Coiteiros

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Material Information

Title:
Coiteiros romance
Physical Description:
190 p. : ; 18 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Almeida, José Américo de, 1887-1980
Publisher:
Companhia Editora Nacional
Place of Publication:
São Paulo
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Literatura -- Brasil
Genre:
fiction   ( marcgt )

Notes

Statement of Responsibility:
José Américo de Almeida.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 08172963
Classification:
lcc - PQ9697.A59 C6 1935
ddc - 869.9 Aℓ6c
rvk - IQ 99990
System ID:
AA00000236:00001

Full Text





















COITEIROS





E :*,-..:.L r S r 0r
Dr. Join Frssia n. 102
CRATO--CEARA

*. 3















ROMANCES DO AUTOR:


BAGACEIRA (5.a ediio)
BOQUEIRio (em impressio)
MULHER DE NINGUEM (em prepare)





JOSE AMERICO DE ALMEIDA


COIT


ROS


1935 -
COMPANHIA EDITOR NATIONAL
RUA DOS GUSMOES, 24-A/30 SAO PAULO













NJ^
(9



I


0 chefe do bando riscou a mesa cor
o punhal enferrujado de sangue human,
em signal de ameaga, como se estivesse
lavrando uma sentenga de morte. E or-
denou ao dono da casa:
Coma primeiro.
Villarim AI tonio serviu-se de todos
os.pratos, 'ntre contrafeito e acolhedor,
&Isipando, assim, a suspeita .dos bandi-
dos.
Cahiram, entdo, na comida, mastigan-
do alto, cor grasnados de cannibaes.
Rasgou-se o som de um voo invisivel.


-5-







JOS1 AMERICO DE ALMEIDA


Setecouros levantou-se e examinou:
Um chinello de menino.
E sobrosso da menina acudiu
Villarim.
Dorita tinha corrido do quarto fron-
teiro para o interior da casa, deixando
cahir, na carreira, o chinello minuscule.
Sexta-feira exasperou-se e gritou
para dentro:
Nunca viu gente?!
Ameagou, batendo cor os dedos na car-
tucheira:
Por menos disso, jd fiz uma servir
a mesa nua.
Villarim esfregou a testa, desman-
chando os vincos que Ihe formavam a
mascara espantosa.
E os cangaceiros delataram uma
curiosidade sensual nos olhos raiados de
sangue, pisados de sol e poeira da vida
errante.


-6-







C O I T E I R O S


Arrastaram, emfim, as cadeiras da
mesa, continuando a conversar na mes-
ma sala.
Sexta-feira deitou o rifle nas pernas:
Agora, podemos fallar a vontade.
Villarim nao sabia por onde comegar.
E o bandido impacientou-se:
Nao me mandou chamar? Se eu
pudesse demorar, tinha minha casa!...
Villarim titubeou:
Essa intriga corn gente minha...
0 que 6 seu?
Vae entrar na familiar. Vae ser
meu filho.
Roberto dos Anjos?! Ah, esse
nio me escapa. Que id6a faz de mim?!
E, erguendo-se, arrebatadamente:
Nao me falle! Com toda fran-
queza! Esse 6 commigo fa boca do meu
rifle. E tiro e queda!
Riu, cor um riso engasgado:


-7-







JOSP AMERICO DE ALMEIDA


Eu sempre fui chamado para con-
tractar algum "servigo"; aqui, 6 para
fazer as pazes...
Villarim ageitava as coisas:
Nao digo que nao. Ber sei o que
se deu.
E o bandido ainda repellia:
0 home que pensar em me en-
gabelar esta cortando a mortalha.
Faz-se uma acommodacgo. Nao
que ficassem amigos. Mas, assim, um
querendo acabar com o outro? Queren-
do comer-se vivos? Cada qual podia vi-
ver para o seu canto.
Nao acceito imposicgo.
Esta no seu direito. Nao digo fa-
zer as pazes, quando houve o que houve.
Nao 6 dizer que tenha medo; a
mim tanto me rendem seis como meia
duzia.
E o bandido foi abrandando:


-8-







C O I T E I R O S


Nao quero e botar os olhos em
cima delle.
-Pode ver fingindo que nao ve.
Isso 6 que nao!
E serenou ainda mais:
Depende mais delle do que de mim.
Nao gasto bala cor defunto ruim.
JA mudara por complete:
I verdade que precisamos de ami-
gos. Sem amigos, onde vamos buscar o
que precisamos?
E propoz:
Abre-me a sua casa, quando o
tempo apertar? Acoita-me na sua fazen-
da, quando eu precisar botar areia nos
olhos dos "macacos", fingindo que estou
long?
Faco o que estiver em mim.
Vamos v6r isso. Sei que 6 home
de sim-sim, ndo-nio. Vamos ser amigos.
Sei que 6 home de peito aberto.


-9-







JOSI AMERICO DE ALMEIDA


Estava camarada:
Nao vim ha mais tempo, porque a
gente nao sabe quando sae e quando
chega.
o que Ihe digo.
Fica combinado. Nunca faltei ao
promettido. Succeda o que succeder.
Pegue na palavra.
Ahi, voltou atras:
Garante que elle fica quieto?
Vou fazer o possivel.
Nao se ponha com coisas. Ainda
n~o houve home que me faltasse cor a
palavra, para nao ir viver corn Deus.
Serve assim?
Feito.
Pois sim. P6de ficar descansado.
Dormir a seu gosto. P para o que der e
vier. Eu, quando sou, sou.
Villarim tinha as suas duvidas:
Vou fazer o possivel...


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C O I T E I R O S


Depois ndo va se arrepender. Na
minha vida basta scismar.
0 sertanejo que d6 a palavra d6
a propria vida.
Nisto, bateu a porteira. Dorita co-
nhecia a pancada como o batecum do seu
coragdo amoroso.
Todas as vezes que elle vinha visital-
a, o poeirigo da estrada denunciava-o, de
long, sempre a correr, correndo, como se
fugisse de alguma coisa. Mas, era o som
da cancella que Ihe annunciava a chegada.
Villarim poz as mdos na cabega:
A elle!
Assim foi.
Os cangaceiros levaram a bala a agu-
Iha, num craque repentino.
D6rita atravessou a quadrilha, sem
ver ninguem, com o alvorogo de quem ti-
nha ouvido tudo.
Foi encontrar o noivo do lado de f6ra.


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JOS., AMERICO DE ALMEIDA


Sexta-feira deitou-lhe uns olhos que,
tanto podiam ser de curiosidade, como de
prevengdo espontanea.
Villarim ainda se atormentava de
apprehens6es:
Ora, veja!...
Fallava alto, tossia, arrastava as ca-
deiras fazia tudo para que os cangacei-
ros ndo percebessem o que se dava. Mas,
chegavam at6 dentro os gritos de reac-
g0o:
Os bandidos estdo, de novo, na
terra! A culpa 6 dessa fraqueza de go-
verno. Mas, deixe estar que eu dou con-
ta delles. Eu commigo...
E mais enfurecido:
A culpa 6 dos coiteiros. Se nao
houvesse protectores, era um dia o can-
gaco.
Villarim fechou a porta do corredor.
O chefe do grupo encarou-o:


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C O I T E I R O S


O diabo 6 ter dado a minha pala-
vra!...
Cor uma voz que queria dizer o con-
trario, D6rita dirigiu-se a Roberto:
Apeei-se.
E, baixinho, para que s6 fosse ou-
vido por elle:
Eu precisava fallar-lhe.
Vamos.
Eu queria dizer-lhe uma coisa.
Para tomar tempo:
Mais vale ir ali.
Fazer o que? Diga logo.
Venha ver.
E sahiu, fazendo signal para que a
acompanhasse.
Ia fallando:
Nao 6 nada ndo. Voc6 pensa que
6 alguma coisa?
Attrahia-o, mais apressada:


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JOSE AMERICO DE ALMEIDA


S6 f6ra daqui. Venha commigo.
Passou pelos seus craveiros. Tirou
todos os cravos para dar-lhe. Um mo-
Iho de care viva, sangrando o aroma for-
te do sertdo.
Perlustravam o campo ponteagudo,
salpicado de pedrinhas roxas, como pin-
gos de sangue.
0 dia ia minguando. Desenhava-se
um occaso enorme, como f6go de palha,
que se acende todo de uma vez.
A luz estival pintava a serra da c6r
do c6o. Rosavam-se os alcantis corn to-
chas de quartzos que allumiavam os res-
tos de dia.
0 crepusculo parecia pingar sangue.
Mas, o horizonte queimado tinha franjas
de ouro sujo.
Tonturas do adormecer. 0 rumor de
v6os curtos que precede aos conchegos
crepusculares. Pios somnolentos. E, aci-


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C O I T E I R O S


ma de tudo, o fallario da papagaiada gri-
tante.
Agitavam-se as aves e os insects na
chiadeira do lusco-fusco.
Cor os ultimos retoques do sol trans-
figurava-se a vulgaridade da paisagem,
num tom esmaecido da catinga que fi-
cava amarella.
Cada arvore, num arrepio da c6pa
sacolejada, espalhava a onda fulva. Fo-
Ihas ja mortas despencavam-se, aos boca-
dos, como um revoada de insects ruivos.
A catinga loira borboleteava nessa
desfolhada, despegando-se de si mesma.
E outras plants mudavam de colori-
do, machucadas pela soalheira. 0 mar-
meleiro bravo, antes de morrer, sangra-
va na folhagem rubra.
0 p6 do panasco, numa ondulacgo doi-
rada, tinha ansia de subir, de ser, pelo
menos, nuvem de p6.


