-
probatorias dos novos mysteries; e tudo isto fez sem encontrar o mi-
nimo tropeqo.
Nao contents com todas estas diligencias, os sectarios das novas
doutrinas, mesmo depois da publicaqio da Nossa Pastoral explicativa
dos taes factos, prepararam novos documents, habilmente arranja-
dos, sem audiencia Nossa e nem sequer da do Revd. Parocho do Crato.
Esses documents foram encaminhados a Santa S6 por outro Sacer-
dote enthusiasta dos novos mysteries.
De sorte que nada faltou da parte dos appellantes: houve plena
liberdade e at6 abuso d'ella; abundaram os recursos materials e houve
habilissimos e esforcados advogados. A Santa S6 foi, pois, minucio-
samente inteirada de tudo.
N'estas condiqges, conservaram os interessados os olhos volta-


MONS. JOSE. QUINDERPi


- 22 -








DoM JOAQUIM JOSE VIEIRA


dos para Roma; donde esperavam a solemne sancqio de suas novas
doutrinas.
N6s tambem, posto que conscio de havermos zelado a pureza da
Santa Religido, aguardavamos ein respeitosa expectativa, a palavra
do Supremo. Hierarcha da Egreja para firmar de vez a consciencia
de algumas queridas ovelhas ainda vacillantes.
Pois bem: a doutrina religiosa, que ensinAmos na Nossa Pastoral
de 25 de Marco de 1893 foi attentamente examinada; o process do
Joazeiro foi estudado corn aquella consummada prudencia e sabedoria,
que distinguem os Eminentissimos Cardeaes da Santa Egreja Roma-
na; finalmente, a Santa Se pronunciou-se sobre o assumpto.
A ultima palavra foi solemnemente proferida: nao ha mais jugar
para evasivas; nao ha mais appellacqo. JA nio 6 licito em consciencia
@ um catholico, sacerdote ou leigo, duvidar nem sequer de leve. Roma
locuta est causa finita est: Roma falou, acabou-se a questdo. E' mil
vezes preferivel imitar-se ao grande Fenelon, do que ao infeliz Padre
Loyson.
Sim, o Grande Pontifice, Chefe Supremo da Egreja Catholica,
infallivel em material de f6 e costumes, dirimiu as duvidas; o imortal
Ledo XIII, pelo orgao da S. Congregagqo do Santo Officio, que nada
decide sem Sua audiencia, falou sobre o caso do Joazeiro.
Submissos, reverentes e cheios de f6, oucamos a voz do notabi-
lissimo Sucessor de S. Pedro.






VENE AVEIS IRMAOS E QUERIDOS DIOCESANOS, Sua
Excellencia Reverendissima o Senr. Arcebispo de Petra, res-
peitabilissimo Internuncio Apostolico no Brazil, em officio
datado de 5 de Julho ultino, recebido no dia 3 do corrente,
Nos enviou, para publicarmos e executarmos, a Decisado e
Decretos da S. Congregag~o do Santo Officio, na forma
seguinte:


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MoNS. JOSE QUINDERP


DE FACTIS QUAE ACCIDERUNT IN JOASEIRO DIOECESIS
FORTALEXIENSIS

DECISION ET DECRETA S. R. UNIVERSALIS
INQUISITIONIS



In Congregatione Feria IV diei 4 Aprilis anni 1894, discussis
factis que acciderunt in Joaseiro Dicecesis Fortalexiensis, Eminen-
tissimi ac Reverendissimi Patres Sancta Romanm Ecclesiae Cardinales
Generales Inquisitores pronunciaverunt, responderunt et statuerunt ut
sequitur:

"Praetensa miracula aliaque supernaturalia qua de Maria
"de Araujo predicantur vana esse et superstitiosa ostenta, ac
"gravissimam detestabilemque irreverentiam et impium abu-
"sum Sanctissime Eucharistize continere; ideoque judicio
"Apostolico reprobari et ab omnibus reprobanda esse, et pro
"reprobatis et condemnatis habenda.
"Ut autem hujusmodi excessibus finis imponatur et
"graviora simul precaveantur mala qua inde oriri possunt;
"(10.) Concursus peregrinorum aut curiosorum visitatio-
"nes et accessus ad Mariam de Araujo aliasque mulieres in
"eadem causa culpabiles a Fortalexiensi aliisque Brasilia
"Ordinariis, quantum omnino fieri poterit interdicantur.
(2.) Scripta qualibet vel libri aut opuscula in defensio-
"nem illarum personarum ac illorum factorum edita *el for-
"san, quod absit, edenda pro damnatis et vetitis habeantur, et
"quantum fieri potest colligantur et comburantur.

"(3.) Tam Sacerdotibus quam laicis prohibeatur quomi-
"nus de pretensis supramemoratis miraculis voce vel script
"agant.


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DoM JOAQUIM JOS -VIEIRA


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"(4.) Panni sanguine perfusi ac Hostiae de quibus actum
"est omniaque alia ceu reliquia asservata, ab eodem Ordina-
"rio auferantur et comburantur".

"(Sign.) R. Cardinalis Monaco".


Hec sunt que Suprema Congregatio Sanctae Romanae Univer-
s;alis Inquisitionis pronunciavit, respondit, ac statuit, eaque in termi-
Tis communicamus.
In quorum fidem, sub Nostris subsignatione et sigillo,
Datum Petropolis ex AEde Internuntiaturae Apostolicm hac die 5
Junii anni 1894.

-I- Fr. Hieronymus Maria, Archiep. Petraeus,
Internuntius Apostolicus.


EM VERNACULO:

Decisdo e decretos da Sagrada Inqiisi~io Romana Universal sobre os
factos que succederam no loazeiro, Diocese da Fortaleza.

Na Congregaao de 4a. feira, 4 de Abril de 1894, discutidos os
factos-que succederam no Joazeiro, Diocese da Fortaleza, os Eminen-
tissimos e Reverendissimos Padres da Santa Egreja Romana Cardeaes
Inquisidores Geraes, pronunciaram, responderam e es tuiram o
seguinte:

"Que os pretensos milagres e quejandas cousas sobrenaturaes
' que se divulgam de Maria de Araujo sAo prodigies vdos e supers-
" ticiosos, e implicam gravissima e detestavel irreverencia e impio
' abuso A Santissima Eucharistia; por isso o juizo Apostolico os re-
" prova e todos devem reprorA-los, e como reprovados e condemna-
" dos cumpre serem havidos.
Mas para se dar cabo de taes excesses e A um tempo se evita-
" rem maiores males que d'elles podem nascer:











(1.) O Ordinario da Fortaleza e os outros do Brazil prohibam
por todos os meios ao seu alcance o concurso de peregrines, ou as
visits e access dos curiosos 5 Maria. de Araujo e fs outras mulhe-
res incursas na culpabilidade da mesma causa.

(2,") Quaesquer escriptos, livros ou opusculos publicados, ou
talvez, que tal- no aconteca, por publicarem-se em defesa d'aquellas
pessoas e d'aquelles factos, tenliam-se por condemnados e prohibi-
dos, e sejam quanto possivel recolhidos e queimados.

(3.0) Tanto aos Sacerdotes como aos leigos seja lhes defeso
tratar, por palavra ou por escripto, dos pretenses milagresfupra-
citados.

"(4.) Os pannos ensanguentados e as Hostias de que se falou, e
todas as outras cousas ou reliquias conservadas, o mesmo Ordinario
"as tome e as queime".

"(Assig.) R. Cardeal Monaco".

Isto foi o que a Suprema Congregaq~o da Santa Inquisiqdo Ro-
mana Universal pronunciou, responded e estatuiu, e e o que commu-
nicamos em terms.
Em cuja fe, sob Nossa assignatura e Nosso sello,
Dado em Petropolis, na Residencia da Internunciatura Apostolica
no dia 5 de Junho de 1894.

-I- Fr. Jeronymo Maria, Arcebispo de Petra,
Internuncio Apostolico.



Impendendo-Nos, Veneraveis Irmaos e queridos Diocesanos, o
dever de publicar a Decisgo e executar os Decretos acima consigna-
dos, determinamos o seguinte:

1. Rogamos encarecidamente aos Nossos Diocesanos e muito os


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MONS. JOSE QUINDERE











exhortamos A nao fazerem. visits, por curiosidade e muito menos A
titulo de peregrinaqio, a Maria de Araujo e a outras mulheres como
ella culpaveis nos embustes do Joazeiro; pois seria irrisorio e nimia-
mente reprehensivel ligar-se importancia a pessoas que s6 merecema
reprovacao public pelas muitas profanaq6es que hao praticado. E,
si algumas pessoas, illudidas em sua b6a f6 ou por ignorancia, fize-
ram votos, tendo por motive os pretensos milagres, declaramos irritos
e nullos e supersticiosos taes votos; de sorte que commettera grave
peccado contra. a virtude da Santa Religilo aquelle que, tendo noti-
cia da Decisgo da Santa S6 sobre o caso do Joazeiro e sabendo d'esta
Nossa declaracqo, tentar ainda cumpril-os.

2. Mandamos a todos os Sacerdotes d'este Bispado procurem
diligentemente recolher e queimar todos os escriptos, impresses ou
manuscriptos, que tenham por fim, ainda mesmo indirect, defender
os taes factos do Joazeiro e as pessoas que os praticaram. Procurem
outrosim recolher, para Nol-as enviar oportunamente, as ridiculas
medalhas que tem os nomes do Padre Cicero e Maria de Araujo; e
faqam ver ao povo que nao 6 licito em consciencia dar-se qualquer
culto de veneraqco a esse supersticioso objeto.

3. Prohibimos a todos os Sacerdotes d'esta Diocese, sub pcena
suspensionis ipso facto incurrenda, e aos Nossos Diocesanos leigos,
sob pena de privaqAo dos Sacramentos, tratarem por palavra ou por
escripto de qualquer modo que seja em defeza dos pretensofmilagres
supramencionados.

4. Mandamos, sub pcena excommunicationis, quem tiver os pan-
nos ensanguentados que foram roubados da Matriz do Crato, os en-
tregue, dentro de trinta dias, a N6s pessoalmente, ou ao Revmo. Mon-
senhor Vigario Geral d'este Bispado, ou ao Rvd Parocho do Crato.
Deixamos de fazer mais observaq6es, por muito confiarmos no
bom espirito e criteria do Nosso virtuoso Clero, e por ja terms ex-
posto com clareza a doutrina da Egreja sobre este assumpto em
Nossa Carta Pastoral de 25 de Marqo de 1893, que addicionamos a
esta. Os Nossos Diocesanos podem e devem seguir os ensinamentos


DoM JOAQUIM JOSe VIEIRA


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leligiosos contidos n'esse document official, que foi examinado pela
Santa S6 e julgado achar-se de perfeito accord corn o ensino ca-
tholico.
Veneraveis Irmios e queridos Diocesanos, guardemos a f6 christi,
tal qual foi ensinada por Jesus Christo Senhor Nosso, e nos 6 pro-
pogta pela Santa Egreja Catholica, Apostolica, Romana: column e
firmamento da verdade.
Amemo-nos uns aos outros, porque este e o preceito mais enca-
recido pelo Divino Mestre. N'isto conhecerdo todos que sois meus dis-
cipulos, si vos amardes uns aos outros,
Suma-se para sempre o cumulus que annuviou por algum tempo
o azul claro do ceo da Diocese Cearense; cAiam em eterno esqueci-
mento os desvios oriundos de un conceit formado sem madureza
de reflexio.
Reine a paz e a harmonia religiosa em nossos coraq6es, para que
sejamos um como o 6 Deus Filho corn Deus Pae e Deus Espirito San-
to, em cujo Name vos damos a Nossa benqdo.
Os Revds. Parochos publiquem nas Matrizes e Capellas de suas
freguezias, a estaqdo da Missa Conventual, esta Nossa Carta Pastoral,
e registrem-na no livro competent.
Dada e passada n'esta Cidade da Fortaleza, sob o Signal e Sello
de Nossas Armas, aos 25 de Julho de 1894, festa do Apostolo Sab
Tiago.
-i- Joaquim, Bispo da Fortaleza.


Pela leitura desta carta pastoral, verifica-se qudo estu-
penda foi a vit6ria de D. Joaquim intr6pido defensor da
f6, pois a Santa Se 1he aprovou todos os actos, estigmati-
zando os supostos milagres dos sert6es cearenses. E, nele,
cumpriu-se fielmehte aquela formosa sentenga biblica ex-
pressa no salmo CXXV: "quem corn lgrimas semeia, co-
]he o fruto cantando". Qui seminant in lacrimis, in exulta-
tione metent.


MoNS. JOSE QUINDERA


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DOM JOAQUIM JOSe VIEIRA


DOM JOAQUIM EM ROMA

Present ao Concilio Plendrio da America Latina, con-
-vocado pelo Papa Ledo XIII e celebrado em 'Roma no ano
de 1899, Dom Joaquim, cujo nome era ji conhecido no Va-
ticano pela sabedoria cor que levou de vencida o cisma
que se ensaiara em sua diocese, teve reafirmado o alto con-
ceito que o precedia, no desempenho das comiss5es que Ihe
couberam no memorivel Concilia, que reuniu os mais noti-
veis prelados desta parte do continent americano. E foi tal
a boa impressao que a sua figure herAldica deixou na lem-
branga de todos, que mereceu Ihe fosse aplicado aquele
conceito de Latino Coelho: "Se nao houvera nunca subido
As prelaturas, o seu aspect venerando e os seus costumes,
verdadeiramente pastorals, teriam feito lembrar nele a au-
toridade e a doutrina dos prelados".
Aqui vem a calhar referir um facto que mostra o porte
moral dos homes do passado: espalhada, pela cidade, a
noticia de que Dom Joaquim fora chamado A Cidade Eter-
na, o Dr. Ant6nio Pinto Nogueira Aci6li, entao Presidente
do Estado, p6s A disposicgo do Prelado os recursos neces-
sarios para ocorrer As despesas da viagem, porquebra pro-
verbial a fama da sua pobreza. E, num gesto que dignifica
a sua mem6ria, o Dr. Aci6li vai ao palicio episcopal comu-
nicar ao ilustre itinerante o prop6sito do Governo.
Dom Joaquim comoveu-se profundamente ante tama-
nha prova de aten~go A sua pessoa por Rarte da maior auto-
ridade do Estado, mas nao aceitou o generoso oferecimento,
alegando como motivo a separagao dos dois poderes --ecle-
siistico e civil. 0 velho Estadista argument lembrando


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os inestimaveis servisos por ele prestados A colectividade
cearense e que o povo, pelo seu governor, tinha o dever de
prestar-Ihe aquela just homenagem. Dom Joaquim, por6m,
acastela-se ro seu ponto de vista e o Dr. Aci6li nao ousa
insistir. E, depois, o grande Bispo bate A porta de um dos
seus mais intimos amigos, o Dr. Epaminondas da Frota,
para pedir, por empr6stimo, a quantia indispensivel A sua
projectada viagem.