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JOSt AMERICO DE ALMEIDA


De repente, um bando de periquitos
pousou na arvore secca. E toda ella fi-
cou verde, cor uma c6pa de azas. E
voaram, de uma vez, como se a arvore se
tivesse desfolhado.
Os malfeitores permaneciam na vi-
venda.
Sexta-feira approximou-se do dono
da casa:
Eu queria fallar cor a moga.
?!...
Se ella quizesse ter o menino em
casa...
Era um filho creado no matto.
Um cortejo de aves migratorias que-
brava o silencio das alturas.
A luz pertinaz, em resteas retardata-
rias, acendia ainda os cimos da montanha
de c6res mysticas.
Roberto perguntou, final, o que 6
que ella queria dizer?


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C O I T E I R O S


Ah, me esqueci...
Depois:
Esta bom! Voc0 quer saber de
tudo...
Occorreu-lhe uma evasiva:
Espere ahi. Bern. Quem marca
o dia? Voc6 ou papae?
Vontade eu tinha muita. Mas,
ndo disponho de minha vida, emquanto
Sexta-feira existir.
Ella estremeceu. E Roberto inter-
pellou-a:
EstA corn medo?
Medo de que?
E levou-o para logar mais ermo.
Elle tinha uma missio funesta. Ain-
da Ihe estava present o episodio de sua
escapada do seminario:
Padre reitor, eu vou deixar a ba-
tina.
Explodiram todos os mros humores
sacerdotaes:


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JOS S AMERICO DE ALMEIDA


Perdeu a vocagao?! Ja sei!...
Sdo as malditas ferias... "Raposas",
dissipag5es...
O seminarista explicou, humildemen-
te:
Vou vingar a morte de meu pae.
Mataram meu pae.
O padre reitor era sertanejo. Conhe-
cia a fibra de sua gente e os pactos da vin-
ganga privada.
Pacificou a voz e, entire commovido e
mal-humorado, deixou escapar:
0 amor filial 6 mais sagrado do
que todas as religi6es. Mas, Deus casti-
ga os maos.
E elle fugira do seminario.
Roberto repetia a noiva:
Nao me casarei antes de acabar
cor elle. Minha vida nao me pertence.
D6rita rogava:
-Voc perd6a...
Voc6 perd6a...


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C 0 I T E I R 0 S


Gritou-lhe a voz do sangue:
Isso, nunca! Nem que o mundo
se acabe.
Ella teimava:
Isso ndo se diz. Eu sei que voce
perd'a.
Nem me falle. Nem 6 bom fallar!
Guardava a heranga desse odio, como
um bem de familiar. A violencia das vir-
tudes antigas era um appello da natu-
reza mais intima, do compromisso que
devia passar de geracgo em geragao,
como o onus de um legado.
Ella ainda tentava dissuadil-o:
Voce vae jogar a vida.
Elle herdara esse destino. 0 sangue
derramado clamava vinganca. O sangue
pagava-se com o sangue.
Os bord6es de mangangis, tocando
violoncello, escureciam o ar de azas e vo-
zes de mdos augurios.


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JOSt AMERICO DE ALMEIDA


O desert, fincado de cruzes do cri-
me que o despovoava, salpicava-se de um
colorido tragico.
Roberto exprimia todo o sentiment
do sangue:
S6 os bichos podem perdoar. Per-
doar 6 esquecer. E o home nao es-
quece.
Tire isso do pensamento. Faga de
conta que elle nao existe. De que serve
a vinganga?
De nada. Acontece ate que, as
vezes, a victim nao ter a nocgo do cas-
tigo: more, sem ter tempo de saber por-
que.
Entdo, nao e vinganca. E os mor-
tos nao pedem vinganga.
Meu pae nao pede, mas o mundo
pede por elle. Quando me perguntam
quem matou meu pae e eu digo o nome
de um home que ainda vive, sinto a ver-


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C O I T E I R O S


gonha de nao ser bom filho. A socieda-
de nao perd6a a quem perd6a um crime
assim.
0 crime todos condemnam.
Condemnam o crime, mas escar-
necem da covardia. Sdo as contradig~es
do concerto da dignidade.
Entdo, voce quer vingar-se por
amor proprio, para nao passar por fraco.
2 uma voz que grita dentro de
mim e encontra 6co em toda parte, em-
bora, quando eu cumprir o meu dever,
passem a condemnar-me.
Trouxas de cobra mexiam a cabega,
olhando os passaros.
As cascaveis desenrolavam-se no cas-
calho quente. E chocalhavam, irritadasr
pelo calor da terra.
A natureza arrepiada de espinhos as-
sistia a festa do sertdo essa music
venenosa de guizos mortaes.


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JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Resoavam maracas dentro das locas
de pedra, como as primeiras expresses
da noite.
Era a festa dos crotalos.
Roberto queria voltar, mas D6rita
ainda o detinha:
Espere um bocadinho. Eu ainda
queria dizer-lhe uma coisa.
Villarim veiu, finalmente, ao encon-
tro delles:
Que fazem voces no matto?
Demonstrava certa contrariedade:
Pois fiquem! Querem ficar, fi-
quem!
S6, entdo, occorreu a D6rita que es-
tava s6 nesse irmo cor o home que
amava.
Reboou ur tropel imprevisto na es-
trada de pedras soltas.
Villarim affligia-se, comsigo mesmo:
Teriam voltado?!


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C O I T E I R O S


Ouvia-se um ruido de armas.
Era uma "volante". 0 commandan-
te avistou-o, de long:
Falla-se que o grupo passou por
aqui.
Roberto ficou num p6 e noutro:
Por aqui?...
Villarim desvaneceu todas as duvi-
das:
Por aqui ndo passou ninguem.
E Roberto incorporou-se a "volan-
te".
A estrada de pedras soltas retinia.
D6rita escutava o estrupido, como
um tiroteio longinquo. E correu para
casa, deixando cahir o sapato, como uma
creanca cor medo.


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Villarim sahiu ao terreiro para pers-
crutar o c6o:
0 anno e bom.
Fallava s6, procurando persuadir-se
do que nao via.
Nao via mais do que o eterno scena-
rio da noite, cor um pedaco de lua encra-
vado no espago. 0 ceo sedigo, todo ris-
cado de pequenos mysteries, como sonhos
perdidos.
0 sertio nio tinha noites de sereno,
nem sombras pegajosas.
Era a eterna interrogacgo dos eni-
Sgmas que boiavam no infinite.


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C 0 I T E I R 4 S


Villarim distinguia nesses indicios
obscuros a annunciacgo do bom tempo.
Todos os annos era essa inquiricgo
fremente da terra da secca: a lua acon-
chegada nas plumas da "bolandeira", en-
volvida nesse halos quase branco; a barra
cinzenta, como uma franja do ceo sobre
a terra; o vento solicito do anoitecer, so-
prando, de mansinho, sem querer acender
fogueiras.
Espreitava-se o panorama dos astros,
pedindo-lhes as promessas do desconhe-
cido.
Era um povo para quem toda feli-
cidade vinha do c6o. 0 seu destiny esta-
va inscripto nas constellag6es.
E a experiencia do alto era fallaz.
Emquanto o c6o precursor negacea-
va, Roberto interrogava os olhos negros
de Dorita, que negrejavam ainda mais,
como sombras de peccados occultos.


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JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Sondava esses abysmos silenciosos,
cheios de segredos, que mudavam de cor,
nos seus disfarces repentinos.
Emquanto Villarim fitava o firma-
mento, elle mirava esses olhos duvidosos,
que eram o seu ceo.
Estavam tAo pretos que, quando se
cerravam, escureciam as palpebras. E
dentro delles viam-se o ceo e as coisas
mais bellas da terra.
Ora, os achava mais funds, ora,
mais rasos; ora, faiscando no escuro, ora
molhados de luar.
Suas adivinhag~es eram esses refle-
xos enganosos.
Tinham sido elles que primeiro Ihe
falaram de amor. Que lhe fizeram as pri-
meiras promessas, fechados num gesto
de pudor.
Procurava conhecer os toxicos dessa
subita inquietacgo. E, quanto mais tei-


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C O I T E I R O S


mava em decifral-os, mais elles se torna-
vam impenetraveis.
Os olhos descuidosos de creanga ad-
quiriam esse poder de dissimulagdo dos
sentiments quotidianos.
Elle dizia:
Estou vendo...
E via a noiva tocada de luar. Espia-
va dentro dos seus olhos, procurando des-
cobrir uma felicidade que ndo estava na
terra.
E os olhos della foram-se afundando,
foram-se afundando, como se estivesse
olhando para dentro de si mesma.
Estalou nos ares a revoada dos te-
teos, como um painel de fogo de artificio,
em estremecimentos de azas fumarentas.
E escapou da noite discreta o accen-
to desgarrado, como um som sobrenatu-
ral.
Nao era voz humana, nem das sel-
vas. Era uma e outra coisa, como uma


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JOSP AMERICO DE ALMEIDA


creature de Deus que tivesse perdido o
timbre de humanidade.
Tinha todas as vozes animaes, sem
exprimir nenhuma.
Os tet6os continuavam a dar descar-
gas de gritos no ar. E estrugiu um guin-
cho mais sinistro, de uma monotonia do-
lorosa.
Roberto reconheceu:
B assim. Quando os cangaceiros
voltam, fica como doida. Parece que esta
vendo deante dos olhos a desgraga que
lhe succedeu.
E proferiu-lhe o appellido diminuto:
t Zigue!
E 6? disse Dorita inadvertida-
mente, conhecendo-lhe a historic.
A bruxa tinha um faro de animal.
Roberto exaltou-se:
Sdo elles! Agora, ndo me esca-
pam.


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C 0 I T E I R O S


Indagava de um e de outro:
Porque anda por aqui? Que quer
ella por aqui?
E a bruxa fazia a ronda da casa.
A historic de Zigue ndo era para ser
contada, casualmente, no entrecho de
outras tragedies.
N~o exprimia, apenas, o destino de
uma mulher; era a chronic, mais vivi-
da, do desert, onde o home s6 tinha
medo do home.
Morava em Lagamar uma viuva cor
onze filhas mogas e um filho surdo-mu-
do.
Todos eram probrezinhos no logar.
0 que faziam nos annos bons era para as
seccas comerem num anno mao.
S6 ella possuia alguma coisa de seu.
Se apparecia algum necessitado, in-
dicavam-lhe a casa velha ainda em pre-
to:
Va pedir a viuva.


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JOSI AMERICO DE ALMEIDA


Ella dava o que podia. E, nao raro,
tarde da noite, iam tomar-lhe o que nao
dava.
Maltratavam-na, sem necessidade,
porque nao tinha defesa. Ja trazia a
cabeca toda riscada de cicatrizes.
Um dia, Sexta-feira ia pelos espig6es
da fazenda que ainda nao conhecia. 0
surdo-mudo avistou-o e correu com me-
do. Correr para essa alma rudimentar
era escapar dos perigos.
Suscitou-se a suspeita do bandido, o
movel das vingancas mais hediondas.
Era espido; estava a servigo do governor;
ia avisar a policia.
Setecouros quiz atirar, cor o rifle d
cara e uma expressed simiesca de gozo.
Mas Sexta-feira sacudiu-o, cor um em-
puxdo dos delle:
O tiro e meu.
O rapazinho ia no alto, correndo ain-
da, sem saber o que Ihe podia acontecer,


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C 0 I T E I R 0 S


como os bichos que fogem do horem.
Corria mais que uma bala. Qual! Forga
de expressao...
Nao ouvia nada.
Levou a rno a nuca, deitando o cha-
p6o no chio.
E, cahindo, virou a cabega e espiou
para tras, cor um olhar estupendo de
quer queria ver, ouvir e fallar con os
olhos.
Pedia alguma coisa cor um embru-
Iho de lingua de rudo. Setecouros fin-
giu penalizar-se:
Perdeu a falla.
0 bando arrastou-o ate a casa.
Fez o ultimo tregeito, inteirigando-
se, corno se quizesse crescer, depois de
morto, para se desforrar de tanta ralva-
dez.
Sexta-feira juntou toda a familiar -
a mae e as filhas mocas. Mandou des-


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JOSI AMERICO DE ALMEIDA


pil-as, uma por uma, numa luta em que,
as vezes, parecia vir um membro arran-
cado, em vez de pedagos de panno.
E toca a sanfona, toca a dansar
- numa reviviscencia selvagem. Dan-
savam em torno do corpo ainda quente,
como cannibaes remanescentes.
Achou pouco. Amarrou o cadaver
a propria mre, peito cor peito, corn as
pernas soltas, para espernearem.
E toca!
A velha esmorecia, dansando de cos-
tas, cor os olhos apertados. E Setecou-
ros, o negro hediondo, soprou-lhe, ao ou-
vido, como um folle aceso:
Ou dansa ou as mocas pagam!
E ella ficou como um corrupio doido,
saltando mais do que dansando.
As mogas cirandavam, cor as mdos
pudicas, em cima e em baixo, uma em ci-
ma, outra em baixo, procurando occultar,
cor a vista cahida, o que ndo era possi-


- 32 -







C 0 I T E I R 0 S


vel. E batiam seios contra seios, em
choques de carnes fraternas.
Ndo era dansa: era uma tremedeira,
urn calefrio, uma dor de corpos quebra-
dos.
Incitavam-nas cor choices de armas:
Va!
Cahiam umas sobre as outras.
Pega!
E os cabras, cada qual cor uma, cru-
cificavam-nas nos bragos grosseiros.
Sexta-feira ordenou:
Basta!
As mocas lancaram-se no chdo, como
trouxas enxaguadas.
Basta!
E a velha continuava a dansar, aos
tombos, cor a lingua de f6ra.
Basta! basta!
E ella dansava ainda, suja de san-
gue, offegante, o cabello assanhado, como
uma poeira de gravetos.
-15


- 33 -







JOS6 AMERICO DE ALMEIDA


NAo deixava de dansar, toda descon-
juntada, feito um mamolengo.
S6 ndo cahia cor pena de magoar o
filho morto, rodaido, rodando, como
um pido adoidado.
Era uma sombra esfrangalhada,
apertando o cadaver nos bragos, beijan-
do-o, lavando-lhe o sangue da cabega corn
lagrimas grossas.
Estava doida.
Nada de tristezas. Era um caso ba-
nal dos serties solitarios.
Estava doida varrida.
0 ceo confuso ndo annunciava coisa
alguma. Mas a terra agoureira prenun-
ciava desgragas maiores, em clamores de
inconsciencias soffredoras.


- 34 -














Villarim dormitava na rede de corda
armada no copiar, corn as mios engran-
zadas sobre o peito, como maos de defun-
to.
A barba ruga escorria-lhe, em fios
de puxa-puxa, pelos cord6es entreaber-
tos.
D8rita pegou no punho e entrou a ba-
langar, devagarinho, corn a doCura de
quem embala uma creanca doente.
Os armadores deram signal. E el-
le olhou-a, cor um sorriso reprehensivo,
porque s6 sorrindo podia reprehender um
gesto de tanta ternura.


- 35 -







JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Ella arriscou:
Estd pensando no tempo?
Dia sim, dia nao, os cangaceiros vi-
nham ter a fazenda.
Quando apertou a batida, chegaram
a acoitar-se, por algum tempo, nas oitici-
cas do cercado, cor o conhecimento, ape-
nas, do vaqueiro, que lhes levava a co-
mida.
Sumiam-se, assim, no mesmo logar,
cor a melhor tactica de bandoleiros, dan-
do a id6a de que se haviam passado a
outras terras.
Villarim constrangia-se com essa
hospitalidade cumplice; mas deixava-se
dominar por preconceitos primitivos:
Um home 6 um home. Amigo
de seu amigo. Sertanejo nao muda de
parecer.
E, temente de suspeitas injustas:
Nao entra no espirito de ninguem
que eu me vd aproveitar de malfeitores,


- 36 -







C O I T E I R O S


para qualquer vinganga ou por outro in-
teresse pequenino.
Dorita tinha uma falla de anjo:
Papae, escute aqui. Eu queria
pedir-lhe uma coisa. Diga se faz.
Mordia ur cravo sanguineo, para
apparentar calma.
NIo deixou de embalar. E pegou o
dialogo dos armadores; um, gritando
grosso; o outro, cantando como um passa-
rinho.
Ella hesitava:
Se eu ihe pedisse uma coisa... vo-
ce fazia?
Ter seus conformes. Nao pedin-
do o impossivel... Casamento, s6 se o an-
no f6r bom.
Longe disso! 0 senhor ndo adivi-
nha...
Elle fechou os olhos, simulando que es-
tava dormindo. E ella falou mais alto:


- 37 -







JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Nao proteja cangaceiro. Canga-
ceiro nao tern o que dar. Um dia 6 a
favor, outro 6 contra. E' mesmo que
criar cobra.
E' por sua causa, minha filha. Pa-
ra nao darem cabo delle. E' para seu
bem.
Quem Ihe pede sou eu. Por mim
elle nio punha os p6s aqui.
E' para seu sossego.
D6rita ficou nervosa; dava balancos
enormes:
Mais hoje, mais amanhd, 6 desco-
berto. Mais tarde ou mais cedo, se vem
a saber. Nao notou outro dia? Ainda
foi por bem que elle nao viu!...
E mais resoluta:
Um dia elles se voltam contra
n6s. Todo cangaceiro 6 assim.
No fim da certo.
Vae ver. A gente morrendo de
cuidado!...