UNIAO DO CLERO

Retomando o fio da hist6ria, como vulgarmente se diz,
volto aos primeiros dias do fecundo governor do segundo
diocesano do CearA.
Ao assumir a supreme direcqao da sua diocese, a pri-
meira tristeza que Ihe assaltou o.espirito e o impressionou
profundamente foi a situacgo dos padres, em geral, desa-
parelhados de qualquer amparo e assistencia nas enfermi-
dades, na"velhice e na invalidez.
Para preencher lacuna tao sensivel, Dom Joaquim pro-
cedeu, iaediatamente, A criaao de uma sociedade de coope-
ra~go entire os sacerdotes, A qual deu o nome de "Unigo do
Clero". Aos padres Dr. Jodo Augusto da Frota, Bruno Fi-
gueiredo, Liberato Dionisio da Costa e Jos6 Barbosa de
Jesus, confiou a incumbencia de organizer os estatutos da
rova instituicgi. -Ndo deve escapar ao leitor esta circuns-
tAncia: Dom Joaquim tinha apenas trinta e tres dias de ad-
ministraoo.
A "Unido do Clero" foi instalada a 30 de Margo de


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MoNs. JOSR QUINDERR









1884 e, desde a data da sua fundaqgo at6 a hora present,
vem cumprindo fielmente a sua finalidade, corn o mesmo
espirito que a inspirou.
Conhecida e comprovada a sua eficiencia, depois de
adquirir personalidade juridica e ainda por iniciativa do
pr6prio fundador, alcangou do Papa Lego XIII, por um
Rescrito datado de 12 de Fevereiro de 1894, a faculdade
de poderem fazer ali seu patrim6nio can6nico os cl6rigos
promovidos ao sagrado Presbiterato.
Finalmente, para realizar o program todo que Ihe
foi tragado pelos que fizeram os estatutos, a "Unido do
Clero" tem, hi muitos anos, sede pr6pria, num magnifico
pr6dio, que serve de residencia e hospedagem aos s6cios
que o quiserem. E, com os seus sessenta e quatro anos
de existencia, vive pr6spera, nos limits das suas possibi-
lidades, para a maior gl6ria do seu inspirado fundador e
utilidade do clero que, al6m dos sufrigios e socorros espi-
rituais, que Ihe sgo garantidos, ter nela a seguranga de
amparo em qualquer dos reveses da vida, tio cheia de dolo-
iosas surpresas.
Esse sodalicio eclesiAstico 6, talvez, o primeiro institui-
do no Brasil. Pode existir, mas nao conhego, nem se ter
noticia de outra organiza~go igual a esta do Ceari, em todo
o territ6rio brasileiro.
E' de pasmar que Dom Joaquim, numa antevisao pro-
f6tica, tenha previsto que de aperturas e tristezas estariam
reservadas ao clero, num future que a todos podia parecer
longinquo e, pr isto, tao fora de cogitag6es desta natureza;
especialmerne naqueles bons e recuados tempos, quando o


DoM JOAQUIM JOSI VIEIRA


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MONS. JOS QUINDERt


mundo era melhor e o governor monirquico era obrigado,
por dever constitutional, a manter o culto cat6lico e dar ao
clero uma assist6ncia digna da sna altissima missao entire
os homes.
Entretanto, forga 6 confessar, apesar de todas as pro-
videncias, nada podera livrar o padre dos acfileos da pobre-
za, porque aos operarios da sua Vinha, o Senhor outra mer-
c6 nao promete senio o sofrimento: "Quem me quiser sc-
guir tome a sua cruz": tollat crucem suam.
Jesus Cristo, antes da sua gloriosa ascensio, ao despe-
dir-se dos ap6stolos, anunciou-lhes os tormentos que os
aguardavam, ao contact corn os homes: "Haveis de gemer
e chorar, e o mundo muito se hA de alegrar. Sereis perse.
guidos, maltratados, al6m do que podeis imaginar. Coptra
a vossa misso levantar-se-do todas as potestades do infer-
no. Tamb6m a vossa condicgo nao ha de ser melhor que a
minha, que sou vosso Pai. Se o mundo vos odeia, 6 porque
me ha odiado primeiro": Si mundus vos odit quia me
priorem vobis odio habuit. Isto esta escrito no capitulo
XVI do evangelho de Sao Joao.
0 que Jesus Cristo afirmou aos ap6stolos, neles se
cumpriu fielmente e, nos seus sucessores, atrav6s de todas
as idades vencidas e dos s6culos que hgo de vir. Enquanto
o mundo existir, o padre sofreri sempre a contradiqgo dos
homes, a incompreensao dos maus filhos da Igreja, toda
esp6cie de perseguiqao, a indigencia, o martirio e a morte.
0 sofrimento 6 o selo que antentica a origem ;ivina
de sua missao na terra. Para enfileirar-se na milic sa-
grada, 6 precise ter apurado espirito de f6, coragem e voca-
cio para o martirio, porque, al6m daquela satisfag~o na-







DOM JOAQUIM JOSE VIEIRA


tural que banha a consciencia de quem pratica o bem, e da
promessa eterna que Jesus Cristo fez aos ap6stolos a
vossa -tristeza se transformara em alegria: tristitia vestra
vertetur in gaudium, a qual ningubm lhes podera roubar:
nemo toilet ear, nenhum atrativo human oferece o 'estado
sacerdotal.
Perdoe-me o leitor esta digressao. Estas ideias me vie-
ram a mente, ao sentir o padre modern crivado de neces-
sidades e ao recorder a pobreza evang6lica de Dom Joa-
quim, que tanto se preocupava com a situagio material dos
seus cooperadores. E essa preocupacio do inolvidivel Bis-
po levava-o ao extreme de ter A mdo a estatistica das ren-
das das par6quias, de maneira a powder distribui-las, aten-
dendo, antes de tudo, aos requisitos morais do candidate ao
espinhoso m6nus, e depois As suas condig6es financeiras.
E tal foi essa preocupacgo que, no moment em que
o Estado deixo, de manter o culto religioso, com a sepa-
raggo da Igreja, no regime republican, Dom Joaquim lan-
gou as bases para a formacgo de um patrim6nio que ga-
rantisse .condigna sustentacgo ao future bispo diocesano,
prevenindo-lhe, dessa maneira, as dificuldades, numa dio-
cese como esta, assolada sempre por calamidades peri6-
dicas.


AS PRIMEIRAS ESCOLAS


Estavamos revivendo a accgo construtiva de Dom Joa-
quim, no primeiro ano de sua operosa administragSo. Entre
as obras que promoveu, que foram as primicias do seu


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MONS. JOS- QUINDERE


apostolado, e tanto Ihe glorificam a mem6ria e se perpe-
luam atrav6s dos tempos, com a mesma feigio caracteristica
cor que Ihe sairam do coracgo, avulta a fundacgo das es-
colas "Sgo Vicente de Paulo" e "Jesus Maria Jos6",
anexas ao Col6gio da Imaculada Conceicgo e confiadas a
dedicagdo das benem6ritas Irmds de Caridade, essas abe-
lhas do c6u, a quem se deve a graga e o mel da sabedoria
com que formaram o espirito e coracgo da familiar ce4ren-
se o mais belo patrim6nio moral das nossas tradig6es.
A primeira, inaugurada a 8 de Dezembro de 1884,
divide-se em dois cursos: o diario, para meninas de 6 a 15
anos; e o dominical, para mogas que, durante a semana,
se ocupam em services dom6sticos ou em outros trabalhos
de onde tiram a pr6pria subsist8ncia.
A matricula dessas escolas multiplicou-se por milha-
ies de beneficiadas, no perpassar dos tempos. Por sede
tiveram, primeiramente, alguns espagosos sales no inte-
rior do velho e conceituado educanddrio, sob o superiorato
da saudosa Irma Gagn6, denominada mae da pobreza. De-
pois, quando os recursos o permitiram, as aulas passaram
a funcionar A Rua 25 de Margo, em local apropriado, cons-
truidQ por iniciativa da nova superior, a Irma Henriot, ji
falecida, mas ji na administracgo de D. Manuel, arcebispo
resignatirio de Fortaleza e titular de Viminacio.
A escola "Jesus Maria Jos6" teve sede pr6pria desde
a sua inauguracgo, num amplo, modern e elegant edifi-
cio construido por Dom Joaquim, quase as suas expenses,
pois entregava a Monsenhor Vicente Pinto Teixeira, admi-
nistrador das obias, todas as rendas da Mitra, reservando
para as suas despesas pessoais apenas a c8ngrua de tre-







DOM JOAQUIM JOSE VIEIRA


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zentos mil r6is que Ihe dava o Governo federal, em respeito
aos seus direitos adquiridos depois da queda da Monarquia.
Esse edificio 6 o que fica ao lado da igreja do Pequeno
Grande, com a actual denominagio de casa paroquial, e
que esta servindo para as reuni6es e sess6es das associadas
plas da par6quia de Sao Jos6, cuja matriz 6 a cathedral.
A escola de Sao Vicente de Paulo e a Jesus Maria
Jos6 sgo irmds g6meas: nascidas em 6pocas diferentes, ge-
raram-se, entretanto, no mesmo dia e na mesma fonte de
caridade.

LICEU DE ARTES E OFICIOS

Desde o seu advento ao Ceard, foi constant, em Dom
Joaquim, o anseio de fundar um institute nos moldes cria-
dos por D. Bosco, o precursor da pedagogia no mundo,
hoje bem-aventurado, figurando entire os santos do C6u,
que recebem na Terra o culto de veneracgo de todos os
fi6is da Igreja universal. Dessa maneira, a inaugurago da
cscola "Jesus Maria Jos6" nao foi a realidade de um so-
nho, nem o ensaio de uma grande obra a prosseguir-se, mas
o maximo de um plano maior que um idealizador tinha na
mente por em pritica.
L8-se num esboco hist6rico, in6dito, escrito por Mons.
Hip6lito, em 1894, que Dom Joaquim sempre-manifestou
a intenggo de estabelecer na diocese uma escola de Artes
e Oficios para meninos.
Depois de amargas decepg6es e mil dificuldades, por
vezes insuperdveis, continue Mons. Hip6lito, Ihe foi dada









uma casa que se prestaria ao fim almejado, mediante al-
gum reparo, e mais a quantia de setenta contos para pa-
trim6nio da instituigdo, por espontanea concessao do Pre-
sidente da Provincia, o senador Henrique D'Avila. A. casa
e o patrim6nio estavam reservados A fundacgo de um asilo
de pobres, mas os poderes pifblicos consideraram a obra
projectada de maior utilidade puiblica e de mais elevado
alcance social que um asilo de mendicidade.
De posse da casa e do patrim6nio, afirma Mons. Hi-
p6lito, Dom Joaquim entrou em confabulacgo cor os padres
salesianos para virem dirigir o col6gio, prestes a inaugu-
rar-se. Inerperadamente, por6m, Ihe sgo tomados dinheiro
c, pr6dio, por um acto ditatorial, sem que, entretanto, fosse
dada qualquer aplicagao A casa e ao patrim6nio. S6 mui-
tos anos depois, sob outra administracgo, deu-se novo des-
tino ao pr6dio, para nele funcionar a antiga Escola Militar
do Ceari.
Extinta a Escola Militar, posteriormente, o edificio
passou a servir de quartel A policia estadual e, por fim,
foi cedido pelo Governo cearense ao federal para funcionar
ali o Col6gio Militar e o Col6gio Floriano, em substituiio
Aquele, quando Ihe fecharam as matriculas. A casa em
aprego 6 a mesma onde se instala, actualmente, a Escola
Preparat6ria, esp6cie de vestibulo da Escola Militar de Re-
sende, onde se preparam os futures orientadores do ex6r-
cito national.
Pelo exposto v8-se claramenle que 6 verdadeira a
afirmativa de que as escolas de S. Vicente -de Paulo e da
Sagrada Familia germinaram e nasceram, simultAneas, no
coragao do zelosp Pastor.


MONS. JOSe QUINDERR


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DoM JOAQUIM JOSA VIEIRA


A ASSOCIACAO DAS SENHORAS DE CARIDADE

As secas do Ceara, tristemente notdveis, pelos estragos
incriveis que causam A economic pfblica e particular, sao
um tema cedigo, que ter a sua literature bastante explorada.
As suas devastag6es tnm sido narradas em prosa e
verso pelos maiores escritores e pelos mais inspirados
poetas patricios e at6 por outros de al6m-mar, como Guer-
ra Junque'iro, naquele impressionante poema "A fome
no Ceara".
Por isto nao me deterei em devaneio literario com
lima coisa que tanto nos aflige e algo diminui a intense cla-
ridade da formosa Terra do Sol, sendo no que colide cor
uma obra eminentemente ben6fica, pelo seu imenso raio de
.acio, filha do coragSo desse raro home de Deus que,
por dilatados anos, apascentou uma porgio do rebanho de
Cristo, neste amargurado pedago do Brasil.
Quem jA hssistiu a uma das nossas secas sabe que, mal
be esbogam os primeiros tragos do horrendo perfil, as po-
pulag6es sertanejas se deslocam em demand de Fortaleza,
com a esperanga de um lenitivo para o seu imensurAvel
infortfinio. Passado o flagelo, parte dessa gente volta aos
campos nativos; a outra, por6m, atraida pelas facilidades
da \vida urbana, permanece escondida nos recantos escusos
da cidade, aumentando-lhe o nmnero dos valetudinarios,
enfermos, mendigos falses e verdadeiros, paraliticos e va-
gabundos.
Dom Joaquim ainda nao havia presenciado cor os
pr6prios olhos as cenas dantescas de uma seca. Mas, sur-
preendido corn a que se declarou em 1888, tremeu de hor-


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lor ante a acabrunhadora realidade, de que s6 tinha noti-
cia por ouvir falar ou pelas descrig6es que teria lido. Ante
os factos concretos que viu e examinou, logo Ihe nasceu no
espirito a idea de organizer uma sociedade de socorro,
que tivesse por fim aliviar os sofrimentos daqueles que nao
esmolam pelas ruas.
Animado do mesmo prop6sito com que recorreu
cooperaggo das dedicadas Irmis de Caridade para a funda-
go de sua primeira escola, p8s nas mros das infatigaveis
Filhas de Sgo Vicente o exito da sua nova obra. A supe-
riora da Casa era ainda a mesma Irma Teresa Gagn6, uma
das primeiras religiosas que, na era de 1865, vieram fun-
dar no Ceari, a convite de Dom Luis, um pensionato para
meninas e, ao lado, um orfanato, destinado a criangas do
mesmo sexo, abandonddas obras que ainda ai estgo,
desafiando a acgdo do tempo, numa indiscutivel afirmagdo
da sua utilidade social.
A nova instituicgo, embora a mais antiga do Brasil,
nao foi uma criaggo original do espirito empreendedor de
Dom Joaquim, mas uma semente colhida na secular adr-
vore da caridade, plantada na Franga por Vicente de Pau-
lo, o santo das criancas, dos pobres e dos seminarios, que,
ja em seu tempo, sentiu urgente a mesma necessidade de
se levar A mansarda do pobre, al6m da esmola que mitiga
a fome e a medicine que alivia as dores, a palavra de con-
solo que abre clareiras de esperanga nas almas embrute-
cidas pelo infortfinio.
Assim e que, desde o ano de 1888, at6 hoje, a Associa-
g6o das Senhoras de Caridade trabalha no seio das classes
desfavorecidas, sempre unida h fonte de onde brotou, pelo


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MONS. JOSE QUINDERR









elo de ouro da continuidade das cousas impereciveis. Ter
a sua sede no Col6gio da Imaculada Conceigao, age sob a
director das piedosas freiras, tamb6m frutos da mesma Ar-
vore, com o afg habitual da caridade que ndo cansa e a
3edicacio infatigivel que s6 a f6 sabe inspirar.


O SEMINARIO E 0 COLiGIO DA IMACULADA
CONCEIgAO

Deus, na sua visivel predilecgio pelo Ceari, predilec-
ao que se imp6e A crenga comum de que onde esta o
sofrimento esta o Senhor: ubi dolor, ibi Dominus pre
miou a terra m6rtir corn a preciosa dAdiva dos tres obreiros
que langaram as bases do novo bispado: D. Luis Ant6nio
dos Santos, primeiro bispo do Ceari, Pe. Pedro Augusto Che-
valier, primeiro reitor do Seminario, e a Irmg Teresa Gagn6,
superiora do Col6gio da Imaculada Conceigio, falecida em
1917, no exercicio do cargo, em que se conservou atW a
morte.
0 Seminirio e o Col6gio da Imaculada Conceicao fo-
ram as primeiras e as maiores obras de D. Luis, realizadas
cor a eficiente colaboragio das duas outras parties compo-
nentes da triarquia providencial que Deus estabeleceu no
Ceard para o determinado cumprimento dos seus insondi-
veis designios. Era inadidvel a fundagdo dos dois institu-
tos: sem clero, seria baldado todo o esforgo do novo Pre-
lado para levar a sua diocese ao ideal de perfeicgo que
concebeu a sua alma inflamada de zelo pela salvacgo do


DoM JOAQUIM JOSA VIEIRA


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rebanho que vinha apascentar; sem uma sociedade, compos-
ta de families, cristimente formadas, nao disporia de cam-
po para cultivar a semente das voca6oes sacerdotais. -
E essas obras foram montadas sobre alicerces tgo s6-
lidos e profundos que ambos, apesar de ultra-octogent-
tios, conservam a jnesma fisionomia moral e intellectual dos
primeiros dias, ciosos das fulgurag~es do seu passado, sem-
pre actuais. h altura da evolugio do tempo e das necessida-
des de cada 6poca.
Este ex6rdio foi escrito para explicar que, embora
Dom Joaquim em nada tenha concorrido para o conceito
e esplendor das duas instituigSes, ji em pleno florescimen-
to quando aqui chegou, aumentou-lhes todavia o prestigio
com a assistencia moral e cuidado paternal, que Ihes dis-
pensou. Ainda assim, o Col6gio Ihe deve um grande bene-
ficio. A primeira casa em que se instalou o novo educan-
dario ficava A Rua Barao do Rio Branco, at6 poucos anos
Rua Formosa, pr6ximo A Rua Castro e Silva, de proprie-
dade do Barao de Aratanha, dedicado amigo e infatigavel
auxiliar de D. Luis.
No fim do ano lectivo, como o local era pequeno, as Ir-
mis instalaram o col6gio na Casa dos Educandos, ali, onde
ainda hoje se encentra, naturalmente, com outra amplitu-
de, aspect e higiene, amparadas por um contrato celebra-
do entire o diocesano e o president da Provincia, o enge-
nheiro military, coronel Jogo de Sousa Alvim. Dom Joa-
quim, por6m, na administracgo do senador Henrique d'Avi-
la, conseguiu prorrogar o contrato para mais cinquenta anos,
por uma lei provincial que tomou o n.0 2143, de 29 de
Junho de 1889.


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MONS. JOSE QUINDERR







DOM JOAQUIM JOSE VIEIRA


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O Seminirio recebeu, tamb6m, outro insigne favor
das maos dadivosas de Dom Joaquim, pois S. Excia. ele-
vou para cem as dezenove ap6lices da divida pfiblica que
,lhe constituiam o minguado patrim6nio. E depois, quando
a desgraga daquela trigica noite de 7 de Junho de 1894,
abateu, destruindo por complete, a parte fronteira do edi-
ficio a que vai da Igreja da Prainha ao meio, justamen-
te onde se localiza o salo de visits da casa, Dom Joaquim
o reconstruiu dentro de tres meses, de maneira que, antes do
fim do ano, as aulas recomegaram a funcionar com toda a
regularidade.
Ante a indescritivel catastrofe, que parecia irre-
mediivel e que Ihe valeu por tremenda provagao, e, pior
ainda, sem meios para enfrentar as despesas com o soer-
guimento da parte abatida que, moralmente, representou
o desaparecimento da casa toda, Dom Joaquim s6 teve uma
resoluguo a tomar: recorrer A generosidade dos queridos
diocesanos. E o fez cor o mais complete 6xito.
Ao encontro de S. Excia. foi piressuroso o coronel e
cngenheiro Jos6 Bizerril Fontenele, president do Estado
e seu intimo amigo, corn o auxilio, naquele tempo aprecii-
vel, de dez contos de r6is. E, em seguida, acorreram ao
ingente apelo do angustiado Pastor todas as par6quias da
vasta diocese que, entgo, abrangia todo o territ6rio cearense.
Dom Joaquim, em pessoa, dirigiu,o movinmento pr6.
seminario, em Fortaleza, a qual dividiu em sete circuns-
crig6es, confiando cada uma a distintas senhoras da mais
alta sociedade, que deram A piedosa missao o mais cabal
desempenho.
No dia do recolhimento das esmolas, verificou-se um'a









cena deveras comovente: Dom Joaquim aguarda as comis-
s6es, de p6, tr6mulo de emog~o, no alto dos tr8s primeiros
degraus da escada que conduz A sala de visits do palacio,
e corn as maos cheias de p6talas de rosas abengSa a eabega.
das abnegadas damas, que se curvam surpresas, diante de
-rm gesto in6dito e inesperado, que Ihes causou profunda
impressgo, pela austeridade de quem o praticara. Dom
Joaquim era uma alma sensibilissima.

A IRMANDADE DE SAO FRANCISCO

N~o se conhece a razao imediata por que, em Canin-
d6, Sgo Francisco 6 venerado com tanta devogdo e fervor.
Refere uma tradi go digna de acatamento que, nos
fins do s6culo dezoito, apareceu por aquelas paragens um
eidadgo de nacionalidade portuguesa, chamado Francisco
Xavier de Medeiros, com a intencgo de ali se estabelecer
e erigir uma capela em honra do glorioso santo.
Canind&, cujo ndme 6 tirado de uma tribo de tapuias
que vivia na regigo central do sertgo cearense, nao era o
que hoje 6 uma cidade bela e progressista, mas um lu.
garejo composto de algumas pequenas casas, As quais o
Advena acrescentou d que construiu de aspect um pouco
melhorado.
Todos os santuirios do Brasil tmr a sua hist6ria.
de Canind6, por6m, nao pode deixar de ser obra dos desig-
nios de Deus que quis cavar, naquela ressequida terra, uma
fonte de gracas, onde todos os necessitados encontrassem
solusgo para os seus problems, rem6dio para as suas dores
e cura para os seus males.


MoNs. JOSR QUINDERA


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DoM JOAQUIM JOSE VIEIRA


So Francisco que, em vida, se assemelhou ao divino
Modelo, corn tal perfeig~o, pelo amor ao sofrimento e pelo
minist6rio da caridade, que mereceu Ihe chamassem ou-
tro Cristo: Franciscus alter Christus, foi por Deus escolhido
despenseiro das gragas extraordindrias que se derramariam
entire os fi6is, manadas do pequenino nicho encravado na
parede da pequenina e pobre capela, perdida num pedago
do nosso sertgo adusto, depois transformada e elevada i
dignidade de Basilica, entire as raras existentes no Brasil.
A noticia das gragas alcangadas e das curas ali rea-
lizadas, correu c6lere por todos os recantos do Estado, atra-
vessou as nossas fronteiras e. foi ecoar alem, muito alem.
E Canind6 tornou-se entao um centro de atracgo de mi-
Ihares de romeiros que, anualmente, demandavam aquela
cidade, vindos at6 da longinqua Amaz6nia, cuja populacgo
era, na maioria, constituida de emigrantes cearenses. Ali,
na fonte das gragas, todos se saciavam e, cheios de gratidao
pelas merc8s recebidas, depositavam no altar do Taumatur-
go as suas oferendas, 6bolos convertid'os em dinheiro e ob-
jectos preciosos de uso pessoal.
A media que se ia plenificando a arca do Pobrezinho
de Assis, ao lado florescia a turma sabida de devotos de opa.
E logo se criou uma irmandade em tudo igual As do Brasil
col6nia, com todos os privil6gios garantidos pela legislago
civil entio vigente e com todos os defeitos das coirmis, que
tanta amargura tem causado a Igreja e tantas dificuldades
aos bispos do Brasil.
Ndo se devem, por6m, confundir essas irmandades ti-
picas, oriundas de Portugal, que nos ficaram como um triste
legado da Monarquia, com as ordens terceiras, confrarias,


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irmandades religiosas e associag6es pias, que nio tem e nem
podem ter bens materials, estabelecidas e mantidas pela
Igreja, para o maior afervoramento da piedade dos fi6is.
A nova instituicgo religiosa canindeense tomou posse,
da igreja e das esmolas que devotos e romeiros depositavam
no gazofilcio do temple, certa de q.ue a ninguem teria de
dar contas. A irmandade, como as suas cong6neres, julgava.
se isenta da autoridade eclesiastica e, por *conseguinte,
aqueles bens Ihe pertenciam.
Ao tempo em que Dom Joaquim resolve chamar A sua-
autoridade a administrago e a aplicaggo daqueles 6bolos
como, de direito, Ihe competia, a irmandade, reduzida a pou.
cos irmaos, estava prAticamente desaparecidV. Mesmo assim,
resistiu A resolugao do Prelado.
E' oportuno transcrever a Portaria em que D. Joaquim
determine medidas en6rgicas sobre a administracao dos bens
de Sgo Francisco:

"Considerando que a administragao dos bens
de Sao Francisco das Chagas, Padroeiro da Matriz
de Canind6, se acha em anormalissimo estado; por
isso que um pequeno grupo de individuos, outro-
ra pertencentes A confraria do mesmo Glorioso Pa-
triarca, e que compunha a respective Mesa regedo-
ra, cujo mandate expirou em Outubro de 1896,
nio s6 tem violado a lei orgAnica da irmandade em
suas diversas determinaS6es, principalmente no to-
cante A prestacgo de contas, que at6 ao present
n5o fez, como 6 de seu estricto e imprescindivel
dever, mais ainda revoltou-se contra a ordem Dio-


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MONS. JOSe QUINDERE






DoM JOAQUIM JOSE VIEIRA


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cesana que mandou que entregasse ao reverendo
paroco da mesma freguesia os bens e documents
pertencentes a Sdo Francisco, a fim de que, depois
de tudo examinado, se tratasse da eleiggo da nova
Mesa regedora, criando destarte o dito grupo de-
sordeiro embaragos A boa march da confraria;
pelo que incorreu na pena de eliminagdo ipso facto
cominada no artigo 50., cap. 30. do Compromisso,
que por n6s foi aprovado aos 19 de Dezembro de
1892 a pedido assinado por trinta e seis irm5os
reunidos em assembl6ia geral no dia 3 de Abril do
mesmo ano, niumero este de irmaos muito superior
ao geralmente exigido por corpora6ges congeneres
para se constituirem em tal condicgo;

Considerando que a dita ex-Mesa regedora
discola, denunciada em 1895, antes de terminado
o seu mandate, de haver malversado os bens de S,
Francisco, entao sob sua administrago, em vez de
correr pressurosa a prestar suas contas para jus-
tificar-se dessa imputag~o, recusa-se ao cumpri-
mento desse dever de honra e de justiga, corrobo-
rando assim a denincia e fazendo subir de ponto
a presungio de direito contra sua probidade, tanto
mais quanto o principal representante da ex-Mesa
discola jai foi demitido em 1887 da procuradoria
da irmandade a bem dos interesses da mesma, por
se haver ocultado durante sessenta dias, tempo da
duragdo da correicgo aberta pelo Juiz de Direito
de entao, para esquivar-se A prestacgo de eontas









do cargo, que havia exercido por espago de qua-
torze anos;

Considerando que a mesma ex-Mesa discola,
sem titulo de qualquer esp6cie que seja, sem que
Ihe assist sequer uma sombra de direito, levada
tdo s6mente por gananciosa devocgo e desordena-
do amor ao alheio, aproventando-se da circunstmn-
cia -ocasional de ndo haver presentemente no ter-
mo de Canind6 juiz substitute formado e de estar
sendo este cargo exercido por um suplente leigo,
que nao ter nog6es claras de justica nem do deco-
ro que um juiz deve guardar em seus actos, apo-
derou-se (mancomunado corn o mesmo juiz) vio-
lentamente dos dinheiros e mais pertences de Sgo
Francisco das Chagas, levando-seu arrojo atW ao
ponto de assaltar e arrombar o cofre depositado na
Igreja matriz, para dele subtrair as quantias exis-
tentes, cometendo, assim, um crime e um sacril6-
gio;

Considerando que por maior e mais aturada
que tenha sido a Nossa longanimidade para corn
tais transviados na esperanga de que viessem a
resipiscencia, continuam eles em seus deploriveis
desatinos;

Considerando que, separado o Estado da Igre-
'ja, a esta compete exclusivamente a administraqgo
temporal dos bens eclesiisticos, exercendo os bis-


MoNS. JOSS QUINDER-6


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DoM JOAQUIM JOSE VIEIRA


pos esse poder em suas respectivas dioceses, segun-
do os chnones, podendo os mesmos bispos admi-
nistrar esses bens por interm6dio de fabriqueiros
ou por corporac6es religiosas ou por comiss6es de
sua nomeacgo, ou, enfim, pela forma que julga-
rem mais convenient, tendo como seus superiores
sbmente os tribunais eclesiasticos determinados pela
Santa S6 Apost6lica, sendo ainda os mesmos bis-
pos os.juizes supremos das irmandades e corpora-
6es religiosas de suas dioceses; e considerando
que a irmandade de Sdo Francisco das Chagas de
Canind6 outra cousa nao 6 sengo mera delegada
do Diocesano, que a pode suspender, reformar e
mesmo dissolver, se assim julgar convenient, pa-
ra a boa ordem da administraggo dos respectivos
bens; acrescendo a tudo isto que os incorporados a
esta confraria, instituida em 1879 e reformada ca-
nbnicamente em 1892, apenas concorrem com a
insignificant joia de cinco mil r6is de entrada e
com a nao menos insignificant anuidade de qui-
nhentos r6is; o que tudo reunido nao basta para
pagamento da quinquag6sima e quigi nem da cen-
t6sima parte das despesas com seus empregados,
alguns dos quais pouco mais trabalho tem do que o
de receber seus respectivos ordenados;

Considerando, finalmente, que 6 Nosso dever
rigoroso, (do qual nao podemos nos eximir) or-
ganizar, fiscalizar e zelar a administracgo dos bens
eclesiasticos desta Diocese, nao nos sendo licito


-'47 -







MoNs. JOSE QUINDERE


permitir nem tolerar que estes bens sejam desvia-
dos de seus santos e legitimos fins;
Havemos por bem tomar as segaintes resolu-
g6es:

la. Prevenimos aos fieis em geral e aos
romeiros em particular que nao depositem suas
oblatas no cofre que se acha colocado na Matriz
de Canind6; nem as entreguem A pessoa alguma da
ex-Mesa regedora, porque ficardo expostas a ser
roubadas, deixando, portanto, os romeiros, que ti-
verem ciencia deste nosso aviso e o nao observa-
rem, de cumprir seus votos; podergo, porem, ou
esperar que cesse a torpe e criminosa especulagdo
da ex-Mesa regedora e que se faga a devida justi-
ca a igreja, ou entregar suas oblatas e ex-votos ao
venerando piroco da freguesia, que os conservari
em boa guard.

2a. Encarregamos o revdmo. Manuel Cor-
deiro da Cruz, respeitivel paroco de Canind6, de
administrar provis6riamente os bens e todos 'os
pertences de Sio Francisco das Chagas, Padroeiro
da mesma freguezia, devendo convidar para seu
auxiliar o revdmo. capeldo padre Luis de Sousa
Leitao; o mesmo revdmo. paroco nomeara um es-
crivio habilitado e probo para escrever em livro
especial tudo quanto possa interessar A administra-
go dos mencionados bens, e nos proporA uma pes-
soa de reconhecida capacidade para o lugar de te-


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DOM JOAQUIM JOSA VIEIRA


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soureiro; chamari, outrossim, a sua presenga o
procurador e os demais empregados da irmanda-
de excepto o ex-tesoureiro que 6 compare no rou-
bo dos dinheiros de Sgo Francisco) e Ihes decla-
rar4 terminantemente que s6 devem obedecer a ele
paroco, de quem sbmente receberio ordens, sem
dependencia alguma da ex-Mesa regedora, nio po-
dendo os que com esta pactuarem continuar por
forma alguma no exercicio de seus respectivos em-
pregos. Assim procedera o revdmo. paroco at6 que
novas provid6ncias sejam dadas; ficando entretan-
to autorizado a tomar quaisquer medidas que 1he
ditar a prudencia nos casos nao previstos nesta
portaria, trazendo-os oportunamente ao nosso co-
nhecimento.
O revdmo. piroco leia esta nossa portaria A
estagdo da missa conventual do primeiro dia fes-
tivo imediato ao seu recebimento; e leia em segui-
da o cap. XI das sess. 22 da Reformat. do Conci-
lio Tridentino, e o paragrafo 60. da Bula Apos-
tolicae sedis, onde comega Impedientes etc. cor
seu respective comento, conform se ve na pagina
77 das Sinodais.

Dada e passada nesta cidade de Fortaleza e
Camara Episcopal, sob nosso sinal ,e selo de nos-
sas armas, ao 10. de Marco de 1897.


-I- Joaquim, Bispo Diocesano.







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MONS. JOSE QUINDERE


A Irmandade, entao, num assomo de rebeldia, arras-
tou D. Joaquim A barra de um tribunal civil, movendo-lhe
uma acgao de manuteng~o de posse. A Justiga, por6m, reco-
nhecendo legitima a autoridade da Igreja sobre as irmanda-
des, julgou improcedente a demand e deu ganho de causa
ao venerando R6u. Foram seus advogados o ilustre dr. Vir-
gilio Augusto de Morais e provecto causidico provisionado
Luis de Miranda, que, espontaneamente, tomaram a si a de-
fesa do Bispo diocesano.
Sem maiores tropegos ainda a vencer, Dom Joaquim
convida os padres Capuchinos, filhos do patriarca de Assis,
e entrega-lhes a direcqgo do Santuario e a guard do cofre
existent na igreja, cuja abertura, daquela 6poca em diante,
s6 era possivel fazer-se com a presenga dos tres depositirios
das respectivas chaves, das quais uma era confiada ao su-
perior do Convento e as demais a pessoas. de reconhecida
probidade e conceito firmado na cidade.
Dessa maneira, p6s-se freio A ganancia e as esmolas,
at6 entao desviadas do seu verdadeiro destino ou improdu-
tivas, tiveram oportuna e proveitosa aplicasgo.
O principal e o maior beneficiado com a providencia
tomadas foi o pr6prio Canind6, que se viu agraciado com a
preciosa didiva de dois orfanatos e a sua primeira luz elec-
trica foi inaugurada, gracas ao chamado dinheiro de Sdo
Francisco.
O col6gio, para meninas, naquele tempo corn espago
para abrigar cinquenta 6rfaos, foi confiado As religiosas
Concepcionistas da Imaculada Conceigio; o outro, aos pr6-
prios Capuchinhos, que Ihe deram tal orientaggo pedag6gi-
ca que logo se tornou um horto privilegiado de educago e








DOM JOAQUIM JOSe VIEIRA


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de cultural, onde muitas intelig8ncias se ilustraram e que
talvez nada houvessem sido, e hoje honram o Ceari, na cian-
cia,,nas letras e nas artes, contando-se entire os que mais se
distinguiram diversos sacerdotes que ali fizeram os estudos
preparat6rios. Actualmente, os dois educandirios contam
corn a matricula de 70 e 100 alunos, respectivamente.
Al6m desses inestimiveis beneficios que, por si s6s,
bastariam para justificar plenamente a suposta viol8ncia do
zeloso Prelado, hi outro que, em relevancia, nao Ihes fica
inferior: o ressurgimento da piedade que deu A aridez das
romarias um doce atractivo, uma nova dignifica~go, um sa-
bor nunca dantes experimentado: quase todos os peregri-
nos regressam a seus lares, limpos de culpa, com as almas
transfiguradas pela graga dos sacramentos.
Os missionarios Capuchinhos chegaram a Canind6 a
22 de Setembro de 1899, e o segundo bispo, ao Ceard, a 24
de Fevereiro de 1884. Pelo espago de tempo que separa as
duas datas, v6-se claramente que, apesar das constantes e
graves acusag6es que pesavam sobre a irmandade, s6 depois
de quatorze anos de profundas meditac6es e caridosas ad-
moestagSes aos irmAos discolos, 6 que Dom Joaquim p6s
em pritica a media que se impunha A sua consci8ncia, me-
dida irrevogAvel, que Ihe trouxe os inc6modos de um pro-
cesso civil, mas que redundou numa caudal de beneficios
para a cidade eleita ce Sdo Francisco, e para o Ceard todo.
Aproxima-se a data aurea das bodas jubilares, que co-
memora o magno acontecimento da restauragdo da verdadei-
ra devocgo a Sao Francisco. Nesse dia de fervoroso jfibilo,
Caninde, em peso, de joelhos ante a image do seu querido
Pa('"oeiro, nao deve esquecer a figure hieratica de Dom











Joaquim, de facto e sem restricgo o .maior benfeitor dessa
terra, que bem se pode chamar a segunda patria de So
Francisco.