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C 0 I T E I R 0.. S


Sera que elle desconfia?
Desconfiar ndo digo, mas p6de
chegar na hora. Nao sera a primeira
vez. Outro dia, fui eu que salvei tudo.
Foi Deus que elle ndo viu...
Ia-se tornando inconvenient:
0 senhor se arrepende!
Villarim parecia concordar:
Foi uma cabegada, mas, agora
que se ha de fazer?
E se chegar aos ouvidos delle?
Foi um mal. Nunca 6 tarde para
se reconhecer o mal. Mas, e tarde!...
Nao havera um meio?
Nao vejo.
Ella desesperava:
Mas, elle ndo perdoa!
Basta viver cada qual para seu
lado.
Mas, elle nio perd6a!
Os armadores estavam alegres, como
nunca: um tocava; outro cantava. E,


- 39 -







JOSE AMERICO DE ALMEIDA


depois, no mesmo balango, cada qual to-
cava, por sua vez, um grosso, outro fino.
Ella previa o desfecho:
Se se encontrarem, a desgraga
estd feita.
Villarim estremeceu, a ponto de os
armadores passarem a ranger, perdendo
a voz sonora. E apertou a barba com
a mao.
Ella continuou a embalar:
0 senhor promette? E' o cora-
gdo que me diz.
Elle objectou:
Ai de quem cahir no desagrado
delles! Se proteger, 6 perseguido pela
policia; se ndo proteger, e perseguido por
elles. Muito peor!
Desenganou-a:
Agora, nao ha geito. Se descon-
fiarem que nao quero mais saber delles,
toda vinganga se voltara contra Roberto.
A gente sabe o que 6 cangaceiro. Ja co-


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C 0 1 T E I R 0 S


nhecem meu fraco. Ja conhecem a mi-
nha vontade...
Tentou, mais uma vez, tranquilli-
zal-a:
E' facil occultar delle.
Occultar, como, papae?
-. Pare essa rede, minha filha! Nao
sei onde estou com a cabeca.
Era uma tonteira que nunca tinha
tido.
D6rita illuminou o rosto com uma
id6a salvadora:
Papae, ha um remedio. Eu j6
pensei nisso. P6e-se veneno na comida.
Villarim sentou-se horrorizado:
Na minha casa, ndo. A' minha
mesa pode sentar-se meu maior inimigo,
come do que eu comer.
Entdo, quando elle estiver aqui,
dd-se aviso a policia. No ha perigo ne-
nhum. A gente sae pelos funds.


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JOS9 AMERICO DE ALMEIDA


Na minha casa ndo se pratica uma
traigdo. A lei da hospitalidade 6 sagra-
da no sertdo. Seja o meu maior inimigo.
Debaixo de minhas telhas, 6 como se fosse
minha familiar.
Ella empallidecia:
Vae dar-se uma desgraga. Estou
certa. Meu coragdo nunca mentiu.
Villarim obstinava-se:
No fim da certo.
Roberto entrou, na hora:
Entdo, que houve? Tudo corn ca-
ra do outro mundo!...
Villarim acercou-se delle:
Roberto, voc6 me da uma pala-
vra? Venha ca. Diga-me uma coisa.
Dorita ficou receiosa:
Deixe para depois.
Chamou o noivo.
Villarim pegou-o pelo brago:


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C O I T E I R O S


Que 6 que voc6 fazia, se um cri-
minoso, fosse mesmo um cangaceiro, pe-
disse pousada em sua casa?
Elle ficou confuso.
Villarim foi mais claro:
Dava parte delle a policia?
Nao, senhor.
Fazia-lhe algum mal?
Nao, senhor.
Roberto picava-se de curiosidcade:
Mas, porque'pergunta?
Por perguntar. A gente deve sa-
ber de tudo.
D6rita animou-se de uma esperanga
ingenua:
E' porque Sexta-feira vae Ihe pe-
dir perddo.
Quem j6 viu onCa acuada, cor olhos
de isqueiro, erguendo a mdo temerosa, pa-
ra arrebatar o inimigo?
Elle soltou um rugido de onga acua-
da:


- 43 -







JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Se for... Nao, elle nao vae! Deus
nao me faz essa caridade. Prouvera a
Deus que elle fosse!...
E, cor um olhar tdo forte que fazia
mal:
Entdo, elle disse? Onde esta el-
le?! Digam-me, por amor de Deus, onde
esta elle!
Avancou para D6rita:
Voce vae dizer! Ja-jd! Voc6 diz!
E, amansando a furia:
Voc8 6 b6azinha. Voce nunca me
occultou nada.
Ella dissimulava:
Ora, que tolo! Logo nao esti
vendo que ninguem conhece esse bandido!
Ninguem viu. Ninguem sabe onde es-
ta. ..
E elle na solta dos m6os instinctos:
Pois, eu seria capaz de matal.-o
em rninha casa, a minha mesa, atris de


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C O I T E 1 R O S


minha porta, debaixo de minhaEcama, den-
tro da capella de minha mne!
Nao se continha:
-Eu seria capaz de fingir que o ma-
tava, outra vez, se o encontrasse morto.
' No 6 s6 o sangue de meu pae. E' a hon-
ra de muitas gerag6es. A vinganga sa-
grada, como o patrimonio moral da fami-
lia. Quem deve paga! Disse que nao
perd6o, nao perd6o.
E D6rita, sem saber o que fazia, fe-
chava as janellas, como se tivesse presen-
tido o almiscar da horda sinistra.


- 45 -














Numa noite assim ninguem sabia o
que podia acontecer.
Nada se distinguia, abrindo os olhos;
mas, tudo parecia maior na noite sem
limits.
Noite apagada, cumplice de todas as
impunidades, como um scenario de tra-
gedias.
As4trevas estavam quentes, como o
fumo de um incendio occulto.
E a lentiddo do silencio, cheio de
ameagas, numa espectativa de mysterious,
tinha um ar de eternidade.


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C 0 I T E I R 0 S


S6 o candieiro de kerozene quebra-
va esse mutismo cor estalidos de luz pre-
caria.
0 vento raivoso empurrava a porta,
que rangia, como um bicho querendo
entrar.
0 cao inquietava-se, desconhecendo
as sombras irregulares. Acuava a es-
curiddo fantastic. A serra repetia
esse diapasdo desesperado, em r cos co-
vardes, uivando tamb6m, como um cao as-
sombrado.
Mal cahira a tarde, D6rita fechara
todas as portas e janellas, como se tives-
se receio de que entrasse mais trevas pe-
la casa. 0 sertdo podia dormir aberto,
sem o risco dos pequenos crimes. S6 as
quadrilhas de salteadores o ameagariam.
Ali todas as tragedies eram grandes.
Desde a noitinha, as arvores se tol-
davam, cor as copas carregadas de som-
bras indolentes.


- 47 -






JOSE AMERICO DE ALMEIDA


A casa, de dia, crescia no desert,
amarellando em seus alpendres novos.
Tudo olhava para ella; todos os caminhos
a procuravam. 1Vas, de noite, ficava per-
dida, entire horizontes extinctos.
Q vento vinha rasgando as sombras
lerdas. E batia, num berreiro, como o
rebanho acordado.
D6rita estava passada de somno.
Tinha medo do silencio que exaggera-
va os sons triviaes. Um silencio irrita-
do. S6 se escutava o mugido da venta-
nia, arremedando o gado.
Seu Villarim.
Nao esta.
Seu Villarim.
Ella reconheceu a voz do noivo.
Entreabriu a porta. Viu o ceo agou-
rento. As sombras cahiam no chdo; ndo
estavam mais dependuradas nas arvores
seccas.


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C O I T E I R O S


Nao esta.
Escorreu um pouco de luz do lado de
f6ra.
Pois, adeusinho.
Pbrque nao entra um pouquinho?
Voc6 esta s6.
Que noite mais parecida com... (nao
ha comparagdo possivel).
0 sertdo era mais feio dormin-
do; adormecia para better medo.
Agora, bateram cor choices de ar-
ma.
Troavam pancadas, como marradas
de touros.
Sahiu de dentro uma vozita assusta-
da:
Que quer?
Que abra a porta!
Era mais de meia-noite.
Parecia que vinham na pista de Ro-
berto.


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JOS1i AMERICO DE ALMEIDA


Ella escancarou' a porta, pensando
no noivo que ainda devia andar por per-
to. Evitava o encontro fatal.
P6de-se entrar?
E entraram sem esperar.
Eram figures que irrompiam das tre-
vas.
Tinham rasgoes de cicatrizes pelo
corpo.
Dorita encheu-se de decisdo:
Quem 6 ahi Sexta-feira?
0 bandido estendeu-lhe a mao relu-
zente de anneis:
Toque. Est6 fallando corn elle.
Como ella desejou, nessa hora, ndo ter
mao!
Viu-lhe o rosto crivado de cravos, su-
jo da polvora dos tiroteios.
Estavam todos entrancados de ar-
mas. E tostados dos fogos do sol e dos
combates.


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C O I T E I R O S


O bandido conheceu que sua presen-
Ca, em hora tdo impropria, era um moti-
vo de vexame incorrigivel:
Sossegue. Estou virgem de fa-
zer mal a moga donzella. Nao se afo-
be.
VWr um era ver todos. Poucos mal
encarados. S6 o negro Setecouros, hy-
brido de monstros, tinha feig6es repulsi-
vas.
Os estigmas do crime estavam oc-
cultos na alma de cada um.
Ella sorria. S6 sorrindo, podia trans-
formar, um pouco, a physionomia trans-
tornada.
Procurou conversar, cor uma cara
que queria ser agradavel:
-Eu fazia o senhor differente...
E, distraidamente:
Nem por isso... Nao 6 tanto.
Morta para que sahissem logo.