PALACIO EPISCOPAL

A primeira resid8ncia que acolheu o primeiro bispo do
Ceara, em 1860, foi um sobrado de muitos andares que se
erguia, no angulo em que se cruzam as Ruas Bardo do Rio
Branco, lado par, e Guilherme Rocha, ha pouco desapareci-
do, nas labaredas crepitantes de um incendio. Sobre as suas
cinzas subiu novo edificio de feigio modern, em'cujo pavi-
mento terreo se localizaram diversos estabelecimentos co-
merciais.
Foi de pouco tempo a demora de D. Luis no vetusto
casario, pois o governor de logo providenciou a aquisicgo de
uma casa que pudesse servir de pago episcopal. A escolha
recaiu no excelente edificio pertencente ao comendador Joa-
quim Mendes da Cruz Guimaries, a sua mulher, da. Joaqui-
na Mendes Ribeiro e a seu irmio, coronel Jos6 Mendes da
Cruz Guimaraes.
Esse edificio, com ligeiras modificag6es internal e ex-
ternas, por que tem passado, e o mesmo que vem servindo de
residncia episcopal, desde o primeiro bispo ao actual Arce-
bispo Metropolitano.
Era, naquele tempo, a melhor casa residential de For-
taleza, enriquecida de uma chacara magnifica, que abran-
gia imensa area, toda murada. Situada na Praga Caio Prado,
toma toda a face oriental da mesma, parte da Rua Sao Jos6


' MONS. JOSE QUINDERR


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DOM JOAQUIM JOSR VIEIRA


e se estende para o Outeiro, tendo, entao, todo o seu terre.
i1o banhadopelo arroio Pajeii, em sua passage para o mar.
De facto, o pr6dio adaptava-se perfeitametne ao fim a
que se destinava, especialmente pela sua posigao, afastado
do bulicio da cidade e por ser perto da Catedral e do Semi-
nirio. Assim considerado, o Governo determinou a compra
do mesmo por sessenta contos de r6is, a qual foi autorizada
pelo Aviso Ministerial de 12 de Margo de 1861.
O palacio episcopal adquirido pelo governor para ser-
vir de residencia aos bispos do Ceari jamais deixou de per-
tencer aos bens do patrim6nio national.
Proclamada a Repfiblica, Dom Joaquim encheu-se de
temores pelo perigo iminente de, passada a sua administra-
gdo, o palAcio fosse requisitado para qualquer fim profano.
E, entao, iniciou um intense trabalho no sentido de assegu-
rar A Mitra a posse daquela mansgo augusta que guard o
bom odor das virtudes dos santos, ambiente de paz, teste-
munha discreta de tantas vigilias e preocupag6es, em cujas
paredes esti escrita a hist6ria gloriosa e comovente dos in-
compariveis pastores, 6mulos de Sao Carlos Borromeu, pela
caridade, e de Sao Francisco de Sales, pela dogura, que por
ali passaram.
Dom Joaquim, para reatizar uma das maiores aspira.
ces do seu fecundo episcopado, levou anos.seguidos de lu-
tas e canseiras no empenho de conservar a posse legitima
do palacio episcopal.
E teria abandonado o campo da peleja, se nao fosse um
espirito combative e de convicS6es inabaliveis.
Desesperangado da eficiencia da acgio dos homes
politicos da terra, cansado das delongas pr6prias dos neg6-


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cios ministeriais, muito a contragosto, porque era infenso a
pedidos politicos, apelou para o General Pinheiro Macha-
do, e teve a surpresa de ver, num moment, decidida a pen-
dancia, por cuja solugao tanto tempo se empenhara.
Levado A hasta piblica, por ordem do Governo, aquele
pr6prio national, um ilustre descendente dos Mendes Gui-
mardes, que residia na Baia, surgiu com a intengio de atrair
ao patrim6nio da sua familiar o antigo solar dos seus ante-
passados.
A Associacgo Comercial, por6m, em sessio extraordi-
nAria, sob a inspiraggo do seu president, o Barao de Camo-
cim, de honrada mem6ria, resolve que nenhum cearense
concorreria ao leilgo, sendo, por isso, recebida e aceita a
proposta do Bispado que se apresentou desacompanhado de
outro concorrente.
Dessa maneira, o potrim6nio da Mitra foi enriquecido
corn a posse definitive da melhor propriedade urbana de
Fortaleza, pelo mesmo prego por que foi adquirido em 1861,
descontada em favor da diocese a quantia de trinta contos,
a titulo de indenizaggo pela conservacgo e melhoramentos
nela introduzidos, no espago de tempo em que serviu de resi-
dAncia aos diocesanos.
Dom Joaquim ndo teve a ventura de assinar a escritura
da transfer8ncia: ji havia renunciado As fung6es episcopais.
Essa cerim6nia verificou-se no decorrer do ano de 1913,
recebendo o document de transferencia a assinatura de
Mons. Bruno Figueiredo, viggrio geral da diocese, em exer-
cicio pleno do cargo, por se encontrar ausente de Fortaleza
o entao bispo diocesano, Dom Manuel da Silva Gomes.


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MONS. JOSE QUINDERR





















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D. MANOEL ANTONIO OLIVEI-
RA LOPES, 1.' Bispo coadjutor
de D. Joaquim







DoM JOAQUIM JOSE VIEIRA


A POLfTICA

No inicio desta narraao, aludi a um facto da vida de
Dom Joaquim, referente ao seu afastamento do vicariato de
Campinas, compelido por injung6es political. E' precise es-
clarecer o incident: o entao Padre Vieirinha nao era poli-
tico.
Na Monarquia, as par6quias eram postas a concurso e
os sacerdotes que conquistavam qualquer delays recebiam o
titulo de vigario colado, em caricter vitalicio. PAroco inte-
rino de Campinas, quando esta foi arrolada entire as que
foram a concurso, Dom Joaquim inscreveu-se cor outro
colega, no legitimo empenho de tornar-se efectivo no cargo
que exercia ad nutum. A political sempre estribica interferiu
no pleito: o Impetador aproveitou o candidate classificado
em segundo lugar.
Ao relatar essa passage da sua vida, Dom Joaquim
repetia: fui classificado em primeiro lugar, nao por ser
mais culto que o meu competitor, mas porque uma circuns-
tancia imprevista me favoreceu: caiu, por sorte, o ponto que
versava o "Ocultismo", mat6ria que havia estudado phra
rebater as ideias de um tio, que se entregara A prAtica dessa
magia, pouco conhecida e, por isto, ainda ago explorada
naquele tempo.
Por indole ou por principio, Dom Joaquim sempre se
revelou infenso A political: sem hostiliza-la, viveu arredio das
suas competig6es, de maneira a poder manter-se no mais per-
feito equilibrio entire as facS6es que disputavam a hegemonia
political no Estado.


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Dai o segredo da influencia decisive que exerceu em
todas as classes sociais, a origem do respeito de que se cer-
cara a sua autoridade, da veneraggo e da estima que todo o
rebanho Ihe votava. A sua presenga em qualquer ato ou re-
uniio puiblica atraia a atencgo dos circunstantes pela sim-
patia que se irradiava da feicgo suave da sua pessoa, quase
diafana, pois, alto de estatura e de complei~go franzina, dava
a impressgo de um corpo espiritualizado.
As suas relag6es cor as autoridades foram as mais
cordials. Com os governor, quer provincials, quer estaduais,
depois da Repiblica, manteve sempre a mais perfeita unigo
de vistas, em correspond8ncia ao mesmo acatamento que
Ihe dispensavam, e pelo respeito ao poder constituido dentro
do preceito divino "dai a C6sar o que 6 de C6sar": quod
Caesaris, Caesari.
Entretanto, jamais o empolgavam as sedu~6es do poder.
A oposigao sempre contou corn a assist8ncia do Pastor nas
horas tormentosas da luta desigual. E Dom Joaquim agia
sem alarde, sem a ideia preconcebida- de mostras de inde-
pendencia, mas no cumprimento restrito de um dever pas-
toral. Certa vez, um jovem poeta, quase implume ainda, mas
ja poeta de grande inspiracgo, escreveu violent satira con-
tra o chefe do Estado. Vitima, por isso, de inesperada agres-
sao, recolheu-se, ferido, A residencia do jornalista coronel
Jogo Brigidb, chefe ostensivo da oposigao ao governor. Di-
vulgada a noticia do atentado, Doin Joaquim mandu visitar,
imediatamente, o enfermo, gesto que agradou a toda a cida-
de e mereceu os mais calorosos elogios de toda a imprensa
adversa. Noutra feita, um politico, de pouco destaque, mas
conhecido element da oposigao, pelo ardoroso apego As


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MONS. JOSR QUINDERA







DOM JOAQUIM JOSe VIEIRA


>- 57 -


suas ideias, sofreu uma agressio mais grave que a do pri-
meiro, porque se dizia que ele estaria resolvido a eliminar
.o candidate ao governor, ji eleito e ieconhecido, na hora
precisa de sua posse na Assembleia. Dom Joaquim repetiu o
gesto, visitando a vitima do atentado, por interm6dio de um
sacerdote da sua confianga, mas nessa oportunidade juntou
A obra de miseric6rdia, que praticara, outra maior a da
caridade: enviou ao pobre home certa quantia, por se tra-
tar de uma pessoa reconhecidamente necessitada de auxilio.
Dessas duas ruidosas visits, os seus emissirios foram
o autor deste trabalho e o conego Furtado.
Num e noutro atentado nenhuma interfer6ncia teve o dr.
Aci6li: amigos apressados 6 que promoveram aqueles actos
de selvageria com a maligna intencgo de agradar ao eminen-
'te'chefe da political cearense. Quem teve oportunidade de pri-
var da intimidade do velho estadista sabe que S. Excia., de
indole pacifica e de coracgo magnanimo, era incapaz de
cometer a menor viol6ncia contra os seus maiores inimigos.
No primeiro caso, figurou o jovem estudante Am6rico Fac6,
hoje intellectual e jornalista de larga projecgo na Capital
Federal,. com quem ndo era possivel um chefe de Estado
medir as suas armas; no segundo, o atentado foi contra Ant6-
nio Clementino e se verificou pela ranhd, e o navio em que
viajava o eminente politico, que vinha assumir a supreme
direcgdo do Estado, aportou As prais de Iracema quase A
hora em que devia realiza-se a cerim6nia da posse.
Dom Joaquim, durante a sua administragco, apenas
duas vezes interferiu nos neg6cios politicos do Estado. Publi-
cada a chapa dos deputados para a eleigdo no tri6nio de
1912 a 1915, figurava, entire os candidates, o nome do coro-









nel do Ex6rcito Tomis Cavalcanti, que, por mais de uma vez,
apresentou na Camara um project de lei propondo a extin-
io da legagio braoileira junto ao Vaticano. Dom Joaquim,
debaixo do maior sigilo, foi a palicio avisar ao dr. Aci6li
que iria chefiar um movimento contra a eleicgo de um can-
didato tido e havido como ferrenho inimigo da Igreja.
Tomas Cavalcanti era candidate do general Pinheiro
Machado, imposto ao CearA, como o foi o dr. Flores da
Cunha que, naquele tempo, simples delegado de policia no
Rio de Janeiro, representou o nosso Estado na Camara
Federal. Falhou o prop6sito de Dom Joaquim porque, pou-
cos dias ap6s a sua visit ao Dr. Aci6li, rebentou a revolu-
cgo que o apeou do poder a 24 de Janeiro de 1912. Este
acontecimento modificou, inteiramente, o nosso cendrio po-
litico. Em consequ6ncia desse movimento, Dom Joaquim.
voltou a palacio, mas dessa feita com o fim de convidar o
Dr. Aci6li a renunciar ao governor do Estado, visto como Ihe
parecia nao ser possivel mais abafar-se a revolucgo, que se
alastrava e tomava vulto. A primeira turma do clero estava
recolhida ao Seminirio, entregue aos exercicios espirituais
do retire annual, sob a presidencia do destemido Prelado.
Dali 6 que Dom Joaquim, secretariado pelo c6nego Jodo Al-
fredo Furtado, depois de long percurso a p6, atinge a Praga
General Tibdrcio, sob uma chuva de balas que partiam de
todos os lados. Como ficou dito, o embaixador da paz nada
conseguiu no sentido de fazer cessar a luta sangrenta, que
enlutava a sua querida diocese. Ia S. Excia. deixar o palacio,
onde o0ra fidalgamente recebido, quando, na said, acompa-
nhado at6 o portao pelo senador Francisco Si e Dr. Graco
Cardoso, teve de deter os passes para langar a sua uiltima


MONS. JOSE QUINDERR


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lienao sobre um pobre soldado que caira agonizante, a seus
p6s, varado por uma bala vinda da rua.
No dia seguinte, o Dr. Aci6li comunica a S. Excia. ha-
ver renunciado ao governor do Estado e lamenta nao Ihe hou-
vesse atendido as justas ponderag6es.
Dom Joaquim manda chamar-me a seus aposentos,
ainda no Seminirio, para dar-me a ler a memorivel carta.
Ao receber das minhas m5os tr6mulas o document que tan-
to me comoveu, disse: "Aci6li 6 seu amigo. Guarde essa
amizade como uma j6ia preciosa".
Divulgada a noticia de que o povo desenfreado pre-
tendia agredir a pessoa respeitivel do president deposto e
pessoas de sua familiar, por ocasiio da partida para o Rio,
Dom Joaquim ainda fez a pB o percurso do Semindrio ao
Quartel Federal, afim de acompanhar ao ponto de embar-
que aquela nobre gente, amparada pelo.manto protector da
sua autoridade moral. Y
Naquele mesmo ano, Dom Joguim "enunciiou s suas
fungoes episcopais.

AMOR AO CEARA'

Nos trinta anos que Dom Joaquim viveu entire n6s, rara-
mente ausentava-se da sua querida diocese. A Sio Paulo foi
duas vezes; a Roma, ern1899, para tomar parte no Conci-
lio Plenirio Latino-Americano; ao Recife, em 1908, para
assistir A reuniao do episcopado do norte do Brasil, sob a
presidencia de D. Jer6nimo Tome, Arcebispo da Baia e
Primaz do Brasil. E, finalmente, quando da sua mudanga


DoM JOAQUIM JOSR VIEIRA


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Morvs. JOSE QUINDERE


definitive para a cidAde de Campinas, em 1914. Na viagem
ao Recife, ao convidar-me para acompanhi-lo como seu se-
cretirio particular, ponderou: a sua ausancia nao ira causar
dificuldades A sua familiar? E, no entanto, todas as despesas
do passeio corriam por sua conta. A situacgo econ6mica do
padre era uma obsessdo do seu espirito.
Ningubm atinava que poderoso ima o prendia ao CearA:
havia de ser uma forga oculta de atracqo irresistivel. Nas-
cido e criado em Sao Paulo, o estado lider da federacgo bra-
sileira, pela sua opulncia, pelo seu atordoante progress e
pelo valor dos seus homes pdblicos, nao se compreende
como, se prendeu a uma terra torturada, em tudo inferior e
diferente da sua. Nada o convidava a deixar o seu desata-
viado palicio. Quantas vezes o ouvi repetir: aqui se goza
de um clima ameno e variado. 0 ar brando e fresco, que se
tespira, vem das bandas do mar, atravessa aquelas Arvores,
filtrando-se (apontiava sitio), e nos chega aos pulm6es, ji
purificado..
Dom Antono Alvarenga, bispo de Sao Luis, que em
mais de uma oportunidade veio visitar seu velho amigo e
conterrineo, costumava dizer: Fortaleza 6 a Suiga do ma-
janhense pobre.
Compreenda o leitor: quando descrevo o Ceara sem
atractivos, sem progress e chorao, refiro-me Aquele de an-
tanho, muito melhor, em que todo o mundo era pobre, atW os
ricos, em contrast com o actual, rauito pior, em que todo o
mundo 6 rico, at6 mesmo os pobres. Naquele bom tempo,
todos eram iguais, porque nao havia luxo, nem conforto corn
que o rico pudesse se avantajar ao pobre. Da mesma manei-
ra, hoje todos sdo ricos, porque o pobre, convencido de que


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DoM JOAQUIM JOSE VIEIRA


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de nada se deva privar para viver bem, acompanha o rico,
embora lhe falte o folego e sacrifique o cr6dito, no luxo, no
conforto, na dissipago, no disperdicio e, em tudo mais que
a civilizacao inventou e introduziu no mundo modern, para
torna-lo'irrespiravel.
Parece que Dom Joaquim encontrou na terra em que
veio semear a Verdade evang61ica, o clima propicio a seu
espirito de pobreza e de renuncia, porque s6 assim se explica
a sua predilecgio pelo Ceari, a qual o levou ao excess de
recusar o convite que Ihe fez Monsenhor Apolverini, em
S890, para reger a arquidiocese do Rio Grande do Sul e, em
1897, um id8ntico de Monsenhor Guidi, para a arquidiocese
de Sao Paulo. Monsenhor Apolverini e Monsenhor Guidi
eram representantes da Santa S6, no Brasil, no pontificado
de Lego XIII, em cujo nome falavam.
Na carta pastoral, escrita em 1912, em que comunicou
ao clero e finis a sua renincia e a eleicgo de Dom Manuel-
da Silva Gomes, para substitui-lo, declarou que "por
duas vezes, convidado para ocupar postos mais elevados na
jerarquia eclesiastica, os recusara por amor ao Ceari".
A predileccgo de Dom Joaquim por sua diocese era
non in verbis, sed opere et veritate. .
Apesar de seu grande apego ao Ceari, traia-se, enchen-
do-se de just desvanecimento, quando se referia A grande-
za insofismivel e ao progress incomparivel da terra paulis-
ta: ibique patriae memor.
E Sao Paulo nio esquecia o filho ilustre, distant, con-
siderado entire os que mais alto Ihe elevavam o nome e lhe
guardavam as tradig6es. 0 alvorogo e o entusiasmo que cau-
sou A terra bandeirante a noticia da transfer8ncia de Dom







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MONS. JOSE QUINDERA


Joaquim para aquela sede arquiepiscopal, denunciam o
prestigio e a popularidade do seu nome all, e em qualquer
outro Estado do Brasil. Os pr6ceres paulistas, tendo a frente
a figure veneranda do General Francisco Glic6rio, senador
paulista e chefe de grande prestigio na political national, na-
auela 6poca, prepararam-se para transportar, em um vaso
de guerra, o novo Prelado da terra bergo da nossa inde-
pendencia political. Por isto 6 que Dom Joaquim, na pasto-
ral ja citada, em que apresentou seu substitute, escreveu: -
"ficil e imaginar-se o estremecimento que experimentamos
ao recebermos o segundo convite"... Naturalmente, aludia i
viol8ncia que fez ao coragdo, privando-se do prazer de apas-
centar um rebanho a que pertenceu como simples fiel e de
ieger um clero de que foi membro, como simples padre.


RELAQOES COM O CLERO

Parece que Dom Joaquim tinha inscrito no pensamen-
to e no corago o que a reSpeito da autoridade escreveu Sgo
Bernardo ao Papa Eug6nio III: "o superior deve ver tudo,
relevar muito e castigar pouco". Rector omnia videat, multa
dissimulet et pauca castiget.
Ver tudo 6 vigilancia, relevar muito prudencia,
castigar pouco oportunidade na aplicacgo da pena.
Dom Joaquim exercia uma vigilancia active, ao mesmo
pass discreta sobre o clero, que ndo lhe percebia o olhar,
mas o sentia penetrante na consciincia. Era aquele cuidado
subtil das almas delicadas, que nao humilha, estimula, ao
inv6s, aa cumprimento do dever. Vigilnncia que parte do







DOM JOAQUIM JOSE VIEI-RA


coragao, estabelece a mais perfeita solidariedade entire o
oue govern e o que obedece.
Quem quiser governor para ser obedecido, antes de
tudo deve amar os que lhe sao subordinados, porque o amor
gera o amor, a confianga no superior e o desejo de Ihe servir
bem.
Quem govern sem amar, nao faz amigos, semeia 6dios
c cria subservientes: 6 uma miquina, arrasta, nao conduz.
Dom Joaquim pos em pritica a ciencia de governor,
express na famosa regra de Sao Bernardo: Rector omnia
videat, multa dissimulet et pauca castiget.
S. Excia. amava o seu clero, no que era, plenamente,
correspondido pela obediencia filial que Ihe dedicou, hon-
rando o Pastor pelas suas raras qualidades e pelas excelsas
virtudes que praticava com a maior naturalidade.
Prelado de vasta diocese, que abrangia todo o territ6-
rio cearense, elevada, depois da sua renincia, a arcebispado
cor tr6s bispos sufragAneos, num long period de admi-
nistraggo poucas vezes houve de aplicar penas can6nicas a
qualquer dos seus padres.
Na carta pastoral em que comunica ao clero e aos fi6is
a sua renincia ao governor do bispado, 18-se: "Quem gover-
wa nao raro 6 obrigado a contrariar- alguns para salvaguar-
dar a pureza da f6 e os principios da moral. Mas quando
6ramos obrigados a usar de algum rigor com os nossos ir-
m0os no sacerd6cio, sofriamos, porventura, mais que eles
porque, por caricter, somos mais propenso a perdoar que
a punir".
Foi, pois, com grande. constrangimento que privou do


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uso de ordens a dois ilustres e virtuosos sacerdotes, na fami-
gerada questAo religiosa do Juazeiro, para anos ap6s ter de
agir contra dois outros, por se haverem imiscuido em poli-
tica, num moment inoportuno de agitaggo e desenfreamen-
to popular, depois do movimento armado que afastou do
Ceari seu governador e do partido dominant o seu chefe,
o Dr. Nogueira Aci6li, que sofreu, no Ceara, a mais vio-
lenta oposicgo que ji se fez a um politico, considerada hoje
injusta por seus maiores inimigos. Era ele um pr6cer que
figurava entire os primeiros homes piblicos brasileiros da
sua 6poca.
A hist6ria ji comeca a fazer justiga ao benem6rito
cearense. as suas virtudes morais e civicas crescem e fulgem
. media que o tempo recua.
Naquela hora incerta da sua vida, tinha direito ao
respeito e i considerago dos homes sensatos da sua terra.
Assim, por6m, ngo pensou o respeitivel sacerdote, ji avan-
.ado em idade que, num dos puilpitos sagrados desta cidade,
fez acerba critical ao velho politico e a sua respeitavel fami-
lia, cristg e nobre, que, na v6spera, embarcara para o sul sob
o peso de inopinado inforttnio. O padre, estrangeiro e per-
tencente a uma Ordem religiosa, desligado, portanto, de
qualquer interesse local, nenhum motivo tinha para justifi-
car a sua estranha attitude contra pessoas que, nem sequel,
conhecia. Dom Joaquim, num instant, providenciou o seu
afastamento do meio viciado, que o dominara de maneira
tio violent, privando-se, embora, da cooperaggo eficiente
de um sibio te6logo.
O outro, mogo, ainda, sem pr6via licenca, deixou de
pronunciar o sermao de quinta feira da semana santa, que


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MONS. JOSe QUINDERP







DOM JOAQUIM JOSi VIEIRA


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]he fora designado, para incorporar-se a uma caravana de
propaganda political pelo interior do Estado.
De volta, compareceu h presenga do Prelado, para
ouvir a declaragdo de que estava suspense de ordens. Senhor
Bispo, ponderou a censurado: nao sei que impressio ira
causar ao povo a noticia da pena a mim imposta. Compreen-
dendo a ameaga velada que se Ihe fazia, Dom Joaquim re-
darguiu en6rgico: Padre, neste mundo s6 temo o pecado.
Esti suspenso...
Foi, de facto, lamentivel que, depois de vitorioso o mo-
vimento, padres, atW entgo desconhecidos como politicos, en-
trassem numa campanha contra um vencido que, durante a
sua administracgo, na chefia do Estado, sempre cumulou o
clero. de ateng6es, devotando-lhe o maior acatamento e
iespeito. E vem a prop6sito referir um facto que p8s em
realce esta afirmativa: o Dr. Acioli recebeu do Rio, um tele- '
grama, no qual Ihe comunicava haver abandonado a batina
nm sacerdote do clero cearense. Ante a dura realidade, o ve-
Iho estadista s6 tove um gesto: mandou demitir o signatArio
do telegrama, da cadeira que ocupava no Liceu, sem aten-
der A sua qualidade de correligionario, coriterrAneo, pois era
natural do Ic6, e amigo particular de.sua familiar.
A mansidao de Dom Joaquim era uma consequencia da
confianga em sua autoridade, como o era da energia a sua
serenidade. Egresso do hospicio de alienados certo louco,
conhecido pela sua forga hercilea e inominivel violencia,
penetrou um dia o palacio, armado de um martelo, disposto
a tudo destruir. Dom Joaquim desce dos seus aposentos, en.
frenta o perigo e, como se falasse a uma crianga travessa,
ordena que Ihe restitua a arma que tinha nas mdos. Diante







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MONS. JOSE QUINDERR


daquela figure branca e frigil como uma h6stia, Tertuliano,
sem opor a menor resistncia, se desfez do perigoso instru-
mento, sem articular uma palavra. Repetiu-se a cena do lobd
de Gubbio e Sgo Francisco.
La fora, uma turma dobrada de policiais, a custo, do-
minou e prendeu o furioso louco.
A' sua natural austeridade, o grande bispo aliava a
mais doce ternura no trato com o clero e cor os finis. Apesar
disto, ningu6m Ihe tomava a intimidade. Costumava jejuar
com o clero de Fortaleza, na quinta -feira da semana santa.
Depois do repasto, realizado sempre com a maior cordiali-
dade, oferecia a cada conviva um cigarrito. Acendia o que
se reservava e mandava que todos o imitassem; mas os que
ousavam faz8-lo, por sua insist8ncia, fugiam do ambiente ou
fingiam que fumavam.
O palicio era o centro de atraccgo de todos os padres,
que M iam, mesmo que nenhum neg6cio houvessem a tratar:
era o local certo, Ande quase todos se encontravam dia-
riamente.
Dom Joaquim gostava de que os padres do interior fos-
sem seus h6spedes. para ter a oportunidade de sentir as mes-
mas necessidades, as consolag6es, as dificuldades desses
obreiros desconhecidos, da formacgo moral das massas, mal
compreendidos e mal recompensados; esses infatigiveis des-
bravadores'dos campos, em que, por toda parte, se semeia
e se cultiva a sementeira do Bern.
O piroco tern raizes no chgo como o camp6nio. NMo
:m estranho. Geralmente pobre, pois quase sempre 6 de fa-
milia modest, conhece bem a vida dos que ganham o pio
cor o suor do rosto. Nao teme o trabalho nem a mis6ria.







DOM JOAQUIM JOSE VIEIRA


bravadores dos campos, em que, por toda parte, se semeia
e se cultiva a sementeira do Bern.
O paroco tem raizes no chio como o camp6nio. Nao 6
c:m estranho. Geralmente pobre, pois quase sempre 6 de fa-
milia modest, conhece bemr a vida dos que ganham o pdo
cor o suor do rosto. Nao teme o trabalho nem a mis6ria.
Por muito elevadas que sejam em si as fung6es sacerdotais,
o paroco nao deixa de aproximar-se das suas ovelhas pela
semelhanca de gostos e ocupag~es. A casa do paroco 6 o
asilo acolhedor dos pobres e dos aflitos que Ihe conhecem o
caminho.
Dom Joaquim, por compreender perfeitamente que
uma par6quia por melhor que. seja, 6 sempre um calvario,
e o paroco, por pior que seja, e sempre a vitima que se
imola, a cada moment, pelas almas que 1he sgo confiadas,
c que dispensava a seus cooperadores imediatos toda a con-
sideraggo e os cercava de todo o prestigio de que era capaz.
Inacessivel A delacgo, dificilmente cria nas dendncias,
que Ihe chegavam contra qualquer padre. Para tomar a pro-
vid6ncia que o caso, por ventura, exigisse, era precise que a
queixa Ihe nao causasse a menor divida. Certa vez, mandou
que um delator escrevesse e assinasse o que, oralmente,
arguia contra um vigArio. Pela negative, descobriu a mali-
cia da intriga. Algu6m Ihe mostrou tremenda objurgat6ria,
publicada em um journal contra determinado sacerdote. Ja
li, responded. E' um padre exemplarissimo esse, pois, viti-
ma de tantas injfirias, nenhuma alusgo se faz A sua vida par-
ticular. De facto, esse 6 o alvo preferido das setas da malda-'
de humana 6 o calcanhar de Aquiles dos ministros de
Deus.


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MONS. JOSE QUINDERE


Infenso que era As costumeiras intrigas em que, cons-
tantemente, se envolvem os eclesiAsticos, procurava anular
a acqo dos inimigos impalpaveis, dando prestigio aos pa--
dres nas fun6es que exerciam, mesmo as menos destaca-
das. Por maior e mais intimo que Ihe fosse o amigo, preferia
,o padre, por mais modesto que fosse.
Se o pobrezinho eriava, procurava,acomodar as coisas
de maneira a nao Ihe tirar o estimulo.
O vigario de certa par6quia de Fortaleza pediu a seu
coadjutor para presidir A sessao de uma irmandade, na qual
se ia resolver um caso pertinente A economic internal da
mesma, e contra o qual o vigirio se insurgira. O coadjutor
de nada estava sabendo. Aberta a sessao, explanada a mat6-
ria para a discussAo, o director "ad hoc" tomou a posic5o
contriria a maioria das senhoras presents. A sessao tor-
nou-se tumultuiria, os animos se exaltaram.
O padre, jovem e inexperiente, nao podendo manter a
ordem, bradou: esti suspense a irmandade. Depois reflectiu
e verificou que praticara uma arbitrariedade de graves con-
sequencias.
Corre, angustiado, ao palacio para avisar ao senhor
Bispo o que havia feito. Menino, nio podias suspender a ir-
mandade, que 6 acto episcopal. Devias ter levantado a ses-
sao. Mas esta suspense a irmandade. E nao houve jeito, nem
empenho, nem pedido que fizesse Dom Joaquim voltar
atris.
S6 depois de algum tempo, quando as coisas estavam
calmas, 6 que mandou, inesperadamente, o VigArio geral
levantar, pessoalmente, a interdiggo e celebrar a primeira
missa de conc6rdia no altar do padroeiro da irmandade.


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DoM JOAQUIM JOSR VIEIRA


Dom Joaq'uim procurava entrar em intimidade cor
seus padres, para conhec8-los e melhor julga-los. Cor esse
objective, deu ordens ao Reitor do Seminario que Ihe man-
dasse, aos domingos, dois te6logos para Ihe ajudarem a mis-
sa, na capela episcopal. Depois do acto religioso, fazia a
sua primeiia refeiaio cor os seminaristas, que se revezavam
todas as semanas, e cor os quais conversava paternalmente.
Dom Joaquim era human e, como tal, nao podia fugir
As exig8ncias da pr6pria natureza. As tendencia do coraqdo,
6s vezes, sao irresistiveis, e' foi ao senti-las imperiosas, den-
tro de si, que Terencio, c6lebre poeta latino, reconhecendo-
se home, escreveu que nada de human Ihe era estranho:
Homo sum, human nihil a me alienum...
Formado da mesma argila de que os outros homes o
sao, o inolvidivel bispo foi passivel de preferencias e re-
servas. Entretanto, jamais se deixou levar por seus senti-
mentos pessoais no cumprimento do dever pastoral. Se al-
gu6m Ihe percebia a predilecgio, dela nio se envaidecia,
como modificava o conceito o que se julgava A margem, por-
que tudo se aclarava na distribuiqdo da justiqa.
Na reunigo do episcopado do Norte, realizado no Re-
cife em 1908, ficou deliberado que, no tri6nio seguinte, a
reuniao seria em Fortaleza.
De fa'cto, em Agosto de 1910, aqui se encontraram to-
dos os bispos das dioceses de Manaus a Baia, inclusive o Ar-
cebispo Primaz. Entre eles figurava o eminente'bispo de
Olinda, D. Luis Raimundo da Silva Brito. Quase todos os
prelados vieram desacompanhados de secretarios. A este/ e a
maioria dos congressistas prestei alguns obs6quios, que
muito os sensibilizaram.