- 51 -






JOSt AMERICO DE ALMEIDA


Sentaram-se. Queriam comer. Vi-
nham arrazados de fome.
D6rita ria; mas, era precise adivi-
nhar que ella estava rindo.
0 chefe do grupo queria obsequial-a:
Esta este trancelim que eu lhe dou.
Ella vacillou. E, quando ia pegan-
do, cahiu no chdo.
Esta bom! Nao quer?
Fechou a cara, cor estigmas desco-
nhecidos:
Era um mimo. Uma lembranga.
Nao quer, melhor!
Ella tomou-se de coragem:
Conhece Roberto dos Anjos?
0 olhar do bandoleiro acendeu-se, co-
mo um clardo que allumiasse a casa:
Que pergunta!
E rouquejou:
Ah, esse home ndo me traga!
Eu, sendo a senhora, dava-lhe um f6ra.
Poz-se em colera, apertando o g6g6:


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C 0 I T E I R 0 S


Nao tenho medo de careta! Quan-
do me ferve o sangue!... Elle jurou-me.
Mas, praga de urubu' nao mata cavallo.
Aplacou:
Tinha side nelle. Mas, dei a pa-
lavra, esta dada.
E, cor uma falla quebrada:
Se quizer crear meu filho, eu ga-
ranto. Nem elle me desfeiteando...
D6rita andava nas pontas dos p6s,
como se tivesse medo de irritar os can-
gaceiros cor os seus passes medrosos.
Sexta-feira queria tirar qualquer m6
impressed da noiva de Roberto dos An-
jos, dramatizando a origem dos seus cri-
mes:
Eu vou contar. De vez em quan-
do, a boiada arrombava a cerca. Nao
arrombava, que parece que estou vendo
a porteira aberta por ganancia e ruinda-
de. Sem mais, nem menos. Era conse-


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JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Iho de todo mundo: Va dar parte ao ho-
rem. Eu ia. E a senhora se impor-
tava? Assim, era elle. Ainda por cima,
me mandava endireitar a cerca. La vi-
nha a boiada outra vez, arrazando tudo,
comendo at6 as raizes.
Olhou para os p6s:
S6 havia uma defesa do pobre con-
tra o rico: o crime.
E proseguiu no relato:
AtU que, um dia, minha mae pe-
gou um lenco e, ella mesma, deu um n6
na ponta.
Setecouros metteu o bedelho:
Conte a historic como a historic
se deu.
Era o unico que se atrevia a tomar
essas liberdades.
Sexta-feira reatou:
Minha mre deu a sentenga: "quem
tirar tem de fazer o servigo".


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C 0 1 T E I R O S


Sombreou-se:
Cahiu no mais pequeno, um meni-
no, assim de quatorze annos, que estava no
estudo.
E, fitando D6rita:
A senhora logo nao v0 que eu nao
deixava isso?
Descreveu a luta:
Elle nao estava s6. Escorei a ca-
pangada. Juntei tudo no pao. Gritei
para mim: Nao esmorega, amigo velho!
Eu nao possuia arma de fogo. Sapequei
a bicuda. Negou o corpo. Sarjei: v6 co-
mendo! Ficou cor o fato na mao. Mo-
Ihei os p6s no sangue delle.
E explicou:
Foi uma sexta-feira. Nesse dia
nasci, de novo; perdi o nome.
Concluiu:
Esta minha vida ter sido um mao
pedago. Fallar verdade nao 6 crime.


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JOSP AMERICO DE ALMEIDA


Tivera gosto em matar. Descobri-
ra em si instinctos sanguinarios que des-
conhecia.
Vira outros matarem por muito me-
nos e terem a impunidade assegurada nos
reductos do mandonismo sertanejo.
Imaginou:
Se havia de ser capanga, ia ser
cangaceiro. Depois de perdido, perdido
e meio.
Ainda perguntava:
Entdo, eu havia de me entregar?
E arrastou comsigo toda a familiar
para o cangago. Quem ficasse em casa
pagaria por elle.
Ndo se arrependeu do crime. Sem
ter remorso, podia ser tudo, at6 canga-
ceiro.
D6rita sabia que a victim era o pae
do seu noivo:
Pois, foi muito mal feito.


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C 0 I T E I R 0 S


Sexta-feira nio se zangou:
Ja viu que moga!
Ja se haviam passado tres annos e
era a mesma coisa. Era uma historic
que se repetia. Matavam-se os vizinhos,
por quest6es de terra.
Sexta-feira lembrou um caso recen-
te:
Nao viu agora? Amarraram as
fraldas das camisas. Facada vae, faca-
da vem. Esfaquearam-se. Foi facada
de morte e paixdo.
Commentou:
Assim nao escapa. Liquidaram-
se. Nao cahiu cada qual para seu lado,
porque cahiu um em cima do outro.
Era uma dessas chronicas comezi-
nhas do interior: cadaveres servindo de
marcos das quest6es de terras safaras.
Sexta-feira levantou-se, para sahir:
Ate mais.


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JOSk AMERICO DE ALMEIDA


D6rita perguntou:
Quando chega?
Nao ter hora para chegar.
Quando volta?
Nao ter dia.
NMo houve nada. Ella mesma pen-
sou, corn um triste sorriso de allivio:
Peor poderia ser.
E ndo pregou olhos o resto da noite.


- 58 -














Tudo podia faltar, menos a secca.
Podia faltar a chuva, atW um lustro, es-
quecida de cover. S6 nao faltava o sol,
que era a secca.
Nao se sabia quando vinha. Perde-
ra a pontualidade cyclica, que assignala-
va os annos mdos de cada seculo, em nu-
meros de ferro em brasa, para emboscar
a felicidade contingent 'dos sert6es, corn
martyrios insidiosos.
S6 havia uma predicgo fatal inscri-
pta cor caracteres de fogo na terra volu-
vel: chova como cover, a secca volta.


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JOSI AMERICO DE ALMEIDA


Fallava-se da secca como de um mons-
tro conhecido, que ia e vinha, devorando
terra e gente. A secca veiu; a secca pas-
sou. Apontavam seu rastro, por toda
parte, coberto de ossadas marcantes.
Mais um anno de maldicao. Os ser-
tanejos recebiam-no cor uma submissdo
a fatalidade saturada de certo brio no sof-
frimento.
Viviam estava bem; morriam -
tinham que morrer.
Approvavam todas as desgracas com
um vigoroso sentido da condicgo huma-
na. 0 soffrimento era, na verdade, a
mais bella expressed da vida, para quem
sabia soffrer, ser temer nem desejar a
morte.
Era uma dessas seccas vulgares que
acabavam cor tudo.
D6rita fizera-se, pelo coracao, en-
fermeira de todos os retirantes.


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C O I T E I R O S


Agarrados a terra, s6 a largavam se-
mi-mortos, como a arvore que cae pela
raiz.
Esperavam:
Vou-me arrastando por aqui mes-
mo. Estou afuturando.
E perdiam a esperanga, quando olha-
vam para o ceo:
Chove mais o qua! Chove ndo!
Como ficar?
Trabalhar 6 que ninguem traba-
Iha. Fazendo o qua? S6 se f6r cada
qual cavando a sua c6va.
A terra s6 se abria para enterrar os
mortos.
Cogavam, final, o pescogo, em signal
de desespero:
Vae-se nessa andarella.
Dbrita confortava:
Va que volta. Va que voc6 volta.
Era o mais que podia dizer.


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JOS-E AMERICO DE ALMEIDA


Que felicidade voltar, para ir de
novo; voltar, para soffrer, outra vez, o
que ja havia soffrido!...
Entreolhavam-se na indagagco do
mesmo destino. E baixavam a vista: ne-
nhum queria reconhecer-se na imagem do
outro. Nao se fallavam. Ninguem que-
ria ouvir a voz commum da tragedia.
Tinham as bocas tao reentrantes, co-
mo se estivessem se comendo a si pro-
prios.
Respondiam mal a quem quer que os
carpisse:
Quem soffre por mim mneu cor-
po; quem chora por mim sdo meus olhos.
Para que humilhal-os cor lamenta-
g~es estereis?
Nao adeanta id4a.
Media a distancia insensivel. A
terra da retirada era sem fim.
Desfilavam. Ja era ura tragedia
tao banal que ninguem se commovia.


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C 0 I T E I R 0 S


Ninguem podia ter pena, porque todos
soffriam. Nao era mais uma tragedia:
era a vida commum, a sorte de todo mun-
do.
Trilhavam o pedregulho asperrimo.
Ninguem os chamava. S6 o caminho
aberto para desconhecido.
E fallavam de terras fartas. Todos
manifestavam o horror dos casebres po-
dres da terra da promissdo.
Iam acompanhados de alguns ces
acabados, cor as orelhas tdo murchas,
como se estivessem mortas. Nao ladra-
vam, vendo o desfile macabro: estavam
acostumados a andar cor fantasmas.
0 unico traste que levavam era a pe-
quenada nas costas.
Mulheres innocentes, que s6 queriam
comer, iam arrastadas pelo vento, como
um panno velho.
Deixavam-se ficar distrahidos, de-
baixo das arvores, como se estivessem em


- 63 -






JOS AMERICO DE ALMEIDA


suas proprias casas. Uma march de
somnambulos. Dava vontade de acordal
os e dizer-lhes: Olhem, voces estdo per-
didos. Procurem outro caminho.
E, por cima, iam tambem as migra-
g~es de v6o lento. Azas, que se encan-
deavam, perdidas no sol.
O vento desembestava, arrancando
punhados de folhas amarellas, mutilando
as plants sobreviventes.
Em vez de dar de comer e de beber, a
terra devorava seus proprios filhos.
Nao. A terra nao era inimiga; es-
tava doente. Soffria mais do que o ho-
mem, com febre alta.
S6 nao tinha o suor da agonia. Era
uma agonia secca.
Ou dava tudo ou nao dava nada.
Emquanto os retirantes passavam, na
debandada, fugindo da morte, as arvores,
feridas tambem pela tragedia, continua-
vam plantadas no chdo, prisioneiras da


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C 0 I T E I R 0 S


inamovibilidade vegetal, chumbadas ao
sacrificio insanavel.
0 sacrificio do home nao era mais
do que o sacrificio da terra. Soffria por
ella. E a terra tinha uma forca huma-
na que a identificava cor o home nos
mesmos desastres.
Arvores rombudas, decapitadas, pa-
ra darem seus melhores ramos ao gado
inanido.
Heroismos vegetaes. Campos roidos
at6 as raizes.
Plantas que nunca chegariam a ser
arvores, vergavam-se carregadas de sa-
mambaias e ninhos mortos.
Corria que os cangaceiros estavam
distribuindo racgo aos flagellados:
Estdo dando esmola a pobreza.
0 retirante nio furtava, sequer, para
comer. Nao sabia que a fome era sem-
pre absolvida.