- 69 -






MONS. JOSE QUINDERP


De volta A sua diocese, D. Luis solicita do seu veneran-
do colega do Ceard permissao para conferir o titulo de
c6nego honoririo da Se de Olinda a determinado sacerdote
do clero cearense.
Dom Joaquim manda chamar-me e pedb-me o favor de
passar uma carta a limpo. A letra, como sempre, ilegivel,
mas eram-me familiar aqueles hieroglifos, pois desde semi-
narista Ihe vinha prestandol esse servico, na qualidade de seu
secretirio particular.
A carta, cujo assunto- at6 entao de mim desconhecido,
era uma resposta negative a consult que he. fizera D. Luis,
sob a alegagio de que era jovem o candidate (contava
apenas 28 anos) e dos poucos servigos pelo mesmo prestados
a Igreja. Ao terminar a tarefa, D. Joaquim procurou expli-
car-se, afirmando que o titulo seria para mim ocasigo de
muitos aborrecimentos e de comentarios entire os mais velhos,
que se achariam com mais direito Aquela dignidade. Beijei-
ihe o sagrado anel e, sem mostras de contrariedade, ia-me
fazendo ao largo, quando ougo: Volte. Pensei... tera se ar-
rependido? Venha completar o favor. Faga o sobrescrito da
carta.
Creia, leitor: o golpe feriu profundo a minha sensibi-
:idade moral, mas, em compensagao, a firmeza, a afeigao e
o raciocinio com que agiu o Superior cavaram-me, no cora-
co, uma nova fonte de estima e de respeito acrisolado ao
homem mais sincere e leal que ji conheci.

DOM JOAQUIM NA INTIMIDADE

Ap6s as solenes cerim6nias litirgicas da chegada e pos-


- 0 -











UM ANNIVERSARIO ..

Complete hoje 57 .
annos de uma exis- Isi. "
tencia toda consagra-
da a literature as -
tronomica e as func-
f6es arduas, por6m
honrosas, de portei-
ro do Palacio Archie-
piscopal o popularis- -
simo pensador cea-
rense sr. Manuel C.
da Rocha, autor de
varlos apreciados o- -
pusculos de "Maxi-
mas e Pensamentos",
um dos quaes dedi- I
cado "a todos os por-
telros e eiras do U- I
niverso" (seus cole-
gas) e outro "A mi-
nha ex-mle" (por-
que JA e falecida).
Pela manha de
hoje, documentando
mais uma vez a sua
originalidade, o an-
niversariante veiu A
nossa Redaccio dei-
xar-nos uma caixa
de phosphoros cheia
de coupons da "Cea-
ri Tramways" para
os pobres de S. Vi-
cente de Paulo.
Duvidamos que
haja quem corn mais
effusio de alma feli-
cite hoje o Manezi-
nho agradecidos que '
somos pela preferen-
cia que elle di ao
"Correio" para a di- o
vulgagio dg suas .
muito series cogita-
vSes literarias.

)o "Correlo do
Ceara" de 12-5-1923.




MANEZINHO DO BISPO






DOM JOAQUIM JOSE VIEIRA


e da diocese, ao penetrar o palacio episcopal, o novo bispo
ali encontrou, residindo, o padre Francisco de Assis Pinhei-
ro. Este sacerdote, natural de Minas, aqui veio atraido pela
fama do clima, que se dizia favorAvel A cura da enfermida-
de de que era vitima. Era sabido que o padre Chiquinho,
como vulgarmente o chamavam, era para ter viajado em
companhia de D. Luis, o que nao Ihe foi possivel realizar,
por haver tido nas v6speras da partida uma das crises do
mal que Ihe arruinava a saide. Mesmo assim enfermigo,
atravessou toda a administracgo do primeiro bispo e parte da
do segundo, a cuja sombra veio a falecer, ultra-septuagenA-
rio, depois de 43 anos, bem vividos, na terra que escolheu
para morrer velho.
O padre Chiquinho, de compleigqo d6bil, nao podia
prestar ao novo prelado qualquer servigo pessoal, senio o da
boa conviv8ncia, que parecia deliciosa, pelas suas maneiras
exteriores.
Se pelo semblante se conhece o home, como afirma
e Sagrada Escritura, pelos tragos do rosto o que e sensato:
ex visu congnoscitur vir et ab occursu faciei cognoscitur sen-
satus est, a sentence biblica bem se podia aplicar Aquele
grande sacerdote de pequenina estatura. Homem de f6 e
ardente zelo pelas almas, procurava preencher as possiveis
lacunas do seu minist6rio sacerdotal cor alguns trabalhos
em proveito da piedade dos fi6is e das suas enfermidades
corporais.
Cor esse prop6sito, dirigia o Apostolado da Oraggo da
Catedral, ao mesmo tempo que era o director geral da mes-
ma associagio em toda a diocese, funcgo que lhe tomava
quase toda actividade. Era capelao da irmandade de Sao


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Luis de Gonzaga, que fundara e dirigia na mesma igreja e,
ocupava o cargo de fabriqueiro da S6. E, finalmente, entre-
gava-se ao ao servigo de redacgio e direccgo do hebdomadi-
rio cat6lico "A Verdade", de que era fundador e distri-
buidor. E ainda Ihe sobrava tempo para cuidar dos pobres,
que o procuravam a toda hora, para receitar-se e receber os
rem6dios, que ele tudo resolvia com a aplicago da inocente
homeopatia.
Dom Joaquim deixou o companheiro entregue As suas
ocupag6es predilectas, consentaneas com as suas possibilida-
des fisicas. Ngo costumava desviar padres do minist6rio
sagrado para se darem a ocupag6es que outros podiam to-
mar. Na Cimara eclesiastica, por exemplo, havia um s6
sacerdote, que exercia o cargo de secretArio, sendo as fung6es
de escrivdo e encarregado do registo de documents, e arqui-
vo confiadas aos professors aposentados Manuel Jorge
Vieira e Tristgo Pacheco Spinosa, homes de bem a toda a
prova. Os patrim6nios de Sdo Jos6 e de Nossa Senhora do
Rosario eram dirigidos pelos respeitAveis ancigos Arcd-
dio de Almeida Fortuna e Licinio Nunes de Melo. Esti ai
por que Dom Joaquim procurou uma pessoa que Ihe servis-
se a si e, ao mesmo tempo, A casa, em outros misteres indis-
pensiveis. A escolha do candidate recaiu em Manuel Caval-
cante Rocha, mogo solteiro, celibatirio, um tipo singular,
magro, feio, desajustado e cheio de momices, mas rico de
virtues e das qualidades essenciais a um fimulo de casa re-
ligiosa, sem os atractivos da rua e onde cheira incenso e
impera o silencio.
O novo serventudrio seria sacristgo, copeiro, esmolr e
porteiro de palacio. Dom Joaquim deu-lhe uma batina, a


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qual s6 podia usar quando Ihe ajudasse a Missa, ou o acom-
.panhasse nas visits que tinha o hibito de fazer As pessoas
das suas relag6es. O povo logo atribuiu A estranha figure o
apelido de "Manezinho do bispo", alcunha que Ihe ficou
bem e o acompanhou A sepultura. Ainda hoje Manizinho do
Bispo 6 lembrado.
O ridicule aparente que envolvia aquele mogo, com
aspect de velho, vestido de sotaina, nio atingia a dignida-
de da pessoa a que ele acompanhava: o desalinho do fAmu-
]o era a sombra que dava relevo ao quadro que emoldurava
a humildade e a simplicidade do Pastor.
Manezinho fez-se fil6sofo e astr6nomo, e entdo encheu
os jornais, que Ihe disputavam a estravagante colaboracgo,
de mdximas e pensamentos, assim concebidos: "0 home
que nao ama a sua pAtria 6 um boc6rio comedor de banana
com rapadura". "Quem quiser conservar a fruta em bom
estado, ndo tire a casca, assim os bons escritores em suas
capas e envelopes derramam perfume pelo contefido que
busca as virtudes encapadas na inocente mod6stia". "E' um
grande martirio trabalhar avexado, corn especialidade na
literature, que faz escaldar a cabega". "A inveja matou
Caim e 6 das piores cousas para mim pobre escritor".
Em astronomia, comparou o firmamento corn uma casa
de familiar, cujo sol 6 o pai, a lua a mie, as estrelas a filha-
rada.
Ainda mais: "o dia mais comprido quando da 6 ho-
ras da tarde e o sol ainda estd visivel, o bom rel6gio dando
6 horas da manhi e o sol nao tendo apontado 6 bom sinal
que a noite foi comprida e muito enfadonha para os que nao
oraram". "Os segredos da "Astronomia Nova" estgo no






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emblema e nas tres escadas, 6 preciso estudar cor atengdo
para melhor se poder 'compreender as ciencias de planets
luminosos, intitulados sol, lua e estrelas".
Ia, As vezes, dar aulas de astronomia aos seminaristas.
Eram horas delirantes de alegria para a meninada, em re-
creio.
Jd hoje os folhetos de Manezinho do Bispo constituem
obra rara e procurada.
Dom Joaquim, corn aquela gravidade que lhe era na-
tural, nao tolerava a actividade ridicule do seu servigal, no
campo literirio. Um dia chamou-o e Ihe proibiu continuar
a escrever. Pagou-lhe as despesas que ele fizera corn a publi-
cagdo dos tais folhetose ordenou que os queimasses ime-
diatamente. Mas Manezinho, na maior calma, prosseguiu
com seu comercio de livros. Dom Joaquim interpelou-o a
respeito.
0 escritor explica-se: V. Excia. nao mandou que os
queimasse? Estou vendendo a baixo prego os meus livros.
Manezinho nao fez blague: cumpriu a ordem, ao p6 da letra,
comercialmente.
Dom Joaquim, comentando o facto, sem acrimonia,
disse: Manuel 6 um bom homem,*honesto, puro de costumes,
paciente cor os pobres, mas 6 espoleteado. De facto, Man&-
zinho exercia com edificante paciencia o oficio de esrrol6r
do pol6cio. De aspect ing6nuo, era, ao contrArio, egoista e
sabido.
Quando servia A mesa, ia, jeitosamente, afastando dos
comensais os pratos que mais Ihe apeteciam. Fez-se herdeiro
do estojo homeopitico do padre Chiquinho e da habilidade
do santo velhinho em ensinar rem6dio. E sem entender do






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oficio passou a exercer a medicine, a torto e a direito, entire
os pobres.
Ap6s a sua renincia, Dom Joaquim passou a residir no
pr6dio que pertencia A Unido do Clero, A Avenida D. Ma-
nuel, o mesmo em que, actualmente, se instala o grupo esco-
lar Cl6vis Bevilaqua.
Manezinho nao o quis acompanhar. A' pessoa que lhe
criticou a fria ingratidao, o velho famulo responded: o meu
lugar 6 aqui. Ele 6 que se foi embora. E ficou no palacio,
meio imprestivel, at6 morrer A sombra da caridade de D.-
Manuel.
Com o falecimento do padre Chiquinho, Dom Joaquim,
sentindo-se s6, pediu ao Reitor do Seminirio, o padre Jfilio
Simon, que lhe mandasse um aluno do curso superior para.
servir-lhe de companheiro.
A indicago do meu nome causou-me certa surpresa:
a austeridade da funcgo que me era designada colidia com
o meu temperament: era eu dos mais alegres seminaristas.
Entretanto, diga-se de passage, jamais, por isto, re-
cebi a menor admoestaggo, nem o meu direito de rir e fazer
lir aos outros sopu qualquer restrigo.
Acolhido,'paternalmente, pelo inolvidAvel Bispo, afiz-
me ao meio, adaptei-me, perfeitamente, Aquele ambiente de
solidao, a que eu era completamente estranho. E ali perma-
neci at6 o dia da minha ordenagao sacerdotal, aos trinta de
Novembro de 1904.
Dom Joaquim .era, por indole, social e comunicativo,
apesar da gravidade das suas maneiras.
Entre as narrativas que ouvi dos seus labios, a que mais
me impressionou foi a da vocagao de D. Jodo Bapfista Cor-






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MoNS. JOSE QUINDERA


reia N6ri, primeiro bispo de Campinas. D. N6ri foi um gran-
de Prelado e, entire os maiores filhos que ilustram a galeria
paulista, figure o eminente bispo, que 6 tamb6m uma gl6rid
da Igreja, de cuja nobreza fez parte, com o titulo de Conde
romano.
Contava Dom Joaquim que o menino Joao N6ri Ihe re-
velara o desejo de ser padre. Pensando que aquilo fosse efei-
to do meio religioso em que ele vivia, pois era seu afilhado
e ajudante de missa, nao quis de logo crer naquela vocag~o.
Passados alguns anos, quando Joio N6ri, em plena mocida-
de, ji era escritor e dramaturge, escolheu o moment em
que a gl6ria humana Ihe sorria, para perguntar-lhe se per-
severava no prop6sito de seguir a carreira eclesiastica.
Aquela oportunidade a que se referia Dom Joaquim foi a em
que o mogo deixava o teatro da sua terra, ovacionado, cer-
cado de amigos pelo brilhante 8xito da representacgo da sua
primeira pega teatral. Com a resposta afirmativa, Joao Neri,
poucos dias depois, internava-se no Semindrio 'de Sao Paulo
para ser o que um sacerdote altamente conceituado.
Nao estacionou no primeiro degrau da jerarquia
eclesiastica, pois logo foi elevado a dignidade superior de
bispo da diocese espiritosantense, onde pouco se demorou,
por ter sido transferido para o novo bispado de Campinas,
sua terra natal. E, assim, teve a supreme ventura de ponti-
ficar na mesma igreja a que serviu, outrora, como simples
ac6lito nas cerim6nias do culto.
Seduzido pelo encanto de uma reuniao que se fazia,
todas as noites, no palicio episcopal, um grupo de amigos
de Dom Joaquim ali se congregava em torno da sua pessoa
grave e atraente, especialmente pela simplicidade com que






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se apresentava para receb&-los. S. Excia. aparecia, exibindo
apenas a cruz peitoral, sem faixa, sem meias, calgando uns
chinelos leves, os quais deixava no soalho, corn os p6s sus-
pensos sobre os mesmos, batendo um contra o outro. De vez
em quando, acendia um cigarro de palha, que ele mesmo pre-
parava, em meio A palestra sempre animada e cordial. As-
sim mesmo, desataviado, nada perdia da sua dignidade: o
respeito e a veneragao cor que todos o acolhiam era como
se estivesse revestido dos paramentos pontificais, de mitra
e biculo.
Numersos eram os seus amigos, mas a presenga dos
inesmos variava, cada noite, de n6mero e pessoa. Do tempo
em que residi no palacio, v -m-me a lembranga os nomes do
desembargador Paulino Nogueira, dr. Epaminondas da
Frota, dr. Francisco de Assis Bezerra de Meneses, dr. An-
selmo Nogueira, dr. Joio Nogueira, dr. Virgilio de Morais,
40r. Eduardo Salgado, dr. Ant6nio Augusto de Vasconcelos,
dr. Francisco Barbosa de Paula Pessoa, Barao de Studart,
e diversos outros amigos de reconhecida cultural, como Jilio
C6sar da Fonseca, Jos6 Albano e Felino Barroso.
Al1m destes nomes citados, eram assiduos fraquentado-
res de notivel roda os senhores Bargo do Camucim, Jose
Meneleu de Pontes, Licinio Nunes e Arcadio de Almeida
Fortuna, cidadAos de comprovada probidade e da mais alta
posigdo social; e alguns venerandos sacerdotes do clero de
Fortaleza. De todos, o coronel Felino Barroso 6 o uinico
sobrevivente; hoje ultra centendrio, reside no Rio, no gozo
pleno das suas faculdades mentais, ao lado do filho, o ilus-
tre escritor brasileiro Gustavo Barroso, que, na meninice, is
vezes acompanhava o pai Aquela memoravel tertilia. E,









como representante do Ceara, na CAmara Federal, fez, com
outros da bancada paulista, o necrol6gio de Dom Joaquim,
falecido naquela 6poca.
As 8,30 Manbzinho vinha avisar que o chi estava pre-
parado. Mas, que chi? Algumas bolachas, xicaras desencon-
tradas e um pouco de manteiga. Dom Joaquim olhava aquilo
com a naturalidade de quem estivesse a oferecer a seus
comensais uma ceia lauta. Depois daquele ligeiro repasto,
a roda se desfazia. Um dia, o desembargador Paulino No-
gueira, edificado com tamanho desprendimento, me segre-
dou ao ouvido: "este chai a minha oracgo da noite".
Dom Joaquim era emotivo, em flagrante contrast cor
a sua reconhecida austeridade.
Nao podia ouvir a narrative de um acto de heroismo ou
de generosidade, nem assistir a qualquer cena ou cerim6-
nia que Ihe ferisse a sensibilidade, sem se comover e chorar
E, ao repetir o que ouvira contar ou presenciar com os pro-
prios olhos, as palavras Ihe caiam dos libios tr6mulos, hfi-
S/ midbs de lhgrimas.
Certo dia, um grupo de exaltados invadiu, para des-
truir, uma casa commercial, fronteira A em que ele morave
depois que se retirou do palicio episcopal. O pretexto para
justjficar aquela inominivel violencia era pertencer A
political contraria A do Governo do Estado o proprietirio da
casa assaltada. Esse facto, que parece incrivel, passou-se
mais ou menos em Fevereiro de 1914, poucos.dias antes de
iomar posse da interventoria federal do Ceara o coronel
Setembrino de Garvalho, encarregado, pelo Presidente da
Repfblica, de fazer voltar o Estado ao regime da ordem,


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MoNS. JOSS QUINDERR









profundamente alterada pelo movimento revolucionario do
Juazeiro.
Dom Joaquim, ao contemplar aquela devastacgo selva-
gem numa propriedade particular, chorou por Ihe nao ser
possivel socorrer a vitima, a sua familiar em desespero, e
defender-lhes os bens atirados a rua, entregues A mais desen-
freada rapinagem. A vitima de tdo inauditos vexames ainda
vive: 6 o senior Jodo de Sa Cavalcante, genitor do monge
beneditino D. Jer6nimo de Sa Cavalcante, do Mosteiro de
S. Bento, da cidade do Salvador.
Nao podia deixar de ser tecido de fios tenuissimos um
coragdo sensivel assim. A delicadeza era um atributo ineren-
te A sua alma, oculta A flor de um rosto calmo e en6rgico.
Mas, certa vez, excedeu-se em benevol6ncia. A uns traba-
Ihadores, que procediam A limpeza da pracinha fronteira ao
palAcio, mandou chamar para dar-lhes uma merenda. Mais
grde, um delegvoltou para Ihe pedir certa quantia por em-
pr6stimo. Achou estranha aquela liberdade e ponderou: a
autoridade nio pode inclinar-se demais para o vulgo, por-
que este nao apanha o sentido de certas liberdades.
Aquela delicadeza, por~m, Ihe saia do coragao, como
da plant sai a flor, espontaneamente: nao conhecia 6bices.
Aos domingos, fechadas as portas da secretaria eclesi-
astica, um manto de tristeza envolvia o ambiente palaciano:
o santo Bispo recolhia-se a seus aposentos, no primeiro an-
dar, Manezinho entregava-se, invarihvelmente, a leitura da
Hist6ria Sagrada, em voz de cantochdo, aumentando a me-
lancolia da casa. Nao podia, nem me queria servir da com-
panhia: andava macambdzio, sentindo-se diminuido com a


Dom JOAQUIM JOSA VIEIRA


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Mows. JOSE QUINDERE


prefer6ncia que seu patrdo dava ao seminarista, levando-o
como secretario nos seus passeios costumeiros.
Para remediar aquele isolamento, Dom Joaquim pediu
ao Reitor do semindrio que mandasse outro seminarista pas-
sar, no palacio, os dias feriados. O Sousa, meu colega de
ano e inico de ordenacao, era sempre o indicado para aquele
fim. )Este meu condiscipulo 6 o mesmo Monsenhor Francisco
Silvano de Sousa, reitor do seminario e vigArio geral da
diocese de Pelotas, que, por duas vezes, recusou a mitra de
dois bispados do sul. Monsenhor Sousa, antes de deixar o
Cear6, foi professor da antiga Escola Normal e do Semini-
rio de Fortaleza. E constituiu um dos grandes vultos do clero
national.
Quem, jamais, p.de veneer Dom Joaquim em generosi-
da'de? No dia seguinte ao em que me conferiu as ordens
sacras, assistiu a minha primeira missa, celebrada na igreja
do Col6gio da Imaculada Conceiggo, sem qualquer aparatQ
pontificial. E, na cerim6nia do beija-mio, que se segue as
missas novas, foi ele o primeiro a aproximar-se do neo-sacer-
dote para depor, como simples fiel, o 6sculo simb6lico nas
mios que, pela primeira vez, tocavam o corpo de Jesus sa-
cramentado. E, as 11 horas, abria o refeit6rio do PalAcio
para o almogo que oferecia-a familiar do novo padre e as
pessoas que ele mesmo escolheu e convidou para tomarem
parte naquele inesquecivel agape.
Dessa passage da minha vida, a maior, porque nun-
ca mais experimentei emocgo igual, guard de mem6ria e
no corago o brinde que o padre Rodolfo Ferfeira da Cunha,
ainda muito jovem, dirigiu a meu pai, aplicando-lhe o nune
dimittis que o profeta Simego pronunciou ao receber o Me-


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nino Jesus, dos bravos de Maria Santissima: "agora, Senhor,
posso morrer: meus olhos ji viram o Salvador". E, trinta
dias depois das alegrias da minha ordenagao sacerdotal,
meu pai entregava a alma a Deus, com 87 anos de idade.
S40 conhecidas e bem lembradas pelos protagonistas
as diabruras que praticavam, quando criangas travessas, na
chacara do palicio episcopal: pulavam o muro, invadiam o
Eitio, sem temor e sem obsticulos. Pressentidos, eram chama-
dos A presenga do dono da casa para ouvirem sempre a mes-
ma recomendagao: comam as frutas maduras, nao estra-
guem as verdes, nem atirem pedras nos pissaros. Carlos
Braga e Oscar Barbosa eram, entao, os chefes da turma inva-
sora. E hoje, passados tantos anos, comentam corn os com-
panheiros vivos do bando vadio os bons e saudosos momen-
tos passados na chacara do Bispo, cuja imagem lhes ficou,
como a de um santo, gravada na retentiva, indelevelmente.
J Poucos meses antes de renunciar As suas fung6es dio-
cesanas, resoluggo que a ningu6m revelou, Dom Joaquim me
disse: JA fiz as minhas disposig~es testamentairias. Voc8 vai
herdar as fivelas de ouro. Peqo licenga para usa-las, enquan-
to estiver no governor do bispado. De facto, m'as entregou
logo que se recolheu A vida privada.
E que testamento seria aquele? Aberto, depois do seu
falecimento, o que foi que la se encontrou? Poucos objects
de uso episcopal: o bdculo destinado ao bispo de Botucatii,
a cuja jurisdigao esti sujeita Itapetininga, a sua cidade
natal; a preciosa cruz peitoral, dAdiva da baronesa D'Avila,
na 6poca da sua sagragio, A Santa Casa de Campinas; o anel
pontificial para seu afilhado, D. Jogo N6ri; e dois an6is
simples, sendo um para o antigo mestre de cerim6nias do


DOM JOAQUIM JOSE VIEIRA


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s6lio, Mons. Vicente Macaiba, que Ihe serviu tamb6m como
secretirio do bispado, e 0 outro, que tinha gravado na ame-
tista a imagem de Nossa Senhora das D8res, para o Mons.
Liberato D. da Costa, muito devoto dessa invocacao da San-
tissima Virgem e um dos seus mais dedicados amigos. De
todos esses herdeiros resta um finico sobrevivente o que
guard de lembranga a preciosa reliquia das fivelas.
Desprendido ao extreme, Dom Joaquim, por mais que
prochrasse ocultar os seus m6ritos e qualidades, mais real-
cavam elas em sua pessoa. A virtude 6 como a luz: onde
aparece, brilha. Tendo influencia decisive nos meios sociais
e politicos de Sio Paulo, jamais disso fez praga.
Quando correu a noticia de que os jagungos revolucio-
narios do Juazeiro invadiram a cidade de Fortaleza, o inter-
%entor Setembrino de Carvalho recebeu instrug6es do entgo
Ministro da Justiga, o dr. Herculano de Freitas, genro do
senador general Francisco Glic6rio, para cercar de todas as
garantias a pessoa do amigo do seu respeitivel sogro. Dom
Joaquim, anjo tutelar do Cear6, ndo precisava daquelas me-
didas de seguranga, pessoal: era ele o maior amparo, a
maior garantia da cidade ameagada. Entretanto, prevaleceu-
.e da evid8ncia do seu nome, naquele moment de apreen-
s6es colectivas, para ir ao Quartel federal e voltar trazendo
seu afilhado, Ildefonso Albano, genro do president deposto,
que ali se encontrava detido.
A maneira altamente cordial com que foi recebido pelo
chefe do Governo e oficialidade present A recepgio do des-
remido Bispo; as continencias militares que Ihe foram pres-
ladas, revivendo as que, na Monarquia, eram atribuidas aos
bispos, que gozavam das prerrogativas de principle, causa-


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DoM JOAQUIM JOSE VIEIRA


ram-lhe tal e tamanha emocgo que, por uns instantes, teve
os passes embargados.
O c6nego, depois Monsenhor Jogo Alfredo Furtado,
entio cura da cathedral, que o acompanhou naquela memo-
ravel visit, o amparou nos bragos.
0 general Pinheiro Machado, chefe da political internal
do pais, era um dos seus maiores admiradores. Nunca, po-
16m, se Ihe ouviu uma refer8ncia As suas ligag6es cor o emi-
nente brasileiro. No Ceara, nao se conhecia a intimidade
cxistente entire dois homes piblicos. Mas, como sentencia
o Evangelho: "nada oculto que nao se venha a revelar"'--
nihil occultum quod non revelabitur, jA no fim da sua admi-
nistrago, veio a saber-se do seu prestigio junto ao senador
gaficho.
Nao havia meio de decidir-se o caso da aquisigCo do pa-
1acio episcopal. O dr. Virgilio de Morais, notdvel juriscon-
sulto patricio, vivamente empenhado por que o bispado nao
se privasse de tamanho beneficio, interferiu na lide e, gra-
gas A sua accgo, Dom Joaquim concordou em apelar para o
General Pinheiro Machado, solicitando dele o favor de con-
seguir, no Minist6rio da Fazenda, press no andamento do
process de transfer8ncia daquele pr6prio national para o
patrim6nio da diocese.
Como se viu, a solugdo foi ripida. Deve-se, pois, ao
saudoso cearense, dr. Virgilio de Morais, a oportuna lem-
branga, que deu em resultado a imediata satisfagio do maior
anseio do bispo benfeitor desta terra, que amou mais que a
do seu nascimento, e nela tantos beneficios semeou, orva-'
Ihada corn o suor das suas fadigas.
Dom Joaquim foi o tipo modelar do ap6stolo que Jesus


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Cristo idealizou e Sdo Paulo definiu, na epistola, que escre-
veu ao discipulo Tito, a qual se encontra no Brevidrio, entire
as lig6es dos confessores pontifices: "6 necessirio que o bis-
po seja sem mancha, sem armas, pacifico, caridoso, paci-
ente, hospitaleiro, just, santo, cheio de esperanga e de sa-
bedoria, como conv6m a um ec6nomo de Deus: sicut dis-
pensatorem Dei aportet.

RENfJNCIA

0 primeiro pass que Dom Joaquim deu em prepara-
9ao A renincia as^fungSes diocesanas foi a de pedir a Santa
S6 um Cirineu que Ihe aligeirasse o peso da cruz. Nio era
aquela cruz que Ihe brilhava no peito, mas a de ferro que
esmaga os ombros e a de ouro disfarga. A cruz episcopal 6
simb6lica, como a mitra de pedras preciosas, que se ajusta
a front do bispo, 6 a mesma coroa .de espinhos de Jesus
Cristo. Ningu6m se iluda com as pompas exteriores de que se
cerca a sua dignidade hierarquica. As fivelas douradas, que
]he adornam os sapatos, lembram a renincia aos bens ma-
teriais.
O palAcio, em que reside, 6 o Tabor que esconde o Cal-
virio das mil atribulag6es em que se crucifica, dia e noite, o
Pastor da uma diocese. Ai esta porque tantos sacerdotes de
m6rito recusam a dignidade episcopal: uns, talvez, por se
considerarem desprovidos das qualidades requeridas para
,a elevada investidura; outros, por nio terem vocagdo para
o martirio, porque, de facto, ser bispo 6 ser mirtir.
Com setenta e seis anos de idade, Dom Joaquim con-









servava o espirito pronto para o sacrificio e licido para
governor. Mas o peso dos anos, que, apesar de tudo, nunca
fizera vergar para o chgo seu corpo varonil, e os achaques
da veihice levaram-no i convicgio de que ao bispo, antes de
tudo, importa visitar, pessoalmente, o rebanho, a despeito
des agruras das viagens pelo sertdo ardente e das longas dis-
tancias incompativeis corn o estado precario da sua saide.
Foi, por isto, por dever de consciencia, que Dom Joaquim
langou mro do recurso can6nico de pedir um bispo auxiliar.
Dom Joaquim afirmou, em document pfblico, que
"depois de sondar o animo de diversos sacerdotes cearenses,
que se mostraram esquivos, dos quais nio menos de cinco
baviam recusado a miss~o episcopal", se dirigiu a D. Jer6-
nimo, cearense, Arcebispo da Baia e Metropolita da pro-
vincia eclesiastica, a que pertencia a diocese do Ceard, e Ihe
entregou a soluuo do caso. 0 Arcebispo Primaz, achando
justas as causes apresentadas pelo venerando colega, tomou
em consideracgo o apelo que Ihe fora feito e, pouco depois,
surgiu o nome do c6nego Manuel Ant6nio de Oliveira Lopes,
do clero baiano, eleito bispo de Tabes. D. Manuel Lopes
chegou a Fortaleza a 20 de Novembro de 1908, demorando-
se aqui apenas ano e meio, pois foi logo transferido para
ccupar a sede episcopal de Alagoas.
De novo Dom Joaquim recorreu A Santa S6, pedindo-
Ihe outro Auxiliar. Dessa vez, a escolha do candidate recaiu
em outro sacerdote baiano, o c6nego Manuel da Silva Gomes,
que aportou As nossas plagas com o titulo de bispo de Mopsu-
estia, a 9 de Fevereiro de 1912.
"Estava remediada a falta, escreve Dom Joaquim, mas,
refletindo bem em nossa consciencia, sem a ningu6m consul-


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larmos, chegimos A convicgio de que para o maior bem da
diocese era de conveniencia que deixissemos o seu governor,
pois, pertencendo-nos a plenitude da autoridade episcopal,
nio podiamos exerc8-la em todas as suas parties, por nao
nos permitirem as forgas; por outro lado, o nosso Exmo.
Auxiliar, por mais amplas faculdades que Ihe d6ssemos,
ver-se-ia, algumas vezes, embaragado no exercicio das suas
sagradas fung6es. Nestas condig6es, posto que muito penoso
seja para o nosso coragao separarmo-nos dos nossos antigos
diocesanos, no dia 14 de Margo do corrente ano, 34 dias de-
pois da chegada do Exmo. e Revmo. D. Manuel a esta dioce-
se, nos dirigimos A Nunciatura Apost6lica, pedindo-lhe apre-
eentasse ao Santo Padre a nossa sfiplica no sentido de acei-
tar a nossa renuincia e nomear o Exmo. e Revmo. D. Manuel,
bispo catedritico desta diocese".
Aceita a renincia de Dom Joaquim, a 8 de Dezembro
do mesmo ano D. Manuel assumiu a supreme direcgio do
Bispado.
A solenidade da posse se verificou na antiga Catedral,
na tarde da festa da Imaculada Conceig~o, com a presenga
de todas as autoridades civis e numerosa assistncia. Nao
me sai da mem6ria a cpna comovedora que entgo se passou:
em dado moment prescrito pelo cerimonial, o venerando
ancido desce os degraus do seu antigo trono, cor a alma
espedagada, talvez, mas sem trair a majestade do porte, vai
buscar o novo Pontifice para o elevar ao s6lio, onde por 28
anos exerceu, no mais alto grau, a supremacia da.bondade e
do amor.
No dia segutinte A posse do novo diocesano, data que
coincidia cor a da comemorago do yig6simo nono aniver-











