- 65 -






JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Preferia morrer de fome a tocar no
alheio. No fim, pedia esmola, sem sa-
ber, como quem nao precisa. Faltava-
Ihe o semblante tocante do mendigo; ti-
nha fome de retirante que ja perdera o
geito de comer.
Via os bandidos. Mas, para elle o
cangaco era um meio de vida de quem j6
estava perdido.
Quando inquirido, o mais que dizia
era:
Anda aqui; onde, ndo sei.
E o bandido dava uma esmola, como
quem compra um alliado. Mas, por uma
simples suspeita, commettia barbarida-
des infernaes.
Esvaziavam-se as fazendas de reti-
rantes, tdo tropegos, como se ainda esti-
vessem aprendendo a andar. Arreavam-
se-lhes as pernas; andavam de c6coras.
Os bragos, ao vento, como fiapos de vida;


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C O I T E I R O S


as bocas, tao mirradas e pretas, como se
fossem de came secca.
E, quando se desbaratavam, ninguem
se lembrava mais de suas tormentas ha-
bituaes.
S6mente um ia e vinha. Parecia ter
medo de chanaan. Parecia encadeada ao
sertAo malfadado, como um seu rebento.
Partia e retrocedia.
F6ra corrido pela onca faminta que
farejava o curral pegado a casa; costu-
mava alapardar-se, atras dos rochedos, so-
erguendo-se, apenas, para ver se a estra-
da ainda ondulava; cahia, as vezes, no
matto, com o rosto no chdo, como morto.
Achava-se em toda parte e ninguem
o reconhecia.
Era o mais envergonhado dos flagel-
lados. Nunca se deixava olhar de fren-
te.
Sabia-se, tao s6mente, que trazia
oculos escuros, como Lampedo.


- 67 -






JOSA AMERICO DE ALMEIDA


D6rita jd se tomava de temores. Sus-
peitava que fosse Sexta-feira, tocaiando-
Ihe o noivo, nas beiradas da fazenda.
Prostrou-se, certo dia, uma vacca
moribunda no terreiro.
Levantava o focinho, cor o beigo de-
pendurado, como se s6 tivesse a cabega
viva. E olhava cor uns grandes olhos de
gente.
D6rita nao tinha o que Ihe dar, deu-
Ihe seus craveiros.
0 retirante mysterioso observava, de
long, essa scena tocante.
Ella dava os cravos vermelhos, como
se d6sse o seu proprio sangue.
0 pobre animal, que nao tinha nem
espinhos para comer, comia flores, cor
a boca cheia, feita um canteiro perfuma-
do.
E D6rita chorava, cor pena dos seus
craveiros, dando mais, atW o ultimo, pela
mao tremula.


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C 0 I T E I R 0 S


0 flagellado incognito espiava ainda,
sem se lembrar, nesse enlevo, de encobrir
a face commovida.
E, quando D6rita correu para elle,
ndo teve coragem de correr della.
Era Roberto, disfargado em retiran-
te, a tocaiar Sexta-feira, corn a sua ob-
cessdo de vinganga.
E ella encheu-se de um pavor maior,
do que se fosse o bandido, a espionar a
casa, vendo-lhe o noivo entrar e sahir, ao
alcance do seu tiro.


- 69 -














A malta cruzava as catingas cor
uma mobilidade infinita, um dom de ubi-
quidade que trazia a policia, as cegas, fin-
gindo que nao via ou nao podendo ver.
Chegavam noticias de various crimes
perpetrados, do dia para a noite, nos pon-
tos mais distanciados.
Amanhecia aqui, anoitecia acola.
Era o condo da impunidade.
Quando Villarim estava em casa, D6-
rita escondia-se num quarto, para ndo
ver os malfeitores; quando se achava
ausente, fazia as vezes delle.


- 70 -






C O I T E I R O S


O andarilho indefesso que, nos dias
difficeis, s6 estacava para a emboscada,
volveu, mais uma vez, a fazenda.
Pelo geito, vinha cor a f6rga no ras-
tro. Entrou, de uma arrancada, para a
sala de jantar. Tinha a fome chronic
'do desert.
0 grupo estava maior. Era assim,
como as families sertanejas, que augmen-
tam e diminuem, de uma hora para
outra, conforme o bom ou mro tempo.
Sexta-feira apresentava os novos as-
seclas:
'So meus rapazes. S6 acceito os
que tnm character de morrer commigo.
E ageitava o lengo de sida, preso ao
pescogo por um annel de brilhante.
Estavam vestidos de kaki e mescla.
Cor alpergatas de rabicho. Ndo tira-
vam o chap6o de couro da cabega.
Dbrita indagava:
Onde andou?


- 71 -







JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Sexta-feira desconversou:
Isso nao sei.
Ja viu a fazenda de Roberto?
Nunca. Minto. Uma vez, quan-
do dei passage ao pae delle para o outro
mundo. Nao foi mesmo na fazenda: foi
na testada.
E, como o jantar estivesse demoran-
do, passou a d'itar cartas: Mande dois
contos, tr&s contos, cinco contos. Se nao
mandar, mato o gado, queimo as cercas,
mato voc6 mesmo...
Nao era de accord com as posses
de cada ur; era conforme a mr vonta-
de.
Ditou, ao todo, seis bilhetes aos fa-
zendeiros que remanesciam nas redonde-
zas.
Depois que D6rita escreveu, compre-
hendeu em que tinha cahido. Sua cal-
ligraphia seria uma denuncia viva; mas,


- 72 -







C 0 I T E I R O S


reparando, nao reconheceu a propria le-
tra.
Sopitando a aversdo visivel, ella que-
ria fazer uma obra de caridade:
Por que nao deixa essa vida?
Tinha a esperanga de arredal-o do
crime.
Elle confessou:
Vontade nao me falta. Nao 6 do
meu gosto.
Est6 nas suas mros. Ter o re-
medio nas suas mAos. Porque nao se en-
trega? E' uma vida sem descanco.
Nao estou f6ra disso. Mas, sem-
pre 6 melhor do que cadeia.
Batia no peito:
Vivo nao me pegam!
S6 havia um meio de vida que nao se
podia mudar: o cangago. Isso ou a ca-
deia.
Elle continuava:


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JOS AMERICO DE ALMEIDA


Entrei nesta vida sem vontade.
Entrar 6 facil; sahir 6 que 6 ella. E' es-
ta a minha sina: andar andando.
Tinham uma felicidade: a de nao
possuirem casa, nao serem forgados a vi-
ver na mesma casa.
Tudo era seu, sert6es a dentro. E
nao podiam estar em parte alguma:
Vivo nesses sovacos de serra. Ja
remexi todo esse matto. Nao ha p6 de
pdo que nao tenha dormido embaixo.
Quando aperta a perseguicgo, passa-se o
tempo no fechado.
Andava, ao 16o, nas serras bravias.
E ainda mostrou o que era a vida an-
deja:
Conhego tudo como a palma de
minha mao.
. Ella acabava corn pena:
Tem-se visto!
Estou feito. 0 remedio 6 ir le-
vando assim.


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C O I T E I R O S


Era uma prison vigiada por todos os
lados; mas, coberta pelo c6o.
Setecouros afiaXa o punhal de ponta
de espada na pedra de amolar. Nao ti-
rava os olhos de cima de D6rita e conta-
va pabulagens em confiss6es monstruo-
sas,.
i JElla visava justificar o pae:
Ha muitos coiteiros...
No geral, protegem. Uns por
medo; outros por interesse. Uns por
vinganca; outros por dinheiro. F6ra a
parte, os politicos.
Sexta-feira gabava Villarim:
Seu pae 6 um home; nao se suja
cor porcaria.
0 bandido nao gostava dos deshones-
tos.
Naquellas paragens, um cangaceiro
era o melhor alliado. Nio atacava e de-
fendia dos inimigos.
Ainda esclarecia:


- 75 -






JOS AMERICO DE ALMEIDA


No matto, s6, a gente nao podia
viver: tern que comer, vestir, arranjar
munigdo. Entdo como 6?
Setecouros blazonava, a parte:
Mato por conta dos outros. Ahi,
a culpa nao 6 minha. Nao ter preco. Se
puder, paga bem; se nao, 6 o custo da ba-
la. Eu, cor o meu pio de fumaga...
Innocentava-se:
Quem mata arrisca a vida.
O vaqueiro, cria de casa, ouvia tudo,
boquiaberto de enthusiasm. Procurava
saber de cada um:
Ja ter muitas nas costas?
Examinava a coronha dos rifles, con-
tando as riscas que correspondiam ao nu-
mero de mortes feitas.
Os cabras elogiavam o chefe do ban-
do:
E' bicho marau, de morrer e ma-
tar. Nunca negou f6go.


- 76 -






C 0 I T E I R 0 S


Sexta-feira, cheio de empafia, fecha-
va a cara:
Assim me consider.
Dorita, de vez em quando, corria a
janella.
Notou que Sexta-feira se incommo-
dava cor essa inquietagdo. E disse-lhe:
0 senhor desconfia de tudo.
At6 de mim. E' da vida. Quan-
do scismo de alguma coisa... Da boca de
meu rifle ninguem ainda escapou. Fico
dormindo na pontaria, at6 metter a espin-
garda em cima.
E, parecendo uma indirecta:
Quando moga ndo anda direito,
dd-se bolo. Endireita.
D6rita queria saber de tudo:
E nao se arrepende do que faz?
No fim de um certo tempo, a gen-
te faz tudo. Antes, tinha atW medo de
alma; hoje, estou aquilotado. Mata-se
uma vez, mata-se duas, fica-se matando.


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JOSt AMERICO DE ALMEIDA


Setecouros completou:
Mata-se ate, por distracgo, para
fazer pontaria. Atira-se, para ver a quB-
da. Tanto faz atirar num home, como
num passarinho. Atira-se por atirar.
No desert, f6ra da vida, nao podiam
pensar de outra f6rma.
Sexta-feira comparava:
Peor do que n6s 6 capanga. Ma-
ta e esfola! E fica por isso mesmo. Nao
se faz o que elles fazem; tem costas quen-
tes.
Manifestava um grande orgulho dos
seus crimes mais arriscados. Dos he-
roismos anonymous; mas, era de ordinario,
a inconsciencia fatalista:
Ninguem more na vespera.
D6rita perguntou pelos rosarios de
orelhas, embora nao quizesse vel-os.
Todos riam. S6 Setecouros tinha o
seu.


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C 0 I T E I R 0 S


E, abrindo o peito, mostraram rosa-
rios authenticos, medalhas, bentinhos e
escapularios.
Tambem tinham oracgo de fechar o
corpo:
ORAQAO DO JUST JUIZ

t
Justo juiz de Nazareth, filho da
Virgem Maria que em Bethlem fos-
te nascido, entire as idolatrias, eu
vos pego, senhor, pelo vosso sexto
dia, que meu corpo ndo seja preso
nem ferido, nem morto, nem nas
mdos da justica envolto. Pax Te-
cum, Pax Tecum, Pax Tecum.
Christo assim disse aos discipulos
Se os meus inimigos vierem para me
prenderem, terdo olhos, ndo me ve-
rdo; terao ouvidos, nao me ouvirao;
terao boca, nao me fallardo. Eu,
Jos6, cor as armas de S. Jorge, se-


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JOSE AMERICO DE ALMEIDA


rei armado; eu, Jos6 cor a espada
de Abrahio, serei coberto; eu, Jose,
cor o leite da virgem Maria, serei
borrifado; eu, Jos6, corn o sangue do
meu senhor Jesus Christo, serei ba-
ptisado; eu, Jos6, na area de No6 se-
rei arrecadado; eu, Jose, com as cha-
ves de S. Pedro, serei fechado onde
ndo me possam var, nem ferir, nem
matar, nem sangue do meu corpo ti-
rar. Eu, Jos6, tambem vas peco,
senhor, por aquelles tres calices ben-
tos, por aquelles tres padres revesti-
dos, por aquellas tres hostias con-
sagradas, que consagraste ao tercei-
ro dia, desde as portas de Bethlem
at6 Jerusalem, que com prazer e ale-
gria, eu, Jose, seja guardado tam-
bem de noite, como de dia, assim co-
mo andou Jesus Christo no venture da
Virgem Maria. Deus donate, paz, na


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C 0 1 T E I R 0 S


guia, Deus te d& a companhia que
Deus deu a sempre virgem Maria,
desde a casa santa de Bethlem a Je-
rusalem. Deus 6 teu pae, a virgem
Maria tua mae; cor as armas de S.
Jorge serds armado, cor a espada
de S. Thiago, eu, Jos6, serei guarda-
do para seppre. Amem!

Outro tinhd a de N. S. do Monte
Serrat.
Setecouros zombava:
Deus 6 grande e o matto 6 maior.
Cada um assombrado, que ndo serve nem
para carregar arma, fechando o corpo...
Eram de toda parte. 0 sertdo dava
poucos bandidos; acolhia-os, por6m, no
desert despoliciado, protegido pela so-
liddo.
Havia, por6m na regido alguns vi-
veiros do crime.


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JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Zigue entrara pelos funds da casa.
Trazia agua para os craveiros que ja
nao existiam.
Ao dar cor os cangaceiros, arredon-
dou os olhos vibrantes de surpresa e ter-
ror, como se estivesse vendo uma chus-
ma de espectros.
E foi ficando tremula, da cabega aos
p6s, atW que se Ihe convulsionou todo o
corpo, numa tremura de maleita.
D6rita chamou-a. Estava que esta-
va nos ares.
Jogou-se, entdo, no meio da sala, a
cabriolar, dansando e chorando, sempre
de costas, virada para a parede, como se
estivesse nua.
Setecouros sahiu a dansar cor ella.
Nao o repelliu. Afagava-o, ao contrario,
contra o peito, beijando-o, molhando-o de
lagrimas quentes, pensando que estava
jungida ao filho morto.


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C O I T E I R O S


Dansava, num redemoinho sujo, que-
rendo arrancar o vestido, como se a pel-
le se Ihe fosse largando do corpo, aos mo-
lambos, que Ihe escorriam pelo venture.
Desatou-se um punhado de trapos.
Soltava esguichos de voz tumular que
ninguem entendia.
D6rita comprehendia como era hor-
rendo o crime professional. Os canga-
ceiros ndo denotavam a menor sensibili-
dade nessa evocagco dantesca.
Ella cahiu, finalmente, de mros pos-
tas, como se estivesse rezando.
Era uma f6rma de delirio que ainda
ninguem testemunhara. S6 se vendo.
D6rita acolheu-a nos bragos, cor um
carinho de enfermeira, que curava pelo
coragdo.
Gostava uma da outra. Quer dizer,
D6rita tinha pena della.


- 83 -






JOSk AMERICO DE ALMEIDA


Os scelerados sahiram, cortando. fios
telegraphicos. Cortando linguas e ore-
lhas de gente. Castrando. Estupran-
do. Queimando cercas. Atirando nos
rebanhos.
S6 a fazend'a vinha sendo poupada.
D6rita quase dava razao ao pae.


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VII


Dorita corria ao encontro do noivo,
apenas ouvia bater a porteira, que era
uma pancada em seu coracdo atormenta-
do.
Habituara-o a essa recepcao, f6ra de
portas, receando que elle fosse surprehen-
dido, em casa, pelo bandido, numa de
suas visits inesperadas.
Distraia-o, por f6ra, afastando-o o
mais possivel, do caminho infestado.
Um mesquinho tchoc-tchoc de alper-
gatas mettia-lhe mais mido do que tiros
de bacamarte.
E vagueavam pelo campo sem som


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JOSE, AME RICO DE ALMEIDA


bras. S6 os serrotes tostados estendiam
alguns retalhos pelo chdo desnudo.
0 sol parecia queimar as proprias
sombras, que ficavam amarellas, como
resteas quentes.
Era uma luz delirante que sapecava
as pedras.
Alguma garia seccava antes de ca-
hir.
O sol era um estigma no c6o descon-
forme, inflammado, escorrendo luz.
As proprias arvores tinham galhos
faiscantes.
D6rita procurava evitar a luz incom-
moda, acolhendo-se na sombra movediga
do noivo.
Os bichos tambem esperavam as som-
bras das nuvens, correndo cor ellas.
As arvores mal se aguentavam nas
suas pernas de pdo, todas c6r de cinza,
como se estivessem cobertas de poeira.


- 86 -







C O I T E I -R O S


Viam-se algumas, carregadas de uru-
bhs, que formavam uma c6pa escura, gras-
nando, como se os garranchos estivessem
rangendo em attrictos funerarios. E os
urubis desciam, cambados, atrds da car-
nica que seccava, antes de apodrecer.
Outra arvore secca parecia revives-
cer cor uma cobra verde enrolada no
tronco morto.
S6 os joazeiros enramados fructifi-
cavam, em pingos cor de ouro, como se
tivesse cahido sobre elles uma chuva cor
sol.
Ella procurava ainda dissuadil-o do
juramento que Ihe marcava o destino: o
crime pelo crime.
Elle ficou taciturno.
E D6rita preoccupou-se:
Em que voc6 est6 pensando?
Em nada.
Diga em que voce esta pensando.
Em nada.