D. MANOEL DA SILVA GOMES
3o. Bispo do Ceari e 10. Arcebis-
po de Fortaleza.






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sirio da sua sagraggo episcopal, Dom Joaquim recolhia-se
a vida privada na sua residencia particular, no local precita-
do, no bairro da Aldeota.
E ali permaneceu ano e meio, isto 6, de Dezembro de
1912 a Abril de 1914, quando se transferiu, definitivamente,
para a cidade de campinas, terra que bebeu as primeiras
bagas de suor do seu minist6rio sacerdotal, destinada pela
Providencia para possuir e guardar os restos sagrados do
imortal brasileiro.
Dom Joaquim desejava terminar os dias no Ceara, onde
viveu mais tempo como bispo que, em Sao Paulo, como pres,
bitero. Ele mesmo 6 quem o declara na ja referida pastoral
publicada na 6poca da sua renfincia. "Amamos o Ceara, e,
como nao ser assim, se aqui estamos ha quase 29 anos de
convivencia cor este her6ico povo? Percorremos todo o seu
territ6rio; tratimos cor todas as classes as families, os
protegidos, os desprotegidos da fortune; os velhos e os mo-
cos; os sertanejos, lavradores e vaqueiros... Administramos
o santo Crisma a milhares de cearenses, conferimos Ordens
sacras a oitenta filhos desta terra. Presencidmos a deso-
laio que causam as secas, produzindo, na diocese, deplo-
riveis extremidades. Estas circunstAncias fazem criar raizes
ao amor, de sorte que estamos identificados cor o Ceara.
Mas, se tudo isto nao basta para provar o meu amor a
esta terra, seja-me permitido revelar dois factos que grande-
mente corroboram esta assergio". Dom Joaquim aludia A
sua recusa, ji reefrida neste trabalho, ao convite que, em
opocas diferentes, Ihe f6ra feita para reger duas importan-
tes dioceses do Brasil Rio Grande do Sul e' So Paulo.
Destas palavras escritas por Domn Joaquim com tanta









alma conclui-se que era, realmente, grande o seu amor ao re-
banho que apascentou por long espago de tempo e sincere o
sen prop6sito de nao abandon6-lo sendo pela morte. Era
esta a convicgo que pairava na consciencia coletiva. A no-
ticia de que S. Excia estaria resolvido a regressar a Sgo Paulo
causou a sociedade cearense a mais dolorosa surpresa. Dom
Joaquim convenceu-se de que a sua presenga estaria causando
estorvo a D. Manuel, na realizacgo das reforms, porventura
oportunas c inadidveis, reclamadas pela evolugdo do tempo
que, de cerlo, seu successor desejaria imprimir A sua adminis-
tracgo. E, entao, nao houve quem o demovesse da resolucgo,
inabalAvel, que, tomou de deixar livre o campo de acgio ao
novo Prelado.
Recordhecida irrevogAvel a sua deliberaggo de ir-se para
long, incalculivel foi o ndmero de pessoas que o procuraram
para dizer-lhe uma palavrinha de despedida.
E causavam-lhe ao coragao tdo rude sofrimento aquelas
manifestac6es de filial carinho, que acabou por encarregar is
pessoas que com ele estiveram de pedir aos que ainda preten-
diam visiti-lo, o favor de nao o fazerem, para Ihe nao aumen-
tar a angdstia das saudades.
Afinal, a 19 de Abril de 1914, S. Excia deixa o Ceari,
em demand das plagas longinquas do Sul. Foi, sem divida,
um lance comovente o do embarque do santo velhinho: a pon-
te que dava acesso ao porto encheu-se literalmente de incom-
putivel massa humana, na ansia de prestar-lhe as uiltimas ho-
menagens e dele receber a benggo de despedida. Foi debal-
de: um frio de tristeza gelou a assistencia. Ao divisar a mul-
tiddo que o aguardava, Dom Joaquim desprendeu-se de D.
Manuel e do General Setembrino de Carvalho, que lhe am-


MONS. JOSE 'QUINDERR


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paravam os passes tr8pegos e, levando as mdos aos olhos,
repetia entire solugos: "Nao quero ver ninguem..."
Acompanhado de uma comitiva, composta dos padres
dr. Misael Gomes, representando o clero, Luis de Carvalho
Rocha, por dedicagio pessoal, e o enviado especial do Go-
verno do Estado, Dom Joaquim langou seu derradeiro olhar
As alvinitentes'praias de Iracema, que nao prendem os co-
queiros sbmente, mas tamb6m os corag6es.
E' oportuno transcrever-se aqui, ipsis litteris, o do-
cumento official que credencia o sacerdote designado para a
Lonrosa ineumbbncia de acompanhar o venerando iti-
nerante:


"Palacio da Presid8ncia, 16 de Abril de 1914.
Ao Revmo. Sr. Pe. Jos6 Quinder6.

Em homenagem ao virtuoso Prelado Dom Joaquim
Jos6 Vieira, que se retira para o Estado de Sgo Paulo, sua
terra natal, o Governo do Estado resolve incumbir V.
Revma. da honrosa missed de acompanhar a S. Excia.
Revma. atW ao lugar da nova resid8ncia, como um testemu-
nho da gratidio do Ceardi quele que, durante seis lustros
de missdo evang6lica, tanto concorreu para a educago mo-
ral da familiar cearense, que, ao receber as suas despedidas,
comega a lamentar a ausencia de tao egregio Pastor. O Go-
verno dq Estado, esperando que V. Revma. nao recusard
essa honrosa incumb8ncia, p6e A sua disposigSo, na Secre-
taria da Fazenda, a importincia de um conto de rais
(1.000$000) para ocorrer as despesas da viagem e uma re-









quisigo de passage de la. classes, de ida e volta, deste
porto ao do Rio de Janeiro. Saudag~es. Ass.: General
Fernando Setembrino de Carvalho".

Em todos os portos, os senhores Bispos e representantes
do clero iam acolhendo o decano do episcopado brasileiro,
que tanto o glorificou, com mostras de indisfargdvel pesar,
ao verem de armas ensarilhadas o valente batalhador da
primeira linha. Na Baia, por6m, a recepgdo a S. Excia. to-
mou feigdo inedita causando-lhe a surpresa ndo pequena
emogio: aguardava-o uma luzida comissdo de campinen-
ses escolhidos, chefiada pelo dr. Ant6nio Lobo, president
da Assembleia estadual paulista, que Ihe veio trazer as pri-
micias das "boas vindas" que Ihe mandavam a terra da sua
predilecgio.
No Rio, como h6spede do Mosteiro de Sdo Bento, Dom
Joaquim demorou alguns dias, para cumprir e retribuir
certos deveres de cortesia.
O seu' grande amigo, Senador Pinheiro Machado, ha-
via Ihe preparado aposentos na sua aristocritica residencia,
no chamado "Morro da Graga', sem esquecer a indispen-
sivel capela, onde seu ilustre h6spede poderia celebrar a
sua missa cotidiana. Dom Joaquim, por6m, declinou do
.tidalgo oferecimento.
O bravo chefe politico, al6m do banquet official que
ihe ofereceu, mandava busci-lo e a sua comitiva, diAriamen-
'e, pelo seu irmdo Angelo, para tomarem parte no jantar
intimo da familiar. Ali 6 que verificimos a intimidade que
existia entire ambos, pois o mais mogo chamava tio a
Dom Joaquim, e este, Juca ao mais mogo. Eram parents


MONs. JOS'P QUINDERR


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e se estimavam bastante. Pena e que s6 mui tardiamente
se veio saber dessa particularidade da vida de Dom Joa-
quim: essa circunstancia, talvez, tivesse influido benefica-
mente nos destinos politicos do Ceard.
Afastada a causa que o deteve no Rio, Dom Joaquim,
(om os sacerdotes que o assistiam, embarcou a bordo de um
vavio ingles para o porto de Santos, deixando de acompa-
nhi-lo o padre Luis Rocha, que ji havia partido para a
Europa, servindo de secretirio a Mons. Octaviano Pereira
de Albuquerque, bispo eleito da diocese de Piaui que, em
Roma, iria receber a sua sagracgo episcopal.
Pelo jiibilo que despertou a presenga de Dom Joaquim
em Santos e Sao Paulo, ja se podia adivinhar o que seria em
Campinas a sua chegada.
Acompanhado de nova comissio de campinenses,, em
carro especial atrelado ao horario, S. Excia. toma o trem
que o conduz A Estaggo da Luz, onde o aguardavam o Sr.
Arcebispo, D. Duarte Leopoldo, representantes do Governo
e das autoridades, muitos sacerdotes, alguns seus conheci-
dos, e diversas pessoas amigas, destacando-se, dentre eles,
a figure veneranda do cearjnse Dr. Primitive Rodrigues de
Castro Sette, Ministro do Superior Tribunal de Justica de
Sao Paulo. .
Prosseguindo viagem no mesmo comboio, chegamos ao
termo da nossa peregrinacgo As primeiras horas da noite. Ndo
re pode descrever o que foi a chgada de,Dom Joaquim aque-
]a opulenta cidade: mais pareceu a de um triunfador, trans-
portado nos bragos de uma multiddo fremente de entusias-
mo, que a de um velho bandeirante, fatigado da longa ca-
minhada, afanosa e fecunda, que voltava ao seio da terra de






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onde saira, para repousar e dormir o sono derradeiro, A
sombra daquela arvore que havia plantado quando dali
partira.
O povo accionava o carro, que se movia lentamente,
:nquanto, em derredor, ouviam-se as aclamag6es e os vivas
ao Padre Vieira, reboando pelo espaco: Ao contrArio de
sua said de Fortaleza, em que nao p6de counter as lIgrimas,
Dom Joaquim asaistia Aquilo tudo sereno, imperturbavel,
sem deixar transparecer, na face livida, o mais pequenino
sinal de emogo. Parecia que sonhava.
Sempre acompanhado do Bispo diocesano, D. Jodo N6ri,
das autoridades locais, do clero de toda a cidade, de velhos
amigos e de muitos conhecidos, alguns por tradicgo, Dom
Joaquim recolheu-se A resid6ncia que Ihe estava destinada.
Efectivamente. Anexa & Santa Casa de Miseric6rdia,
prepararam-lhe linda mansio, provida de todo o conforto
as condig6es de sua idade. A casa estava localizada num
angulo do parque, fronteira Aquela instituicio de caridade,
*P77jem cujo pitio central jA se erguia m busto talhado em mAr-
more. Sob o pedestal desse monument, guardam-se hoje
seus restos mortals que, por sigificativa deliberagao do po-
vo, foram sepultados ao p6 daquela mesma Arvore, perene-
mente verde e frondosa, que ora extra daquelas cinzas sa-
gradas a seiva divina da sua perp6tua vitalidade.
A digtrbuigao dos m6veis, objects de uso dom6stico
e de alguns adornos era perfeita. Via-se apens, a uma /,
das paredes laterais da salinha de visits, uma pauta em
que estavam designados o dia e a hora em que um on mais
amigos deviam dar o 6leo e atigar aquela lampada votiva
acesa no santuirio da amizade, prestes a extinguir-se. Entre






DoM JOAQUIM JOSe VIEIRA


as pessoas designadas nao faltava o nome de D. N6ri, mui-
tas vezes, escalado, para aquele mister afectivo.
Dom Joaquim pediu que se suspendessem as festivi-
dades em sua honra e, tamb6m, se diminuissem as visits,
por estar de corpo e espirito traumatizados. Aceitou, po-
r6m, a festinha que Ihe dedicaram as orfgzinhas da Santa
Casa, a qual comoveu tanto o padre Misael, que, num pran-
to incoercivel, quase se desfez em higrimas.
A Prefeitura de Campinas promoveu um jantar em ho-
menigem aos enviados do Ceara, para 1he dar porotuni-
dade de se empenharem da missao que os levou Aquela ci-
dade, tal fosse a de fazer entrega do tesouro que a terra da
luz restituia a da liberdade.
Coube ao representante do Governo do Ceara, por de-
i'erncia do companheiro, dizer algumas palavras alusivas
Aquela cerim6nia, as quais nao vAo transcritas, porque o
padre Misael, que se incumbiu de agradecer a homenagem,
falou de improvise, corn aquela formosura orat6ria que
todos Ihe conhecemos.
Dom Joaquim nao compareceu Aquele jantar, que me-
receu, entretanto, h presengaode D. N6ri, a quem foi entre-
gue a preciosa reliquia, de que 6ramos depositirios e por-
tadores.
No seu doce exilio, Dom Joaquim nio esquecia, um s6
moment, o Ceara: manteve at6 morrer assidua correspon-
dancia com diversos sacerdotes e cor os amigos que aqui
deixara. Interessava-se por tudo que se referisse A terra,
que era sua, pela graga do minist6rio episcopal. Muitoi
dos cearenses que iam ao Rio faziam uma esp6cie de roma.
ria a Campinas para visiti-lo e suavizar-lhe as saudades.


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Voltei a v-lo, quando acompanhei D. Manuel, na vi-
sita especial que Ihe fez, no ano seguinte ao da sua retirada
do Ceari.
Dom Joaquim, ao contact dos cearenses que o pro-
curavam parece que rejuvenescia, tal era a intensidade de
sua alegria: tomava um carro e saia a percorrer, com as suas
visits, os pontos mais pitorescos da cidade, levava-os a vi-
sitar os col6gios, as instituig6es pias e as civis e, ao chegar
A casa dos conhecidos, nao descia do veiculo: ficava a chamar
as pessoas da familiar a virem conhecer os seus amigos do
Ceard. Nessa pigina das romarias hi epis6dios verdadei-
ramente dignos de registo. Por exemplq: a saudosa viliva
do inolvidivel desembargador Paulino Nogueira, tamb6m
foi cumprir o pio dever de sua visit ao velho Pastor e ami-
go, acompanhada de sua gentil filha Maria Jos6. Depois de
um dia passado entire ligrimas e recordagCes, D. Clotilte se
prepare para voltar a Sao Paulo, quando Dom Joaquim Ihes
diz: "Nao tenho p6 de arroz para Ihes oferecer; aqui esta o
polvilho que ponho no rosto depois de feita a barba. Podem
usi-lo. E' limpinho".
Esse gesto nao s6 confirm a fama de delicadeza que
era um dos tragos do seu character, como revela uma simpli-
cidade angelica clamide cor que se vestem as almas
puras.
Ha em Campinas uma particularidade que fere a aten-
go de todo o advena que all paira: diAriamente, ao cair
da tarde, todas as andorinhas existentes na cidade e nos seus
arredores v8m dormir no mesmo local, sem faltar uma se-
quer, como se fossem obrigadas a responder a uma cha-
mada.


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NMo sei qual o inicio dessa originalidade; o certo 6 que
a Prefeitura Ihes preparou o rancho, erguendo um galpgo
lia e telas de arame, ate certa altura, de maneira a tornm-lo
r.uito elevado, cercado pelos lados de paredes de alvena-
inacessivel aos gatos.
Por dentro, ha pousos suficientes, colocados em diver-
sos sentidos, onde elas passam as noites.
Ha empregados para o asseio diario do albergue. As
18 horas, as andorinhas arribam ao local comum, unidas em
bandos, compactos e infrangiveis, formando uma especie de
manto escuro, que enegrece o espaco que atravessam, vo-
ando. Para Dom Joaquim era uma prazer deter seus h6s-
Fedes para faze-los conhecer e apreciar aquele especticulo,
que se pode chamar fenomenal, pelo seu indiscutivel
ineditismo.
Dom Joaquim ainda viveu tres anos em Campinas.
Poderia dar por terminado este esbogo biogrifico do
grande brasileiro: escrito mais com o corago que com a
intelig8ncia. Faz-se mister, por6m, voltar A 6poca em que
Dom Joaquim, deixando as fung6es paroquiais, deu asas A
sua caridade, promovendo a fundagdo de um hospital para
enfermos pobres e de um asilo para meninas desampara-
das. Se o project tinha raizes no coragao, ndo Ihe faltou o
auxilio do povo campineiro, real e valioso. Dom Joaquim
viu, final, coroados os seus esforgos, cor a inaugura~go
da Santa Casa, aos 15 de Agosto de 1876, dia em que a
Igreja celebra a festa da Assuncgo de Nossa Senhora ao
C6u, data significativa para os que tem a front voltada pa-
ra as alturas, onde brilham as estrelas, olhos divinos, vigi-
ndo os homes. A parte da Santa Casa, reservada As 6rfds,









Dom Joaquim teve a ventura de benzer, 14 anos depois, ji
entio bispo do Ceara, em 1890, quando para alt se trans-
portou, afim-de presidir Aquela cerimonia e receber as ho-
n.enagens que, mal adivinhava, Ihe estavam reservadas.
Foi naquela oportunidade que a CAmara Municipal
de Campinas deu a uma das ruas das cidade o nome de
"Padre Vieira", nao a de Dom Joaquim, bispo do Ceara,
mas o de Padre Vieira, o antigo vigarinho de Campinas.
Ainda mais: concretizou-se, num busto, erguido em
praga pilblica, a gratiddo do povo campineiro. No pedestal
inscreve-se a seguinte legend: Em homenagem ao
Exmo. e Revmo. Sr. Dom Joaquim Jos6 Vieira, Bispo do
Ceari, Fundador do Hospital e do Asilo de Orfaos da Santa
Casa de Miseric6rdia de Campinas, oferece o Povo agra-
decido.
Este foi o sacerdote, alheio A ostentago, que jamais exi-
biu no peito a vinera de Comendador; modesto, procurava
ocultar os seus actos de benemerncia, seu prestigio social
e os seus m6ritos aos olhos dos homes; condoido dos males
ailheios, era o pai dos pobres; zeloso da dignidade do seu
minist6rio sagrado, foi sacerdote modelo.
Depois, bispo, soube governar- com sabedoria para a
gl6ria de Deus e com utilidade para o proveito do pr6ximo:
omnis Gloria Deo, omnis utilitas proximo. Fiel discipulo
de Nosso Senhor, praticava antes o que devia ensinar em se-.
guida:incipit facere et docere.

"Pelo nascimento, disse o famoso jesuita, Padre Viei-
ra, somo filhos dos nossos pais, na ressurreicgo somos filhos
das nossas obras".


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