- 87 -







JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Devia ser a suspeita da protecco
perfida.
Vendo-a tdo retrahida, elle riu. Era
um disfarce doloroso. Um riso que nao
Ihe mudava o ar do rosto. Retorcia-lhe,
um pouco, a boca, sem brilhar nos olhos,
nem abrir-lhe a physionomia. Esse ri-
so era, apenas, um tremor de labios. Elle
queria atinar cor o mysterio dos ultimos
tempos:
Agora, quando voce me vista,
perde o ar, fica toda atrapalhada.
Esta brincando...
E ella pediu-lhe:
Nao diga isso!
Entdo, elle interrogou:
Voce jd viu um cangaceiro?
Parece.
Viu ou noo?
Parece...
Diga se viu.
No sei ndo.


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C 0 I T E I R 0 S


Virou a cara cor um mrdo medonho
de chorar. Era um costume que ella ti-
nha, como se ndo quizesse se desmentir
cor a vista.
Fugiu-lhe todo o sangue do rosto.
Seus olhos cresciam tanto, como se
quizessem ver uma coisa invisivel.
O joazeiro decotado ia ficando ro-
deado de rezes escaveiradas.
Os bichos erguiam-se nas patas tra-
zeiras, como figures de uma bumanida-
de caricata, para alcancarem os ramos
mais elevados.
Perfilavam-se, assim, por alguns ins-
tantes.
Rodopiavam e viravam, de costas,
uns sobre os outros, como uma ruma de
cadaveres.
Roberto tornou a sua ansiosa curio-
sidade:
Ja viu Sexta-feira?
Nunca.


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JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Nunca o que! Jure!
Pelo que ha de mais sagrado.
Tanto soffria em jurar falso que Deus
haveria de perdoar. Sabia que mentia.
Nao seria capaz de enganal-o. Mas, sen-
tia, final, que a mentira que os salva-
va era mais grata que a verdade. Pre-
feriria mentir cor o silencio. Respon-
der sempre: Nao sei... Seria uma men-
tira mais honest.
Roberto retomava o fio da conversa:
Eu soube de uma coisa que, sen-
do verdade...
Ella estremeceu:
E' mais facil ser mentira.
Empallideceu cor uma grande pre-
occupacdo no olhar pregado no chdo.
Estava tdo long de saber o que el-
le pensava!
Roberto queixou-se:
Porque voc6 ndo me diz tudo?
D6rita aborreceu-se:


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C O I T E I R O S


Dizer tudo! Meus segredos sao
mais seus do que meus. VWm todos de
voce.
0 sol ia abrandando. Ja ndo era o
c6o resequido que estalava em estreme-
cimentos luminosos.
D6rita divisava a bandeira negra
desenrolada pelo vento.
A tarde esfumagava-se.
0 penacho da coivara, formando nu-
vens rasteiras, era o chamariz da fome.
Soou um tropel de ossos por toda a
catinga aberta. A fumarada era um
aceno de salvagdo.
A16m do sol, o f6go: um incendio
sem chammas, outro cor chammas.
Nao chiava mais, como nas queima-
das de matto vivo.
Assavam-se os cactos de bracos ar-
repiados.


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JOSE AMERICO DE ALMEIDA


O rebanho alvorocava-se. Ouviam-
se mugidos de touros, como berros de
cordeiro.
Era o trote do gado tropego para a
fogueira, trambecando, como uma turma
de doentes graves que tivessem dispara-
do em delirio. Tao magros que se ba-
lancavam, ao vento, como pios secos. E
o vento precipitava-se, derrubando-os.
Ficavam, assim, cor o focinho no ar,
como se quizessem lamber a fumaga es-
voacante.
Os que iam caindo, escabichados, ndo
se levantavam mais. Estiravam os pes-
cocos, que ficavam enormes, para alcan-
carem a raco de espinhos.
Vinham tdo soffregos que tomba-
vam no fogo. Chegavam os focinhos as
labaredas, comendo os espinhos escalda-
dos, lambendo pedacos de chique-chique
ainda chammejantes.


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C 0 I T E I R O S


Engasgavam-se cor brasas, baban-
do-se, a baba feito uma salmoura.
Os mais delles, de tdo fracos, comiam
ajoelhados.
Todos pretos cor a pellagem caida.
O jumento roia casca de pdo. Era o
grande martyr. Nao faziam caso, por-
que ninguem acreditava que elle morresse
de fome.
Como se nao estivesse sentindo nada
disso, Roberto levou a mdo ao peito de
D6rita e s6 encontrou um rithmo de m6do.
Desejava conhecel-a pelo coragdo, jd que
nao podia conhecel-a pelos olhos.
Que queria dizer aquella agitacgo,
de todas as horas, como passarinho que
present o tiro?
Ella parecia tremer.
E a garranchada tremula, emmara-
nhada, como num abrago de medo, deita-
va sombras magras.


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JOS1 AMERICO DE ALMEIDA


A tremura das rezes, tio sumidas,
fez cor que ella deixasse de tremer.
Se se abanavam, largavam, de tio
abatidas, a cauda montada no espinhago.
D8rita chegou-se a Roberto e pediu:
Pergunte se eu sou capaz de mor-
rer por voce.
Voc6 6 capaz de morrer por mim?
Morro.
Voltaram. Vinham vendo arvores
secas, como se as raizes estivessem vira-
das para o ar.
Urn ou outro umbuzeiro provide, vi-
vendo de si mesmo. S6 os umbuzeiros,
nao tendo mais fructos a darem, davam
as raizes. Morriam, dando de comer.
Os cactos ntis, sem folhas, nio ti-
nham o que perder. Quanto mais sol,
mais floresciam, como se estivessem san-
grados pelo sol. Nao se balancavam, aos
sopros de f6go.


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C O I T E I R O S


O chique-chique enroscava-se, de ras-
tros, como digamos an6es cabellu-
dos, tomando a terra as outras plants.
Cada touceira era um monstro de milha-
res de bragos.
A macambira enredava-se. Tecia-se
a si mesma, cobrindo a terra toda de um
tapete crespo, de f6rro vermelho.
Cor6as de frade, ainda vivas, cuspiam
coagulos de sangue pela b6ca f fa.
Cactos por toda parte, atW cravados
nas lages de granite.
O vento, nas arrancadas, sujava o
c6o de poeira. E o c6o como que ficava
maior, enfunado pelas lufadas altaneiras.
E, mais adeante, a odyssea das ca-
cimbas vazias.
O home mettia a cabega na terra,
atrds do fio dagua que fugia, feito um
verme enfiado em entranhas ardentes.
Era uma baba amarga que servia
para beber, na falta dagua.


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JOSE AMERICO DE ALMEIDA


Afundava-se o home no areial es-
gotado. Nunca ninguem penetrou, a
cata do ouro, senhoreado da ansia cor
que se farejava esse thesouro subter-
raneo.
E mal o filete brilhava, aprofunda-
va-se, ainda mais. Quanto mais se des-
cia, mais elle se sumia no sorvedouro.
Novo mergulho nas profundezas es-
torricadas. Obstruia-se o furo no saibro
frouxo.
0 gado estava fossando no leito secco
do rio, cavando cor o focinho em care
viva, que nem mais humido era, encar-
quilhado, como couro cri.
Pesquisava a gota que se esquivava,
escorregava, cahia de cabega para baixo,
enterrando-se vivo, nas c6vas seccas.
Outros lambiam a terra humida, be-
bendo ou, antes, comendo 16do. Chupan-
do a lama, bebendo a lama do pogo es-
curo, afundando as ventas na vasa, cor


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C 0 I T E I R 0 S


uma soffreguiddo de bichos da terra. E,
final, nao encontrando agua, ficavam
ainda lambendo o chdo, cor a lingua pre-
ta sangrenta, bebendo o proprio sangue
gotejante.
Roberto quedou-se:
Eu sei que nao 6 verdade. Nao
sei. Ouvi dizer.
Ella molestava-se:
Tolo! S6 acredite no que eu Ihe
disser. Meus olhos nao dizem nada.
Ber sei que nao 6 verdade. Mas,
precise que me diga, porque eu s6 acredi-
to em voc&. Porque eu nao into a mi-
nha mae. S6 Ihe direi que nao 6 verda-
de, se ouvir de sua boca.
E meio sibilino:
Tenho uma coisa a dizer-lhe.
Ella estava por tudo:
Falle.
Mas, atalhou:


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JOS AMERICO DE ALMEIDA


Voce disse aquillo. Agora, se
nunca se prender nem matar? A gente
ha de ficar toda vida sem powder casar?
Isso ndo! Eu prometto uma
coisa: Sexta-feira ndo viverd nem mais
urn mez. Juro! Nao chegard a tanto!
Que 6 que voc& faz?
Vou procural-o at6 debaixo da
terra!
Ella ficou abstract:
At6 debaixo da terra?!
E perguntou:
Onde estd o vaqueiro?
Sahira, a-toa, levado pela seduccgo
da vida temeraria.
O sertdo, gravado de tantas tormen-
tas, recolhia as primeiras sombras, como
retoques na vermelhiddo do occaso.
O sol, nas ultimas, ainda derretia as
sombras.
O colorido das terras seccas eram
imagens de expiacgo.


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VIII


Um dia, Roberto chegou, sem que D6-
rita tivesse percebido a cancella bater.
Forcejava arredal-o de casa:
Vamos tomar fresco?
Iam tomar banho de mormago.
Nessa tarde amarella, elle relutava:
Noo!
Foi terminante:
Se eu digo que nao quero...
Estava decidido:
Hoje, nao!
Deus do c6o, ella tinha certeza de que
os cangaceiros viriam! Sabia do recado
para o pae.


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